Conheça sete artistas que expõem retratos pelas ruas de Santa Catarina

Thiago Valdi, Rodrigo Kurtz, Marcelo Camacho, Caco Mantovani, Jefsu, Beto Butter e Alucinandinho têm técnicas únicas

Foto: Felipe Carneiro/Diário Catarinense

Muito antes dos registros fotográficos, os retratos apresentam memórias, e é através deles que conhecemos diversos personagens da nossa história. E são com traços, cores, luzes e sombras que artistas, moradores de Florianópolis e de outras cidades catarinenses, têm revisitado e remodelado o quesito de retratar. Nomes como Thiago Valdi, Rodrigo Kurtz, Marcelo Camacho, Caco Mantovani, Jefsu, Beto Butter e Alucinandinho podem ser conferidos pelas ruas, redes sociais e paredes pelo mundo. Mesmo “pintando” a mesma coisa, no caso retratos, cada um tem uma técnica, estilo e característica única.

Quem passar pelo Centro da Capital pode ver na parede do Edifício Atlas um retrato do professor Franklin Cascaes. Produzido pelo artista urbano muralista Thiago Valdi, 30 anos, o trabalho de 34 metros é uma homenagem ao maior pesquisador da cultura de origem luso-açoriana da Grande Florianópolis, autor de obras de arte, livros e imagens relacionadas ao folclore catarinense.

Valdi e a obra de Cascaes, no Centro de Florianópolis (Foto: Felipe Carneiro/Diário Catarinense)

— Era um sonho antigo realizar uma pintura predial em Floripa e com a ajuda de uma equipe multidisciplinar foi possível estruturar e amadurecer uma relação com os órgãos públicos, comerciantes da região e simpatizantes. Esse pré-projeto foi a parte mais difícil, já subir na plataforma e pintar demorou apenas uma semana — lembra o manezinho, que fez uma homenagem ao homem que dizia para valorizar a cultura, símbolos e a nossa personalidade.

— Foi justamente a partir desse conceito que criei os símbolos do mar e das mulheres da Ilha da Magia que completam o desenho — acrescenta Valdi.

Junto de rostos femininos – muitos deles espelhados por Floripa e outras cidades são da musa inspiradora, Marcela Martins, companheira de Valdi há 14 anos – e símbolos, o azul é uma marca presente e marcante nos trabalhos do artista.

— O azul é amplo como o céu, profundo como o oceano, a parte mais quente do fogo, assim como a parte mais fria do gelo. O azul é a cor rei — conceitua o artista autodidata, que atua também com designer gráfico e branding.

“Você precisa desenhar”

Foto: Gui Tancredo/Divulgação

Outro fascinado por retratos é o gaúcho de Alegrete (RS) Rodrigo Kurtz, 37, que mora
há 17 anos na Capital catarinense.

— Começo por observar as expressões, o lugar ao redor e tento transcrever a ideia ou sentimento nas linhas. Gosto de começar com rabiscos, parto para o nanquim ou tela e muitas vezes vetorizo no computador, se quero criar algo no formato digital. Dessa maneira preservo o traço original — conta o autodidata, formado em Comunicação Social, Publicidade e Propaganda e Mídias Digitais.

Desde pequeno, Rodrigo usava tinta e papel para dar vazão às ideias e ao que via. Foi nessa época que se apaixonou pelas ilustrações de livros infantis. No entanto, o desejo de desenhar ficou dormente por conta do trabalho em publicidade. Mas no ano passado, decidiu retomar com cursos na área.

– Havia um sussurro no meu ouvido o tempo todo dizendo “você precisa desenhar” — resume. E foi o que fez.

Após participar de feiras gráficas, resolveu criar um blog e a lojarodrigokurtz.com para apresentar os trabalhos que desenvolve.

Desenhos autobiográficos

Foto: Arquivo Pessoal

Bacharel em artes plásticas e pintor, o paulistano Marcelo Camacho, 34, que mora há dois anos em Floripa, entrou no mundo da pintura e do graffiti em 1998.

