“Eu não posso mais ser uma versão editada de mim mesmo”: conheça o Transdiário

O youtuber Luca Scarpelli estará em Florianópolis neste fim de semana e, nesta entrevista, fala sobre o processo de transição de gênero

luca scarpelli, do transdiário
Foto: Instagram/Reprodução

Luca Scarpelli, até pouco tempo atrás, se identificava como mulher lésbica. Mas não estava confortável com seu corpo e sabia que algo precisava se mudar. Resistiu, mas acabou vivendo o que realmente é: um homem transexual. Esse processo foi complexo. Filho de uma família tradicional, passou pela transição quando vivia fora do Brasil. Mas as dificuldades o motivaram a dividir o assunto com outras pessoas. Assim nasceu o canal Transdiário no Youtube.

Por meio dele, Luca compartilha sua rotina, tira dúvidas e busca conscientizar a sociedade sobre o assunto. Neste fim de semana, ele estará em Florianópolis, onde conduz o bate-papo “Identidade de gênero e transexualidade sem tabu”, durante o Festival Social Good Brasil.

Entrevistamos Luca sobre como foi o processo de transição, a reação de sua família, e como se sente hoje. Confira:

O que te levou a falar sobre esse assunto?

Eu sou um homem trans. Sou de Belo Horizonte, tenho 28 anos, moro em São Paulo desde meus 16 anos. Nesse período fui morar em Portugal por cerca de três anos e lá comecei minha transição. Por estar muito longe da minha família e amigos, decidi criar o canal Transdiário, no Youtube. No início era mais um diário mesmo para documentar as mudanças, para que quando eu chegasse no Brasil ninguém estranhasse. Mas começando a falar sobre a transexualidade eu vi que faltava muita informação, as pessoas não sabiam o básico, não sabiam a diferença entre sexualidade e identidade de gênero. E aí veio minha vontade de falar sobre outras coisas. Um dos primeiros canais que eu vi no Brasil é de um menino de Floripa, o Ariel Modara, um menino trans. Eu pensei que se as pessoas não entendem inglês, ferrou. Você vai ver o contexto de uma pessoa ou uma notícia que não é feita pra uma pessoa trans. É a visão de uma pessoa cis sobre uma pessoa trans.

Que idade você tinha quando começou o processo de transição?

Comecei com 26 a hormonização. É super recente.

Como foi começar isso em outro país?

Foi muito complicado. Nessa época eu tinha uma namorada brasileira que foi morar comigo em Portugal. A gente foi pra lá pra fazer mestrado. Na época ela estudava muito sobre gênero, por causa do mestrado, e eu mal sabia sobre transexualidade. Sabia um pouco das mulheres trans, travestis, mas era a visão que eu tinha. Por muitos anos eu me identifiquei como uma mulher lésbica, achava que eu era isso. Nem cogitava a ideia de ser trans. Até por medo, por não entender. Mas eu sempre tive muito incômodo com meu peito. Eu queria tirar. E eu não sabia que isso era um dos sinais. É uma coisa muito comum entre meninos trans. Comecei a discutir com minha namorada sobre isso. Uma menina cis, se quer colocar silicone, não precisa de nenhum tipo de laudo. Enquanto eu, se queria tirar, não podia. Porque inventaram que não. Como ela estudava sobre gênero, ela soube primeiro que eu. Começou a me dar alguns textos pra ler, uns canais no Youtube, e aquilo começou a mexer comigo. Comecei a ficar meio incomodado. Corta a cena. Vim para o Brasil no Carnaval de 2016, e um dos meus melhores amigos estava namorando com uma menina trans. E foi a primeira vez que eu tive contato real com uma pessoa trans em que pude fazer perguntas, tirar dúvidas. Também teve uma passeata do orgulho trans em São Paulo, eu fui e fiquei super mexido. E uma coisa foi somando com a outra, até que eu caí na real. Por um tempo eu tinha um discurso de “se eu fosse mais novo, se minha família fosse mais de boa, eu faria a transição”. Como se tivesse passado a hora. Fiquei nesse discurso muito tempo, até porque eu nunca tive um corpo muito feminino, então eu consegui transitar muito bem nos papeis de gênero. Mas depois desse Carnaval, eu voltei pra Portugal e escrevi um e-mail para meus pais, contando tudo. Eu saí de casa com 16 anos, nunca tinha falado pra eles nem sobre sexualidade. Minha família era total tradicional brasileira, então eu achava que o que eu faço entre quatro paredes não era problema deles. Eles também nunca perguntaram, era uma coisa que não se falava. Mas a transição eu não podia esconder deles. Nem se eu quisesse. Escrevi, deixei um mês guardado e num dia tive cinco minutos de coragem e mandei pra eles.

 

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Como foi a reação dos teus pais?

Minha mãe surtou. Enlouqueceu por uma semana. Aquele papo de mãe que não quer aceitar. Mas quando ela entendeu o que estava acontecendo, parou de hiperventilar, ela se tornou a pessoa que mais me apoia na minha família. O meu pai, eu sempre digo que a resposta dele foi inesperadíssima. Eu mandei o e-mail, avisei pra eles no Whatsapp que tinha mandado, o meu pai só me respondeu logo depois: “agora me conta uma novidade”. Disse que me conhecia e que estava esperando que eu falasse sobre isso.

