Banda catarinense de samba-reggae formada por mulheres lança primeiro disco e tem muito a dizer

Dez mulheres - a maioria negra - tocando percussão, ocupando as ruas da cidade, subvertem a lógica social. Elas ganham força e voz e lançam "Quem é essa mulher?", um disco para provar que, sim, Aidê veio pra ficar

Cauane e Dandara, componentes de Cores de Aidê (Foto: Leo Munhoz)

Mulher. Negra. Índia. Cor. Não são só substantivos. São palavras que dão nomes às músicas de Cores de Aidê, banda de samba-reggae formada por mulheres em Florianópolis, que lança seu primeiro disco, Quem é essa mulher?

A mulher é Aidê, mas não um único ser: é a representação. A figura mitológica representa a força e a luta da mulher negra. E por meio da música, o grupo formado por 10 mulheres, que tem como diferencial não apenas suas componentes, mas seu palco — Cores de Aidê toca, com frequência, nas ruas da cidade — quer passar uma mensagem de resistência e dar protagonismo àquelas estão à margem em dose dupla: por serem mulheres e por serem negras.

É no sutil ato de protesto, sem agressividade, numa doce revolta, que Cores de Aidê tem conquistado fãs. O tambor é a arma, e o batuque deixa todo mundo feliz, mas também faz pensar. É por isso que na música que dá título ao álbum, elas afirmam: “Aidê veio pra ficar”.

“Com a canção também se luta”

Baiana de Salvador, Cauane Maia já havia tocado percussão e por isso aceitou o convite para entrar na banda Cores de Aidê. Para ela, o grupo é também espaço de discussão política.

— É interessante ter um espaço que, pela arte, a gente fale de mulheres que são invisibilizadas — resume.

Cauane avalia que ter tantas mulheres juntas, tocando percussão, ocupando as ruas, “altera o olhar que a cidade tem sobre os corpos dessas mulheres”. O caminho para atingir esse objetivo foi traçado naturalmente:

— A personagem mítica que dá nome ao grupo foi nos dando caminho pra hoje ser o que é, principalmente em relação ao conceito do grupo. A gente foi elaborando o que queria cantar, a parte cênica, as convenções musicais, pensando na parte política. Isso foi sendo tecido.

O resultado é a busca por uma transformação social que afeta também as componentes do grupo.

— Simonal diz que com a canção também se luta. É muito isso. Pensar que a arte é esse espaço de transgressão também, mas por ser uma linguagem artística tem um alcance diferenciado. A gente provoca, mas também é provocada internamente. A gente se modifica juntos.

Parte das mulheres em ensaio da banda Cores de Aidê (Foto: Leo Munhoz)

“As pessoas vão sendo abraçadas de forma sutil pela mensagem”

Dandara Manoela, que empresta a voz às composições de Cores de Aidê, é conhecida no meio musical em Florianópolis e pelo engajamento na luta das mulheres negras. Nesta entrevista, ela fala sobre o disco, sobre a banda e a importância do trabalho executado.

Porque a escolha pelo nome Quem é essa mulher?

Foi inspirado no nome da banda. Aidê era uma mulher negra que foi escravizada e o sinhozinho dela deu uma falsa liberdade em troca do casamento. Aidê não aceitou e fugiu. Quem é essa mulher é pra gente começar a contar a história de quem foi Aidê, uma mulher que não negocia seus valores, que dá força, que nos inspira. Essa é a ideia do que é a verdadeira liberdade.

Cores de Aidê se tornou um movimento. A banda tem uma causa?

Nossa ideia sempre foi mostrar que vamos além do entretenimento. Tem um discurso, é político, pra mostrar que o lugar da mulher é onde ela quiser. E é muito simbólico isso na percussão, que é um instrumento historicamente dominado pelos homens, como a maioria, na verdade. A ideia é ressignificar esses lugares. O bloco é um chamado pra envolver mais mulheres. Nos shows, sempre vinham mulheres perguntando como faziam pra entrar. E na banda acabava ficando complicado terem muitas, então decidimos abrir o bloco. Além de honrar a origem do samba-reggae, que é um movimento de rua, a gente também conseguiria fazer ecoar mais nossa mensagem.

