Crítica: a história por trás de uma super-heroína no filme “Professor Martson e as Mulheres-Maravilhas”

Foto: Sony Pictures, Reprodução

Por Evilin Campos

A história do surgimento da personagem Mulher Maravilha, ícone do movimento feminista, pode ser assistida no longa-metragem Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas. Diferente do blockbuster Mulher Maravilha, lançado em junho de 2017, que ocupou as principais salas de cinema do país, a trama, dirigida por Angela Robinson, acaba de entrar para a programação do  Paradigma Cineart, em Florianópolis, parceiro do Clube do Assinante. O filme, no entanto, já apresenta resultados, tendo sido indicado ao Festival Internacional de Cinema de Toronto.

A confiante, inteligente e determinada Elizabeth Holloway Marston (Rebecca Hall), formada em psicologia e direito, e a delicada, amorosa e gentil dona de casa Olive Byrne (Bella Heathcote), filha e sobrinha das feministas radicais Ethel Byrne e Margaret Sanger, respectivamente, tiveram seus comportamentos e características usados na construção de Mulher Maravilha, criada em 1941, pelo advogado, psicólogo e escritor William Moulton Marston (Luke Evans). Os braceletes advêm de Olive que os utilizava diariamente.

Os traços das duas foram compilados na super-heroína com o intuito de estimular mulheres a usarem força e inteligência. O autor acreditava que somente com mulheres no poder se poderia alcançar uma sociedade justa e harmoniosa devido aos elementos de cuidado, compaixão e justiça inerentes às fêmeas.

O escritor a apresenta com sexualidade utilizando de bondagem, sadomasoquismo e adereços burlescos, vistos como fetiche masculino, mas que ele defendia como meios importantes para explicar sua teoria Disc (Dominância, Influência, Estabilidade e Conformidade), na qual serviria de estimulo para as mulheres se defenderem e reagirem. Marston também foi o inventor do polígrafo – detector de mentiras – por isso o Laço da Verdade.

Conhecedor de mitologia grega, ele utilizou das crenças para formular a origem da personagem na ilha de Themiscyra. Para ele, Mulher Maravilha foi instruída por amazonas e abençoada com poderes de deuses. Em HQs, a heroína venceu combates contra Supergirl, se mostrou mais veloz que Flash e mais astuta que Batman e Caçador de Marte.

Elizabeth e Marston eram casados e estavam pesquisando sobre o polígrafo quando conheceram a estudante Olive e começaram a ter um poliamor. A relação é apresentada como uma nova concepção de família, pois os três se mantiveram unidos com seus filhos em um período que qualquer manifestação de homossexualidade era reprimida. O relacionamento aparece nos quadrinhos, uma vez que a personagem se relaciona com mulheres e debate o livre amor.

Além do filme, o livro História Secreta da Mulher Maravilha, de Jill Lepore, também desmistifica a concepção da personagem. A obra conta que as feministas Emmeline Pankhurst e Margaret Sanger também inspiraram a heroína. Contudo, com a morte de Marston em 1947, a violência foi removida da HQ, assim como seus poderes. A heroína foi de representante de direitos femininos à dona de casa comportada.

Ao entrar na Sociedade da Justiça Americana, antecessora da Liga da Justiça, ela atuava como uma secretária. Em outras publicações, exerceu funções de enfermeira, agente do Departamento de Defesa e até dona de uma butique de moda. Mesmo com tais limitações, ela era a única figura feminina com edições individuas. Apenas Batman e Superman eram exclusivos.

Em 1972, a ativista feminista Gloria Steinem começou a pressionar por meio de sua revista que Mulher Maravilha voltasse a ter superpoderes. Um ano depois ela ganhou os poderes de volta. Em 2011, com o Novos 52, período em que todos os super-heróis da DC foram relançados, a heroína foi construída como filha da humana Hipólita com Zeus, tornando-a uma semideusa. Com o passar dos anos não apenas a origem da personagem foi reformulada, mas seus aspectos físicos e aventuras sofreram mudanças.

Ela foi criada em um tempo em que o voto feminino ainda era pauta para as mulheres ocidentais. Acompanhou mudanças culturais, intelectuais e estéticas de cada época, apresentando-se com características atuais. Por exemplo, nos anos 1980 ela perdeu os saltos das botas, ganhou músculos, o cabelo cresceu e o maiô diminuiu. Cada período tem suas demandas sociais supridas, também, pelos super-heróis, como é apresentado no documentário, da BBC – disponível na Netflix – Super-heróis, no qual a história de Mulher Maravilha também é contada.

Contudo, cada período deu vida a novas heroínas, ela só foi a pioneira. Em 2016, a Marvel com apoio da ABC News lançou o gibi Madaya Mom, uma mãe síria e seus superpoderes de resistência sobre-humana para proteger seus filhos da guerra e da fome. No mesmo ano, a empresa também lançou a nova Homem de Ferro, intitulada de Dama de Ferro ela é uma adolescente negra. E todo a sexualização conferida nos desenhos foi denunciada pelo movimento feminista.

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