Com quem temos discutido e a que causas temos realmente dedicado nosso tempo de vida?

Foto: Pexel/Banco de imagens

Em setembro de 2016 ganhei uma fofíssima dog de presente. A Joy é uma maltês muito divertida e amorosa. Veio como sonhei: branquinha de fuço muito preto, cabia na palma da mão. Hoje ela ainda continua leve e pequena, do tipo que dorme debaixo das cobertas abraçadinha contigo e acorda feliz, alongando o corpo felpudinho perto do seu, como se dissesse: acorda, o dia começou, abra as cortinas e sorria!

Se você piscar os olhos, ela começa uma sessão lambe-testa-lambe-queixo, de felicidade. Sempre fui apaixonada por cachorros, então tão logo recebi o presente, bati um foto faceira e postei  para compartilhar minha alegria! Tenho outros quatro cachorros, dos quais dois poodles companheiras que moram com a minha mãe – a Mel e a Nude; e o Obama e a Mana – um pastor alemão imponente e uma vira-lata cheirosinha que adotamos, que ficam no escritório. São imperdíveis.

Postada a foto uma senhora logo comentou que estava decepcionada comigo. Que, como eu, uma pessoa que formava opiniões, estava sendo tão irresponsável e alienada em adquirir uma cachorra de raça, quando o mundo precisava que eu desse o exemplo, adotando cães.

Minha primeira sensação era de que ela tinha me entendido mal, de alguma forma. Minha “campanha” não era “compre um maltês”, minha exposição era de tremenda e inocente alegria. Que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Trabalhar na cura do mundo jamais representará eliminar da sua vida outras escolhas que nos fazem felizes. Precisamos dar a cada coisa o seu lugar. “Peraí, vamos conversar!”

Logo estava eu justificando – quis explicar que era um sonho meu, que era presente, que eu inclusive tinha adotado um dog – na época não era a Mana. Era um cachorro de rua que uma semana depois encontrou o dono. Sonhando em fazê-la ver o mundo com meus olhos, mas quem sabe manter a admiração que um dia ela disse que tinha, tentei demonstrar que nos pertence o direito da felicidade e que ter um cachorro de raça não significa que ignoro ou não amo cada cara de sapeca que só tem um vira-lata bem misturinha. Mas ela – que nunca esteve comigo – se apressou em expressar que UMA escolha minha era capaz de falar sobre todas as minhas outras escolhas.

Ela foi pontual, do tipo “não te sigo mais” e escreveu um texto político entre os comentários – como se eu fosse um sinal da falta de esperança para o futuro. Fiquei tão chateada. Na época pensei que eu deveria ter conseguido dela a compreensão ou o não julgamento que talvez eu tivesse se me fosse apresentado um caso semelhante. Ou até o perdão, se de fato eu estivesse errada e descobrisse isso. Só erra quem age. Hoje sinto que ela não estava aberta a sessão-diálogo e que, em não se apresentando a habilidade da conversa leve e o aprendizado compartilhado, não havia o que ser discutido. Não podemos nos apressar em julgar o que vemos, mas em julgando então nossa pressa deve estar na busca de um diálogo realmente democrático – já que se falou de política – quando dois lados buscam crescer com o ponto de vista do outro, e não derrubar o outro, dando a ele o rótulo sem direito da réplica – ou da remissão.

Acredito que quase todo mundo, por um momento, sonha com a unanimidade. Tornar-se um ser humano admirado, querido, uma inspiração para a melhora do mundo. Mas para quem e a que preço? Com quem temos discutido e a que causas temos realmente dedicado nosso tempo de vida?

Na minha área se fala muito de missão de vida e da busca por um significado marcante para essa jornada – no que diz respeito a ser útil, importante, relevante. Vejo que a gente busca esse sentimento de autoestima e autoconfiança como resultado das relações que mantemos, ao invés de sentir em cada ação do dia uma representação não famosa de nossa importância. Somos a soma das nossas escolhas e nos é reservado o direito – a quem interessar verdadeiramente – de expressar o que pensamos, até que se possa crescer diante de uma conversa generosa e focada em nossa evolução conjunta. #converse #escute #avalie #evolua