“Sueño Florianópolis”, filme gravado em SC, retrata a letargia perante o desejo e amor

Embora o filme cite Florianópolis como um sonho, um pouco do pessimismo natural da obra de Ana Katz esclarece que nem todas as respostas estão na praia

Sueño Florianópolis
Sueño Florianópolis (Foto: Divulgação)

POR ANDREY LEHNEMANN/ESPECIAL

“A vida faz o que quer com a gente, então, tudo bem”. É o que afirma Larissa, uma das personagens de Sueño Florianópolis, uma obra que, acima de tudo, retrata a nossa letargia perante situações que envolvem desejo e amor. Assim, na visão da diretora Ana Katz, apenas vamos seguindo conforme a correnteza vai agindo sobre nós, tal qual evidencia a cena em que Lucrécia entra na água de caiaque, após um verão no mínimo inesperado.

Na história, Pedro (Gustavo Garzón) e Lucrécia (Mercedes Morán) viajam para o litoral catarinense com os dois filhos para aproveitar o câmbio favorável nos anos 1990 e tentar restabelecer um vínculo que havia sido perdido por eles, após 22 anos de casamento. Hospedam-se na casa de Marco (Marco Ricca) e Larissa (Andrea Beltrão), com quem começam a se relacionar.

Embora consiga ser natural no seu desenvolvimento, é interessante como Ana Katz demonstra seu domínio completo e calculado durante o filme. Desde a primeira cena, na qual a diretora nos imerge dentro de um carro quente, sem ar-condicionado e precário que acompanha a jornada de uma família que concentra suas esperanças no mar. A química entre os quatro personagens sublinha como todos são solitários em sua essência. Todos procuram preencher o vazio com diferentes associações ou casos. Florianópolis surge, então, como uma promessa. O turismo como um afrodisíaco. E todos são afetados. Quem chega e quem sai.

“Eu estava bem em casa, mas aqui estou melhor”, diz Lucrécia, tomada pelo desejo de viver, pela curiosidade das formas que a vida enquadra em nossa frente. Um “eu gosto de você” pode soar, desta forma, tanto malícia quanto uma singela manifestação de carinho perante um ser humano igual e com os mesmos problemas. Aos poucos, no entanto, a realidade retorna e as coisas parecem ter pouca força diante de anos de experiência. O silêncio basta. É ele que sentimos quando Pedro e Lucrécia se encaram durante a música Castelhana sendo cantada no Restaurante Toca da Garoupa.

A família do casal, no final das contas, está apenas resgatando o que já foi. Quando eram melhores consigo mesmos. Quando se sentiam vivos. Embora o filme cite Florianópolis como um sonho, um pouco do pessimismo natural da obra de Ana Katz esclarece que nem todas as respostas estão na praia.

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Foto: reprodução