Há uma discussão sobre a falta de representatividade da mulher negra no próprio movimento feminista. Cores de Aidê tem esse papel, de falar para mais mulheres, de expandir esse discurso?

Na banda, a maioria é mulher negra, foi uma coisa que foi naturalmente acontecendo. Termos esses corpos formando a ideia do que é Cores de Aidê, a gente traz o feminismo negro para nossa vivência. Porque parece que o feminismo acaba mesmo excluindo algumas mulheres. Não deslegitimando isso, é importante lembrarmos que existem mulheres com outras histórias, outras trajetórias, que já faziam feminismo, mesmo sem usar esse nome. As mulheres negras desde sempre sustentam a casa, correm atrás. Existe muito essa lógica matriarcal entre as mulheres negras mesmo. É interessante a gente ampliar esse discurso. E na banda vem de forma natural, porque é nossa vivência. É muito importante lembrar também que não são só mulheres negras, e isso dá força para fazer da banda um espaço de trocas de ideias.

Tem um retorno positivo de outros lugares?

Depois que a gente lançou o CD, eu sinto que foi uma forma da gente expandir. Não o CD físico, mas estar nas mídias, nas mídias alternativas, toda a tecnologia, é uma forma mais horizontal de fazer o acesso fluir. Com certeza nossa música está chegando a cada vez mais lugares, baladas estão tocando. Sinto que foi materializado nosso som. E isso está proporcionando que ecoe muito mais.

Fale um pouco da história da banda. Como surgiu?

Foi idealizado pela Sarah Massi, que é a regente desse grupo, e reuniu mulheres que ela conhecia, porque ela sempre teve vontade de ter um grupo de samba-reggae. Foi em 2014 que ela teve a ideia e em 2015 nasceu Cores de Aidê. Eu sinto que é um pouco de cada mulher, mesmo as que não estão mais no grupo. A Aidê tomou corpo, tomou vida por si só. É muito mais do que qualquer uma de nós poderia imaginar. Foi uma construção coletiva a partir do sonho de uma pessoa.

Os shows de vocês têm um formato não convencional, na rua, em meio às pessoas. A curiosidade que isso gera atrai mais para o trabalho de vocês?

Com certeza. Sempre que a gente está na rua é bom ver o tanto de pessoas que se aproximam. É uma forma de levar a arte, fazer arte em outros lugares. Tirar a ideia de que isso só pode ser feito em cima de um palco. Essa coisa da rua também é um respeito à origem do samba-reggae, que nasceu lá em Salvador, no Pelourinho. É uma forma de continuar essa tradição no Sul do país.

Bloco Cores de Aidê no Centro de Florianópolis (Foto: CR2 Fotografia/Divulgação)

É simbólico que vocês lancem esse trabalho em um Estado tido como conservador. Neste cenário, Cores de Aidê é um símbolo de resistência?

Sim, e de uma forma leve. As pessoas se atraem pelo que elas veem de longe, o som e as cores, principalmente. E quando elas vão chegando perto, vão sendo abraçadas de forma sutil pela mensagem. Então eu acredito muito que a arte é uma ferramenta potente de transformação. Todas as linguagens são válidas, mas nossa potência é essa forma colorida na qual as pessoas se envolvem sem saber. É muito potente por ser leve, colorido, apesar de tratar de assuntos muito sérios e relevantes.

Do que é formado este disco? Tem percussão, tem letras?

Das dez músicas, nove tem letras. Todas, de alguma forma, trazem uma mensagem política ou de leveza, de alegria, mostrando que lugar de mulher é onde ela quiser. Tem a música negra, a música índia. É um disco autoral com muitas mensagens. Das nove músicas com letras, oito são de mulheres.

Quais são os próximos passos de vocês?

A gente tem a ideia de estar presente nesses lugares em que o som está tocando, fazer shows pelo país, convivendo com outras pessoas, mulheres e homens, porque a gente acredita que nossa mensagem é geral.

O disco está disponível no site da banda.

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