Confira cinco dicas de decoração inspiradas no cinema

Espaços interiores criados em sets de filmagem por competentes e sensíveis diretores de arte poderiam ser lugares reais

O cinema proporciona experiências de imersão tão profundas que, por vezes, acreditamos serem reais suas imagens, mesmo as mais oníricas. Bem que muitos dos espaços interiores criados em sets de filmagem por competentes e sensíveis diretores de arte poderiam ser lugares reais, de tão belos e eloquentes. Então, para te inspirar, apresento hoje cinco obras de cenografia para cinema que reúnem qualidades que toda casa deveria ter: são bem planejadas, bonitas e, principalmente, narram por si as individualidades e as trajetórias daqueles personagens que os ocupam.

FUTURISMO HOT

Futuro brilhante: o branco total de piso, paredes e teto do salão panorâmico é quebrado pelo vermelho das poltronas Djinn Chairs, desenhadas por Oliver Mourgue para a estação espacial Hilton, na obra-prima de Stanley Kubrick (Foto: Reprodução)

Stanley Kubrick se envolveu em cada detalhe das visualidades de 2001 – uma odisséia no espaço (1968), participando da seleção de figurinos, mobiliário, objetos e mesmo a sinalização da espaçonave Discovery. Um inspirador exercício de antecipação de um futuro essencialista e bonito, marcado pelo reconhecimento de qualidades intrínsecas do bom design moderno, como nas mesas de Eero Saarinen, nos sofás e poltronas de Oliver Mourgue e nos talheres criados por Arne Jacobsen. Porque a sensibilidade estética perdura, como um monolito.

A CARA DA RIQUEZA

Deleite: o tributo à forma de todas as coisas, na reconstituição de época de Maria Antonieta (Foto: Reprodução)

Maria Antonieta (2006), com direção de Sofia Coppola e arte de K.K. Barrett, faz minuciosa reconstituição de época para contar a história da personagem feminina que se confunde com a própria história de seu país, a França. A opulência dos espaços monárquicos, a ode à forma e os traços do emblemático mobiliário criado na era dos Luíses estão presentes aqui. Esta cenografia mostra a potência do luxo ostensivo, cuja função ia muito além do deleite visual. Mas a juventude de Antonieta gerava ruídos em suas relações e nos lugares em que estava. Fricções são necessárias, anotemos.

MÍNIMO

Minimalismo P&B: impessoal, mas cheia de estilo, a sala do psicopata yuppie traz peças icônicas do design do século XX, como o par de poltronas Barcelona (Mies van der Rohe, 1929) à direita e a cadeira Hill House Ladderback (Mackintosh, 1980) no fundo à esquerda (Foto: Reprodução)

Um homem jovem e bem sucedido, orientado pelo desejo de status e por pulsões violentas, mora num apartamento lindamente purista na Nova York dos anos 1980. O diretor de arte Gideon Ponte criou em Psicopata Americano (2000) um lar para um personagem dicotômico, maníaco e sedutor. A cozinha industrial em aço inox e a alvura do quarto, para além da economia de formas e cores, tem suas razões pragmáticas de ser. A estética aqui é séria, rigorosa e precisa, e nos convida a um constante exercício de depuração.

APENAS CHIC

Pureza retrô: o quarto do personagem central de A Single Man, classudo e acolhedor (repare na elegância da garrafa de vidro sobre o criado- mudo à esquerda) (Foto: Reprodução)

O designer de moda Tom Ford é mundialmente conhecido pela elegância de suas roupas e acessórios. Como diretor de cinema, esse prestígio também foi mantido, com adições generosas de sensibilidade. A Single Man (2009), que tem direção de arte assinada por Ian Phillips, apresenta uma casa sessentista com ambientes de primorosa composição  atemporal que mesclam paredes de madeira, móveis de formas fluidas e tons neutros. Um lugar impregnado da alma de seu proprietário, um homem fascinado pela beleza.

SÍTIO DE ARTE

xpressivo essencial: em A pele…, o clima contemporâneo e intenso de uma cenografia reverente às artes plásticas (Foto: Reprodução)

Com direção de arte de Carlos Bodelon, A pele que habito (2011) é mais um filme do espanhol Pedro Almodóvar com interiores instigantes, que borram as fronteiras entre design, decoração e arte. Ao mesmo tempo essenciais e fortes, os espaços vazios de base cromática neutra dialogam com móveis de desenho limpo e muitas belas obras de arte, que lhes conferem cor  e expressividade. Entre elas, uma tela de Guillermo Pérez Villalta (de propriedade do próprio diretor), colagens de  Juan Gatti e reproduções, em grande tamanho de duas pinturas de Ticiano.

Leia mais colunas de Sandro Clemes