Cinema: ficção e realidade se confundem no excelente “Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas”

Credito Claire Folger / Annapurna Pictures

Por Andrey Lehnemann

Muito antes da revolução sexual que a pílula trouxe na década de 1960, muitos pesquisadores se debruçaram na nossa ideia sobre sexualidade e nossas limitações perante ela. Sexo é um assunto social ou personalizado? Ou ambos os pensamentos não se anulam? Filmes que se interessam por comportamentos humanos e seus biografados rendem, vez ou outra, cinegrafias corajosas e permissivas, que expõem um interesse apaixonante pelo estudo dos seus respectivos protagonistas.

Ano passado, O Experimento de Milgram encantava por provocar a dúvida sobre o comportamento humano diante da ideia de poder. Antes, Kinsey – Vamos Falar de Sexo se propunha a um debate honesto sobre nossa experimentação sexual. Alfred Kinsey, aliás, o verdadeiro, fundou seu instituto de pesquisa sobre sexo em 1947, o mesmo ano da morte de William Moulton Marston, cuja vida e interesse pela liberdade rendeu o extraordinário filme Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas, que está em cartaz no Paradigma Cine Arte, em Florianópolis.

Interessado por fatores bem específicos da natureza humana, que lhe fez escrever um livro sobre o assunto, Marston, psicólogo que contribuiu para a invenção do detector de mentiras e que criou a personagem dos quadrinhos Mulher-Maravilha, procurava compreender em seus estudos nossas limitações e o que fazia com que abraçássemos o despertar de um desejo – condenável ou não. Uma conversa com sua esposa logo no início do longa-metragem, quando ambos estão em dúvida sobre permitir ou não que o parceiro tenha relações sexuais com outra pessoa e o que isso significaria para o relacionamento, parece não estar inserida na época em que o filme se passa, por exemplo, mas agora, em 2018, sim. Essa abertura sexual para o período soa como um escândalo, como a própria personagem de Connie Britton faz questão de frisar no filme, algo que serve para acentuar a ideia do que envolve seus protagonistas.

Ao que o filme indica, Marston era um homem a frente do seu tempo, sabendo ser coadjuvante de sua mulher, respeitando-a. Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas, acima de tudo, é uma obra sobre admiração, reverência e indução. Luke Evans, na melhor atuação da sua carreira, percebe precisamente que quem pede passagem na história é a mulher, Elizabeth Marston. Nesta perspectiva, Rebecca Hall é uma força da natureza, comprovando que é a melhor atriz de sua geração. Surgindo constantemente como uma voz de sabedoria (perceba ela separada dos dois quando precisa deixá-los cientes da condição que estão) – sem soar tempestuosa, mas racional –, a atriz é brilhante ao demonstrar suas nuances por completo. É palpável a paixão que sente pelo marido, ao mesmo tempo que possui dúvidas sobre seu desejo por Olive e a sua reação diante do próprio ciúme perante o relacionamento polígamo. Desta forma, Hall é perfeita ao deixar a dúvida se fazia aquilo pelo marido, criando um paradoxo comportamental, ou se ela também havia achado uma peça que faltava para o relacionamento perfeito.

A ideia de que nem tudo é cristalino persiste nas inúmeras metáforas que filmes como Professor Marston e a própria Mulher Maravilha passam em um mundo reprimido e que retrocede para a obscuridade quando vê “liberdade demais”. Mas, mais do que isso, demonstra como todo escritor deixa uma parte de si, de sua vida e da maneira como enxerga o mundo para a sociedade na forma de uma criação individual. Ousada, neste caso, tal qual a vida do biografado.

* O filme está em cartaz no Paradigma Cine Arte, que dá 50% DE DESCONTO para sócio e acompanhante do Clube do Assinante, com sessões diárias às 10h.

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