Confrarias de poker se multiplicam em SC como espaço para se divertir, relaxar, encontrar e fazer novos amigos

Poker - Foto Felipe Carneiro, Diário Catarinense

Poker – Foto Felipe Carneiro, Diário Catarinense

Por Marcone Tavella, especial

Com o baralho espalhado nas mesas ovaladas de feltro vermelho e diante de pilhas coloridas de fichas enfileiradas sobre o balcão, Igor Paraíso, 51, acionou o software no laptop e o tempo começou a correr na tela. Era 20h30min de uma quarta-feira de outubro quando o gerente do Floripa Poker Clube (FPC) deu início a mais um torneio da casa.

– Quarta é o dia que mais enche. A inscrição é mais acessível e acaba atraindo mais gente – disse Paraíso, voltado para um salão de trezentos metros quadrados ainda vazio.

Duas horas depois, cinco mesas estavam com as 10 cadeiras ocupadas por jogadores atentos aos comandos dos dealers, profissionais responsáveis por embaralhar, distribuir as cartas e ditar o ritmo do jogo.

Embora aberto também às mulheres, o público daquela noite era masculino, com idade entre 18 e 70 anos. Eram estudantes, trabalhadores, funcionários públicos, empresários e aposentados em busca de um bom papo, diversão e adrenalina.

Há mais de uma década que o burburinho gerado pelos diálogos e o movimento das fichas é música para os ouvidos de Paraíso, um dos precursores do jogo em Santa Catarina. Foi ele que, juntamente com três amigos, criou ainda em 2007 o circuito Floripa Open de Poker.

– A primeira etapa foi na cobertura do Hotel Majestic. A gente esperava 100 jogadores, mas para nossa surpresa vieram 269 – lembrou.

Para se ter uma ideia, o evento inaugural do BSOP (Brasil Series Of Poker), o campeonato brasileiro do esporte, reuniu pouco mais de 60 pessoas na cidade de São Paulo, em 2006.

– Depois do Majestic, fizemos 27 edições do torneio, e Florianópolis se tornou um polo nacional do poker, atraindo competidores de cidades catarinenses, mas também do Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro. Posso dizer que o circuito foi um marco na formação de vários jogadores que depois se tornaram profissionais e vencedores, como o Alexandre Gomes e o André Akkari – contou.

Hoje o Floripa Open de Poker não é mais realizado, mas o jogo é uma realidade em Santa Catarina, e não para de crescer em valores e número de praticantes.

Torneios são promovidos mensalmente em Santa Catarina, alguns com premiação garantida de R$ 1 milhão. Clubes especializados no esporte, como o FPC, oferecem aos clientes eventos quase todos os dias. Mas a maioria dos jogadores nem sai de casa, devido à alta oferta de torneios diários em dezenas de salas online, como a Pokerstars.

A Confederação Brasileira de Texas Hold’em (CBTH), modalidade mais praticada do jogo no Brasil e no mundo, estima que 7,5 milhões de pessoas joguem poker no país e a cada ano surgem 1 milhão de novos adeptos. Um crescimento que poderia ser maior, não fosse o preconceito.

– O leigo acha que é um jogo de azar, que você vai sentar na mesa e perder o carro, a casa… A gente tem que explicar, ainda em 2017, que se trata de um esporte que tem como um dos elementos o fator sorte, mas que na maioria das vezes vai vencer aquele jogador que estudou e se preparou melhor – comenta Paraíso.

Desde 2010 que o poker possui na Federação Internacional dos Esportes da Mente (IMSA) o mesmo status do xadrez, do bridge e da dama. Dois anos depois, ele foi reconhecido pelo Ministério dos Esportes, que incluiu o jogo no calendário nacional. Na mesma época, virou disciplina na Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp, no Curso Ciência do Esporte. Argumentos que ajudam a consolidar cada vez mais a prática entre pessoas de todas as idades.

A Confederação Brasileira de Texas Hold’em, estima que 7,5 milhões de pessoas joguem poker no país – Foto Felipe Carneiro, Diário Catarinense

Benefícios vão de agilidade no raciocínio ao relaxamento

Vários tutoriais na internet ensinam as regras, que são bem básicas, do Texas Hold’em, a modalidade mais popular. Na visão de Everton Alba, 42, proprietário de uma casa de poker, muito da popularidade do jogo se deve a essa simplicidade.

– Com cinco minutos de estudo é possível sair brincando com os amigos – diz.

Além do lazer e da distração, especialistas enumeram outros benefícios, como a sociabilização, o desenvolvimento do raciocínio lógico e uma melhor leitura corporal do outro. Mas cada um tem sua maneira própria de ver as vantagens da prática.

Para o cardiologista aposentado Valmor Maciel, o poker mantém o intelecto em dia.

– Já comprei 15 livros sobre o assunto e também pratico online. É como qualquer profissão, tu tens que aliar teoria e prática e repetir exaustivamente para se aperfeiçoar. É um jogo que te propõe evoluir constantemente – disse ele, que já venceu 32 torneios no FPC desde 2015.
O construtor Pedro Borba, 59, sai de Santo Amaro da Imperatriz para jogar no Floripa Poker Clube, localizado na Av. Governador Ivo Silveira, em Florianópolis.

– O principal benefício é o relaxamento. Não penso se vou ganhar ou perder, só quero desestressar – contou.

Já o engenheiro eletricista Rodrigo Gramowski, 37, é mais enfático:

– Para mim é uma lição de vida. Assim como eu pondero antes de fazer uma ação no jogo, eu acabo pensando mais para tomar uma decisão no meu dia-a-dia. Na mesa eu aprendo sobre paciência, controle da ansiedade e humildade, pois o ego tem que ser posto de lado o tempo todo – enumerou.