— Estudei várias técnicas na faculdade. Trabalhei bastante com pintura, desenho e xilogravura. Hoje fico mais focado em tinta acrílica e em graffiti, tentando juntar as duas nos trabalhos — explica.

Neste percurso, os autorretratos marcaram a carreira. Camacho sempre fez mais desenhos usando a própria imagem.

— Os retratos ou imagens de outras pessoas que apareciam também seguiam esse pensamento (autobiográfico) ou eram de pessoas ligadas à minha vida.
Camacho segue fazendo autorretratos, mas abriu também a possibilidade
para que pessoas encomendem retratos com a mesma técnica.

— Esse trabalho começa sempre com uma referência fotográfica. Tento direcionar a luz para ter uma sombra mais marcada, mas na maioria das vezes uso a luz natural mesmo. Na pintura em si, estou tentando trabalhar com poucas cores, usando só uma cor e sua complementar, deixando mais simples. Acredito que a força desse trabalho esteja nas relações que tenho na vida e que vão para a pintura, então os retratos serão sempre de pessoas reais — completa o artista, que costuma usar o termo “vida-pintura” para descrever a sua arte.

Arte e terapia

Foto: Daniel Freitas/Divulgação

Natural de Criciúma, Sul de SC, o artista visual Caco Mantovani, 27, descobriu a sua paixão pelas artes durante sessões de terapia.

— Eu cursava psicologia e trabalhava como técnico em enfermagem num hospital e naquele ambiente estressor, aliado com problemas familiares, desenvolvi depressão. E foi com a ajuda da minha terapeuta que consegui, através dos desenhos, colocar pra fora o que me incomodava. Por isso digo que foi ela e a arte que me salvaram, tanto que até mudei de curso — lembra.

Foi no curso de Artes Visuais que conheceu algumas técnicas que o ajudaram a aperfeiçoar o trabalho, mas foram mesmo as experimentações que deram um rumo diferente ao processo criativo.

— A música é muito importante. Ela desperta emoções e tem sempre uma frase de impacto, e a partir dela crio desenhos — comenta o artista, que produz os trabalhos com aquarela, mas utiliza também giz e lápis de cor.

Caco produz retratos diferenciados. Muitas vezes, podem apresentar o “rosto e alma” da pessoa. Em outros, são retratos reais. E tem também os retratos que levam na cabeça o
mundo que as permeia.

Trabalhos livres

Foto: Dayana Prá/Divulgação

A inspiração usada no graffiti do manezinho Jefsu, 37, são de frames de desenhos animados ou fotografias digitais.

— Procuro fazer desenhos que significam algo pra mim, sejam memórias ou experiências da minha caminhada. Gosto de expor também coisas que sejam positivas — comenta o estudante de Produção Multimídia.

Jefsu conta que desenhava muito na adolescência, mas quando terminou o segundo ano, acabou deixando esta arte de lado. No entanto, em 2013, observando as diversas intervenções nas ruas da cidade, participou de um projeto de cultura hip hop e conheceu um pouco mais sobre graffiti.

— Foi aí que pude resgatar o meu gosto por desenhar. Fiz oficinas com dois artistas graffiteiros de Floripa, Wagner Wagz e Rodrigo Rizo, para aprender técnicas de utilização do spray e a partir daí não parei mais. Os conhecimentos de design, como proporção e teoria das cores, que aprendi na faculdade, me ajudam bastante nas criações. Faço trabalhos livres, de acordo com minhas vontades, com autorização ou não — completa.

Conceitual

Foto: Cristina Souza/Coletivo Odara

Considerado um designer visual, que procura agregar hobbies com a profissão, o tubaronense Beto Butter, 29, que desde os 4 mora em Floripa, largou a faculdade de Direito para entrar na arte.

