Quando entendi o conceito da compaixão acessei uma conexão diferente com a existência

A compaixão leva em consideração a capacidade que o outro tem de enfrentar seus próprios desafios

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Tive um dos dias mais legais de 2018 nesta semana. Na manhã de segunda-feira tive uma reunião absolutamente incrível com a equipe do Sesc e, no final da tarde outro encontro, dessa vez com três voluntários do Centro de Valorização da Vida (CVV). Nos dois casos o que vi foi gente boa servindo de maneira consistente em trabalhos duradouros – acabei por me sentir alinhada com Deus – e convocada a uma serviço cada vez maior.

Trabalho há 10 anos me propondo a um sentimento de empatia e compaixão. E, neste último ano, tenho recebido demandas bastante sensíveis relacionadas às dores que são trabalhadas de maneira profunda pelo CVV – então foi um encontro providencial.

Sempre gostei da empatia – uma profunda entrega ao processo do outro, quando sentimos o que o outro sente – muito embora o custo desse nível de entrega seja alto. Parte da minha entrega, em uma fase, também tinha base no desejo de ser útil e de encontrar algum significado para a minha vida. Chega um tempo em que a sede por uma missão de vida rouba a cena do dia de hoje e do máximo que podemos entregar para a vida neste exato momento.

Quando, entretanto, entendi o conceito da compaixão acessei um amor mais puro e uma conexão diferente com a existência. A compaixão leva em consideração a capacidade que o outro tem de enfrentar seus próprios desafios. Acredita que cada um carrega os recursos para despertar sua melhor essência, e que cada ser é o exclusivo responsável por fazer o movimento de levantar-se depois de uma queda. O mais difícil do processo de viver com compaixão é segurar o vício do conselho. Ao invés de escutar e fazer perguntas para ampliar a consciência do outro, às vezes a gente se apressa apontando um rumo que nem vamos caminhar.

Uma vez perguntei ao meu pai se eu deveria voltar a namorar um ex-namorado – eu gostava dele, mas queria o endosso do meu pai – como se isso pudesse resolver a angústia de ver que o namoro não valia a pena. Meu pai foi categórico: “Quem vai acordar ao lado dele todos os dias não sou eu, então não distribua a responsabilidade da sua escolha, me tornando co-responsável pela sua decisão”. Fiquei quieta, olhando a responsabilidade que eu mesma carregava de conviver com as minhas escolhas. Seria mais prazeroso se ele dissesse: “Volta!” ou “não volta”. Postergaria e dividiria minha dor.

Quem decide por nós nos torna dependentes, tornando-nos preguiçosos para pensar em nossa própria história.

Tomar decisões difíceis requer ajuda – mas ajuda mesmo não dá quem decide por nós, mas quem nos ajuda a refletir sem julgamento sobre de fato o melhor para as nossas vidas – não no curto mas no logo prazo.

Compaixão foi o que encontrei na segunda-feira. Uma entrega real e significativa de um grupo de pessoas preparada para oferecer ajuda para quem confessa precisar dela. Fiz minha inscrição para ser voluntária e o convido a conhecer o CVV (www.cvv.org.br), que realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail e chat 24 horas todos os dias. E me mantenho a disposição para, com compaixão manter minha crença em nossa capacidade de viver com o nosso melhor e de enfrentar o necessário para despertar essa consciência.

Ah! E, se está com tempo, assiste essa super entrevista que fiz com o professor Paulo Jubilut,  que fala sobre o que conversamos aqui hoje e sobre não se comparar a ninguém:


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