Literatura: pacto entre gêmeas e linguística são trunfos de Daniel Sada em “De duas, uma”

Autor mexicano Daniel Sada (1953 – 2011). Foto: divulgação

Por Carlos Henrique Schroeder

“Algo deve mudar para que tudo continue como está.” A frase de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, autor do clássico O leopardo, bem poderia ser uma das epígrafes do romance De duas, uma (Todavia, 104 páginas, R$ 39,90, tradução de Livia Deorsola), de Daniel Sada (1953 – 2011). Neste breve romance, o autor mexicano admirado por Carlos Fuentes e Roberto Bolaño cria uma história aparentemente simples, sobre duas irmãs gêmeas que se digladiam com seus desejos e anseios numa pequena cidade ao norte do México. Eram como duas gotas d´água, como o texto gosta de frisar. Mas gotas são aparentemente iguais.

“— Se Deus nos fez idênticas, não acredito que, já crescidas, nos passe a perna – proclama, convincente, a que supostamente é a mais taciturna”.

A vida das irmãs nunca foi fácil: da morte trágica dos pais, passando pela tutela da tia Soledad (onde dividiam a casa com uma penca de primos), até se estabelecerem como eficientes costureiras (sempre esperaram que a palavra felicidade saltasse de algum ponto recôndito do universo: mas “a sorte é uma estrela que nenhum olho vê”).

Elas beiram os quarenta anos e trabalham com afinco, com pouco descanso, e o dinheiro parece um alento, mas é vício. Então surge o convite para um casamento, de seu primo Benigno, filho da tia Soledad. Para não atrasar suas encomendas, decidem tirar no Águia ou Sol (o cara ou coroa mexicano) quem deveria ir: Constitución ganha e vai à festa, então conhece Oscar, que passa a visitar as irmãs todo domingo. Todo arrumado e com presentes.

Mas não sabe que de duas, uma. Nem sonha que sua Constitución tem uma cópia fiel. E como elas sempre dividiram tudo, não seria diferente com o namorado. No princípio, combinavam e compartilhavam as conversas que tinham com Oscar, para que não houvesse gafes. Mas depois foram seguindo seus próprios roteiros, imagéticos e corpóreos, e sendo uma irmã mais atirada e outra mais cautelosa, Oscar foi sendo conduzido até a palavra amor, assim como as irmãs. “Mesmo assim são três bocas – a rigor, das duas: uma… E a outra que aceita: três!”

As duas divergiam em seus devaneios: Gloria queria ser “amada por um homem honesto até o dia em que a morte rompesse o deleite”, enquanto Constitución queria uma família antes da velhice, e “desenhava em sua cabeça os rostos dos filhos”.

Quando Constitución é pedida em casamento, não diz sim ou não, joga com Oscar para primeiro conversar com sua outra metade. Ambas queriam sair de suas vidas, buscar um ponto de liberdade. Mas teriam coragem de relegar a outra margem ao esquecimento? “O esquecimento é difícil, porque é como um fantasma que entra e sai de nossos pensamentos quando lhe dá na telha, mas o tempo é mais sábio porque inclui a sua e a minha morte”. Pensam em soluções. Uma ficará com Oscar e a casa e a oficina e a outra com as vastas economias. Glória propõe essa saída e avisa: sairei de casa amanhã mesmo.

Mas há, sempre, entre duas pontas de um destino, uma terceira ou quarta ponta, tal qual na vida, e Sada sabia disso. E da terra de Juan Rulfo e Salvador Elizondo, esta breve narrativa é mais um risco no céu ou uma nuvem afunilada, para o prazer dos leitores que se entregarem aos jogos linguísticos deste irrequieto autor.

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