— Havia feito alguns cursos na área quando era mais novo, e quando fui ver um amigo fazer um graffiti, vi que era isso que eu queria. Aí fui atrás de materiais, técnicas, e aprendi mais. Tanto que a arte digital me fisgou e após me especializar, aliei a arte ao design e abri com dois amigos a Brick by Brick, que oferece graffiti corporativo ao branding — conta.

Para Beto, a arte é uma maneira usada para expressar algo que a pessoa carrega, vê e sente. Os trabalhos produzidos por ele são de todas as formas, lúdicas e realistas.

— Gosto muito de procurar representar e dedicar meus retratos a uma visão paralela à sociedade e sentimentos. Eles possuem um conceito visual contrastando o “homem” e o “animal” em seus cotidianos — explica.

Impulsionado pelo surfe

Foto: José Guntin Rodriguez/Divulgação

Nascido em Florianópolis, Alucinandinho, 26, é um daqueles artistas que não conseguem se definir em uma única palavra.

— Sou uma mistura de tudo, nada, arte, poesia e liberdade de verdade. E estou sempre dividindo meu tempo entre a arte e o surfe.

Quando tinha 16 anos e realizava o sonho de viver do esporte, Alucinandinho sofreu uma lesão no ombro e fez com que ele se afastasse do mar. E foi neste período que começou a pintar as próprias pranchas, até que pudesse voltar a surfar.

— Meus amigos gostaram e pediram para que eu pintasse as pranchas deles também. Até já perdi a conta de quantas têm desenhos meus. E com o passar do tempo, comecei a pintar quadros e não parei mais — conta.

Autodidata, mistura técnicas sem definição na construção dos rostos, que são marca registrada. Segundo ele, as formas vêm com tanta energia e amor que deseja que elas encantem o mundo, como encantam a ele.

— Esses rostos nunca me abandonam, me salvam de lugares ruins e levam para melhores. São homens e mulheres. Seres de um mundo que chamo de encantado, pois por onde passam a energia se transforma — completa.

Fizemos um questionamento para os artistas entrevistados: Como você vê a cena das artes em Santa Catarina? Confira as respostas:

“Vejo a cena artística aqui e no país ainda no início. As pessoas estão começando hoje a valorizar o passado, a cultura local que herdamos. Então, ainda há um longo caminho para a valorização de arte contemporânea aqui. Eu vou me esforçar para acelerar ainda mais esse processo”, Thiago Valdi.

“Eu conheço mais a cena de graffiti de SC, que tem representantes muito bons, do Litoral ao Oeste. Alguns conhecidos em várias partes do Brasil e até no exterior. Acho uma cena forte, com bastante qualidade”, Marcelo Camacho.

“A cena das artes em SC é de guerrilha, os artistas aqui estão sempre em constante luta. Não parece ser organizado, existem movimentos independentes. Talvez seja esse o caminho, mas o acesso à cultura e arte é dever do estado proporcionar, não é mesmo?”, Caco Mantovani.

“A cena é bastante bonita, com artistas talentosos, e há um movimento de valorização desta arte. Vejo também que há uma tentativa de institucionalização da arte, principalmente por parte do poder público, em que obras realizadas por artistas urbanos sem autorização são apagadas para que outros artistas pintem algo que seja mais aceitável pelo senso comum”, Jefsu.

“Apesar de possuir artistas sensacionais, sinto que é fechada, pouco comunicativa entre si e não é centrada no novo. Jovens artistas acabam por migrar para outros lugares onde se sentem mais aceitos e com chances reais de reconhecimento e aprimoramento”, Rodrigo Kurtz.

“Em expansão. Vejo amigos da arte que expandem seu talento em negócio, e isso é muito bom para a economia criativa e local. Talento não se pode bater de frente, resistir aos sonhos é muita crueldade e o artista precisa expandir mais e mais seus conhecimentos e técnicas”, Beto Butter.

“Florianópolis é um dos lugares mais inspiradores do mundo, e tem grandes artistas que não são fomentados. Sonho no dia que a Ilha respire mais arte e cultura. Sinto que a
maioria das pessoas não são instruídas para sentir com a alma”, Alucinandinho.

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