Como lidar com o início da adolescência dos filhos

Será que ela vai ficar cada vez mais longe, descobrindo o que gosta e o que odeia?

adolescência
Foto: Pexels

Não aconteceu da noite para o dia, como diziam que aconteceria, nem está sendo tão complicado como talvez seja nos próximos anos, mas a adolescência da nossa filha chegou. Chegou aos poucos, primeiro com sinais de afastamento, depois com algumas novidades, em geral sobre coisas que ela descobriu que não gostava. “Sou alérgica a abacaxi”, declarou um dia. “Não gosto de ovo”, definiu depois de ter adorado por 13 anos. E a mais dolorida revelação, neste verão: “não gosto de praia”.

Me dói no peito. Domingo o mar estava esmeralda e calmo, um vento soprava da terra moldando ondas perfeitamente verdes, o sol estava brando e vimos peixes e caranguejos e pássaros. Mas estávamos apenas eu e minha filha mais nova. Minha filha mais velha decidiu ficar lendo no apartamento. “A praia estava incrível”, disse a ela na volta, na esperança de que dissesse “então vamos que agora fiquei com vontade!”. Nada. Disse apenas “que bom” e voltou a ler o segundo volume da série napolitana da Elena Ferrante.

Não é um afastamento total, ainda temos abertura para conversar sobre todos os assuntos, mas me dói como uma espécie de “adeus”. Será que ela vai ficar cada vez mais longe, descobrindo o que gosta e o que odeia? Gostará pra sempre de vitamina de morango com banana ou um dia acordará dispensando nossa marca registrada? Desmarcará nosso encontro no restaurante favorito? Entrarei eu para o rol de elementos que a desagradam?

Me indigna a atitude tranquila da minha esposa frente a este afastamento crescente. Quero que sofra comigo. Quero que diga “Isto é mesmo um horror! Vamos obrigá-la a ser criança pra sempre”, mas ali está ela, tranquila e entendendo bem todas as mudanças que minha filha está passando. Disse a ela que se não sente muito pelo distanciamento, que pelo menos sinta pelo trabalho incompleto. “Se ela está cada vez mais afastada, pra ser quem ela quer ser, fico me perguntando se está pronta. Se fizemos um bom trabalho como pais.

Se demos a ela todas as condições para fazer boas escolhas. Se o trabalho está completo”, disse eu, esperando despertar algum desespero na mãe. “Mas, Marcos”, ela me disse, “o trabalho nunca está completo. Ela vai crescer e errar e sofrer e errar de novo. E durante toda a vida vai continuar aprendendo”.

Durante toda a vida ela vai continuar aprendendo. O que gosta, o que detesta, no que acredita, quem ama e quem odeia. Descobrirá sobre os segredos do mundo que nunca contamos a ela. Terá ela mesma que sofrer algumas vezes, aprender a ser melhor. E, um dia, aprenderá com uma dorzinha no coração, que amar é também deixar ir.

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