Como você explicou pra eles um assunto tão complexo nesse e-mail?

Basicamente foi “eu amo muito vocês, só que eu não posso mais ser uma versão editada de mim mesmo pra agradar vocês. Eu não consigo mais, preciso ser feliz, e o negócio é: eu gosto de mulheres e eu tenho uma questão com meu gênero. Eu não sei direito ainda o que isso quer dizer, eu nunca me identifiquei com o gênero feminino, mas também não sei o que vou fazer. Agora vou procurar ajuda e vou contando pra vocês ao longo do caminho”. Minha mãe, todas as minhas consultas em Portugal, ela acompanhou. Foi um alívio. Eu sou muito fora da curva. A realidade das pessoas trans é ser renegado em casa. Tanto que mais de 90% das mulheres trans hoje estão na prostituição. E não é porque eles gostam de se prostituir. Elas precisam sair de casa, não conseguem trabalho, têm uma super evasão escolar. Precisa pagar conta, precisa comer. Eu sou fora da curva da realidade brasileira.

E no canal, como você começou a falar disso?

Eu comecei muito num tom de diário, mas daí eu vi que ninguém entendia nada. Por isso comecei a fazer vídeos explicando o que significa ser trans, como funciona o sexo pra uma pessoa trans. Coisas que as pessoas têm dúvidas, mas nunca pararam pra pensar. São questões práticas. Em alguns vídeos eu discuto coisas mais abstratas, tipo comportamento machista de homens trans. Normalmente são vídeos bem fáceis de entender.

As pessoas foram receptivas? Estavam buscando esse tipo de informação?

Eu sinto que as pessoas vão muito por curiosidade. Principalmente por eu não “parecer” trans. É uma das questões que eu menos gosto, mas tem isso. Claro que tem a galera que é trans, pensa que é, tem amigos, mas tem muito um público aleatório. Tem a galera que diz “vi teu vídeo no Youtube e te achei bonitinho” (risos). Eu gravei com minha ex-namorada e uma galera perguntou “peraí, ela era ele ou ele era ela?”. A galera se perdia e caía naquele vídeo por curiosidade.

Você procura falar disso de um jeito bem-humorado?

Eu tento ao máximo trazer uma leveza. Entre todos os canais de pessoas trans eu sei que não sou o mais piadista, porque eu prezo muito pelo conteúdo, não só pelo riso. Eu quero que as pessoas vejam e aprendam mais sobre o que é ser trans, e respeitem. Mas tento falar disso da maneira mais de boa possível. Trago amigos pra contar casos engraçados que eu já passei.

A gente tem percebido esse assunto sendo tratado na mídia tradicional, em novela, nos canais abertos. Como você vê isso?

A transexualidade hoje está onde a sexualidade estava 50 anos atrás. As pessoas não sabem nada de nada. Na novela (A Força do Querer), por exemplo, foi abordado da melhor maneira possível? Não. Podia ser melhor. Mas tendo em vista a cobertura que uma novela tem, a quantidade de pessoas alcançadas, foi uma coisa maravilhosa. Tenho certeza que salvou vidas. Eu acho que quanto mais se fala, melhor. Claro que tem que ter o cuidado de como se fala. O Brasil hoje é o país que mais mata transexuais no mundo. Tem que tomar cuidado com a forma em que se retrata isso, pra não alimentar o estereótipo nocivo e a marginalização das pessoas trans. Por isso eu acho importante a pesquisa e pessoas como eu, que retratam a vivência. No meu Instagram eu tenho uma coisa chamada “transaulinha”. São vídeos muito curtos em que vou falando coisas bem básicas, mas que mudam.

Você tem feito palestras e rodas de conversa sobre isso?

Eu tenho sido convidado por algumas empresas e eventos pra falar sobre o assunto de diversas óticas. Sou convidado por várias agências pra falar pras equipes sobre como retratar a diversidade na publicidade. Fui convidado por uma empresa farmacêutica para falar para o time interno sobre a vivência trans. Cada evento tem seu formato. Essa roda de conversa que vou fazer no Social Good é uma coisa mais aberta. Justamente pra acabar com o medo que as pessoas têm de falar sobre o assunto. Não teve nenhum evento desses que foi mais ou menos bom. Todos foram incríveis. Eu acho que a transformação social se dá quando a gente consegue estabelecer relações. Ser escutado e escutar o outro. E essas rodas trazem muito disso, uma profundidade. Cria uma relação próxima. Uma das coisas mais transformadoras que existem é o diálogo.

Dois anos depois de começar o processo, como você se sente com você mesmo e também por fazer esse trabalho de conscientização?

Eu nunca me senti tão feliz em toda minha vida. Se eu soubesse que estaria tão feliz, eu teria feito muito antes. Todo mundo tem um propósito na vida, e eu acho que meu proposto está ligado a trazer conhecimento e empatia sobre esse tema. O Brasil é um dos países mais difíceis do mundo nesse aspecto, então quanto mais a gente fala sobre isso, melhor. Eu tô abrindo caminhos para o próximo jovem trans. Isso é uma coisa muito importante, muito valiosa. E essa é a relação com o Social Good, a transformação social. A minha ideia é fazer com que a sociedade seja mais amorosa com pessoas que já sofrem diariamente. São pessoas que têm seus direitos básicos de existência negados. Qualquer tipo de conscientização é um grande avanço.

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