Foto Felipe Carneiro, Diário Catarinense

Amigos criam confraria do esporte

O poker jogado informalmente em casa, os chamados home games, foi a maneira que um grupo de amigos encontrou para manter a proximidade. O que em 2006 era uma brincadeira entre seis amigos acabou se tornando uma confraria que tem 65 nomes na lista.

O The Oldest Poker é realizado uma vez por mês, tem site, regulamento, ranking anual, fichas e mesas estilizadas. Em cada etapa, promovida em um rancho nas margens da SC-405, no Sul da Ilha, em Florianópolis, uma dupla previamente escalada organiza o torneio, prepara as comidas e compra as bebidas.

Um dos idealizadores do movimento, o advogado Norberto Becker, 41 anos, conta que muitas amizades surgiram nas mesas do The Oldest.

– Um ia convidando o outro e o grupo foi crescendo, proporcionando esse momento legal de descontração e de reencontros. Aqui a gente tira o estresse do trabalho, fala de política, de futebol e de poker, claro – comenta Becker.

Embora seja aberta a novos integrantes, cada etapa é limitada a 27 pessoas, de acordo com um critério próprio. A inscrição é de R$ 130 por pessoa, mais a ajuda de custo para alimentação e bebidas. Do valor da inscrição, R$ 100 vai para o pote, que é distribuído proporcionalmente entre os primeiros colocados. O restante é dividido entre a caixa da etapa do final do ano e para um projeto social a ser escolhido pelo grupo.

– É um lazer barato, se pensar que eu gasto R$ 55 para jogar futebol por uma hora toda segunda-feira e não ganho nada no final. Aqui tu fica entretido por até cinco horas e ainda tem chance de levar uma graninha. Mas isso é o que menos importa – observa o gerente comercial Mateus Marques, 39.

Assim como os campos de terra do Brasil formaram vários craques da bola, muitos dos “peladeiros” do The Oldest jogam em competições pelo Brasil e o mundo. O próprio Norberto já venceu torneios em cassinos de Las Vegas, a meca deste esporte.

Grupos de amigos se encontram semanalmente para jogar poker – Foto Felipe Carneiro, Diário Catarinense

De Neymar a Bolt, famosos apaixonados pelo jogo

Poucos esportes podem reunir em uma mesma disputa Ronaldo Fenômeno, Neymar, Denílson, Maurren Maggi, Virna e Felipe Massa. Atraídos pela competitividade e pela adrenalina que antecede a virada das cartas, estes e outros esportistas estão virando figurinhas fáceis em torneios de poker pelo Brasil.

Um destes famosos que têm se destacado é o manezinho Fernando Scherer, o Xuxa. Campeão mundial e das américas e medalhista olímpico, o ex-nadador venceu no ano passado dois torneios paralelos do BSOP. Um deles superando o multicampeão das mesas, André Akkari.
Fora do Brasil, atletas do quilate de Usain Bolt, Rafael Nadal, Michael Phelps e Cristiano Ronaldo são outros apaixonados pelo esporte.

Amador muda a história

Originário do Poque, jogo francês do século 17, o poker se disseminou nos Estados Unidos ao longo da rota do Mississippi e floresceu durante a corrida pelo ouro, rumo ao Oeste do país. Por essa razão a imagem do jogo esteve por muitos anos associados aos cowboys. Mas um fato em 2003 mudaria para sempre a cara do esporte.

Um contador do Tennessee, chamado Chris Bryan, venceu um torneio online de US$ 40 dólares no site Pokerstars e ganhou uma vaga com tudo pago para disputar o World Series of Poker, a Copa do Mundo do esporte, disputado em Las Vegas. Com um desempenho de profissional, ele superou 829 jogadores e tornou-se campeão do torneio, levando US$ 2,5 milhões.
O “conto de fadas” em que um amador poderia vencer um torneio milionário acabou atraindo pessoas do mundo todo, que passaram a estudar e praticar a modalidade. Foi o chamado boom do poker.

Desde então, centenas de salas online surgiram impulsionando uma indústria de jogos digitais que é considerada a 3ª maior do planeta, atrás apenas da petrolífera e automotiva. Somente a marca Pokerstars, que extrapolou a internet e realiza eventos milionários em cidades pelo mundo, conta com 17 milhões de expectadores em suas transmissões por ano, tem 108 milhões de jogadores inscritos na plataforma e em 2016 atingiu a receita de US$ 1,1 bilhão.
O feito de Chris Moneymaker levou de vez o jogo dos saloons enfumaçados para os monitores.

Onde jogar em Santa Catarina

Florianópolis – Floripa Poker Clube
Joinville – Joinville Poker Clube
Balneário Camboriú – VIP Poker Clube
Itapema – Espaço Poker
Itajaí – Siri Poker Clube
Blumenau – Associação Blumenauense de Carteado / Rekop
Brusque – Royal Poker Clube
Jaraguá do Sul – Associação Jaraguaense de Texas Hold’em
Chapecó – Oeste Poker / Clube 2A
Caçador – Caçador Poker Clube
Lages – Kings Poker Clube
Criciúma – Veneza Poker Clube
Tubarão – Gadare Poker Clube
Fonte: Liga Catarinense de Poker

Leia mais:
9 dicas de livros para o finde
Empresário de Joinville relata em livro a experiência de atingir o cume de uma das montanhas mais altas do planeta, o maciço Vinson
Veja quais os copos para cada tipo de cerveja