“O Homem Invisível” e “Maria e João: O Conto das Bruxas”: o terror feminista que revitaliza o gênero

Maria e João: O Conto das Bruxas. Foto: Divulgação

* por Andrey Lehnemann

A primeira imagem de O Homem Invisível é a de uma vítima de abuso nos encarando com os olhos assustados. Ela tenta se desvencilhar do braço masculino que a segura, escancarando a tênue linha entre a segurança e a prisão presente numa relação. “Não há príncipe aqui onde estou” assume igualmente a adolescente Maria, da fábula Maria e João: O Conto das Bruxas, que ambiciona o ponto de vista juvenil sobre o mundo pecaminoso que as crianças sobrevivem. Ambos os filmes se situam numa nova fase do terror que pode ser vista em longas-metragens como Honeymoon e encontram ressonância em outras obras, tal como Thelma, Gwen, Girl on the Third Floor, Demônio de Neon, Still/Born e tantos outros. São narrativas que priorizam o ponto de vista feminino diante de uma situação perturbadora.

Maria e João: O Conto das Bruxas captura a magia de um conto de fadas, sem que se esqueça de conferir uma assustadora prosa cheia de possibilidades na mente de uma criança. É um filme com influências expressionistas sutis e fantásticas. Numa das cenas, Maria desce ao porão da bruxa e observamos a circunferência perfeita de um caixão se formando sobre seu corpo. Da mesma forma, o design de produção indica a fachada da casa como um chapéu pontudo, enquanto a porta da casa lembra tubas uterinas e o interior se adéqua ao olhar das crianças sobre ela. Ao passo que o quarto é pequeno e deixa as camas dos irmãos próximas, a mesa grande e farta da casa nos dá outra dimensão de cenário, inclusive com a lareira atrás dos jovens, que comem o máximo que podem comer. O design de produção nos avisa que só iremos ver aquilo que é permitido.

A floresta ao redor, idem, é retratada conforme a sensação de Maria quanto ao que o mundo lhe apresenta. “Ele não lhe dá nada de graça”, a sua personagem descobre a medida que vive. A fotografia é excepcional ao criar, assim, a mata muito mais clara e aprazível para as crianças do que o interior de grandes castelos ou de sua própria casa. Quando Maria fica frente a frente com um homem que quer lhe usar como objeto sexual, o cenário é escuro e vermelho, como se avisasse para ela o perigo que estaria correndo apenas em estar ali. Ao sair para floresta, o sol volta a invadir a tela e a floresta que é escura para alguns parece ser um santuário para os jovens. Pobres e famintos, eles avançam procurando comida e algum lugar para dormir.

De forma inteligente, o diretor Oz Perkins (o mesmo de I Am the Pretty Thing That Lives in the House, que está disponível na Netflix) cria paralelos acessíveis entre a nossa realidade e a dos dois personagens da fábula. Afinal, Maria se depara com questões de autoconfiança, torna-se quem precisa ser, segue em frente e cresce rápido demais. O terror é visto nas pequenas coisas, como na mãe com transtorno que afugenta os filhos de casa com um machado ou na sugestão de um banquete produzido com braços de crianças e animais mortos. “Se você começar a entender certas coisas, você também irá ver coisas que não quer”, ela testemunha pro irmão João enquanto sombras podem ser avistadas ao redor dos dois – os fantasmas que deixamos no caminho.

Há assombrações em O Homem Invisível, do mesmo modo. O Homem Invisível é um filme sobre os fantasmas de um relacionamento abusivo. Há o trauma da mulher e a obsessão do homem. Cecília Kass (a ótima Elizabeth Moss) sai de casa em duas situações distintas, no primeiro ato do filme: na primeira delas, ela está abandonando seu marido. Assim, as texturas da parede parecem gritar, no passo a passo de sua retirada. Só ouvimos o barulho das ondas e o silêncio ensurdecedor. Não sabemos quem é o homem com quem ela divide a cama, porém sabemos que ela sente medo. Um terrível medo. Somos tomados por sobressalto por situações banais como um prato de ração sendo chutado para o lado ou o silêncio da casa sendo cortado pelo alarme do carro. Mesmo quando Cecilia entra no carro de sua irmã e seu marido corre em sua direção não vemos seu rosto. O diretor Leigh Whannell manda o recado: ele pode ser qualquer um. Só vemos novamente o braço estraçalhando o vidro e tentando segurar algo que pensa possuir – a sua mulher.

Na segunda cena, a protagonista tenta sair da casa que está em segurança e fugir agora da memória do homem que lhe abusava. Nem a notícia de sua morte é o bastante. “Eu sei que ele vive, eu só não consigo vê-lo” é uma dessas frases que doem. A edição de som reforça os sons abafados quando Moss se atreve a tentar retornar ao mundo. A presença física ou invisível de seu marido jamais a deixará em paz, enquanto ela não dar o basta. Ela luta, sofre, joga tinta branca em seu passado, mas o terror continua lá, respirando, agindo, invisível, intocável, lembrando-a de que ela está sozinha e quase ninguém acreditará na sua história. Ela precisa ser forte e repeti-la. Whannell martela durante duas horas o quanto precisamos acreditar nas vítimas de abuso.

Ao entrar na casa do seu abusador, Cecilia observa os lençóis brancos tapando os objetos do local, numa bela analogia para os fantasmas de nosso passado. Lá, ouvimos o retorno do barulho do mar e as ondas quebrando nos rochedos. Tudo parece a mesma coisa. Ela, não. No clímax de O Homem Invisível, ela decide apagar seu passado de uma vez por todas. É a primeira vez que ela permite vermos o rosto de seu agressor. Ao sair da casa e, após subir as escadas (mantendo a lógica da volta por cima), a personagem de Elizabeth Moss nos encara novamente. Porém, agora, ela pode simplesmente fechar os olhos.

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