Sobre aquela velhice dos vinte e tantos anos

Por Marina Martini Lopes, jornalista da Itapema e autora do blog Mar de Nina

Estou velha.

Eu sei. Eu tenho 28 anos – se você é mais velho que eu, provavelmente vai rir. Vai dizer “nossa, quem me dera ainda ter 28 anos.” Ou, como diz minha mãe, “se você é velha, eu sou o quê, então?”. Eu entendo. Minha mãe tem 59 anos – meus 28 devem parecer fichinha perto dela. Mas não é comparada à minha mãe que eu estou velha, ou a qualquer dos meus amigos e conhecidos que são pouco ou muito mais velhos que eu. Não estou velha nem mesmo comparada aos meus amigos mais jovens, veja bem. É comparada a mim mesma.

Estou velha para a Marina de dez anos atrás. Estou velha para a Marina de cinco anos atrás. Estou velha até mesmo para a Marina de três anos atrás. Chame isso do nome que quiser – crescimento, amadurecimento, mudança, até envelhecimento, mesmo. Mas é assustador como acontece rápido – e nos faz fazer e ser coisas que há algum tempo não conseguíamos nem imaginar.

Estou escrevendo sobre isso porque dia desses fui para a balada – e fazia quase um ano que eu não ia, o que é uma eternidade para quem ia a três festas por semana há uns três ou quatro anos. Foi divertido? Sim, bastante. Dancei, dei risada, até bebi – coisa que eu não costumo fazer, por não gostar, mesmo. Mas não vou mentir: eram duas da manhã e eu já estava me sentindo como se fossem seis. E, sabe, na minha época mais baladeira, eu voltava para casa com o primeiro ônibus do dia, às cinco e pouco da manhã – trocava de ônibus umas duas vezes no caminho, porque sempre morei longe de tudo; e ainda ia tomar banho, tirar com cuidado a maquiagem, quem sabe até fazer um lanche, para só depois cair na cama. Como, por todos os deuses, eu conseguia? Eu ando achando difícil até virar a noite na frente do computador assistindo Netflix, imagina dançando em uma festa.

Sem contar todo o resto. É sério que vocês vão pagar esse absurdo por uma dose minúscula de tequila ruim? É sério que você já beijou cinco caras hoje? Deu tempo de aproveitar alguma coisa com cada um? Eu me sinto meio errada. Meio perdida. E com uma consciência estranha de que há não tanto tempo eu fazia tudo isso. E adorava. Pior ainda: minha mãe já havia me dito que em uns cinco ou seis anos eu iria enjoar de baladas. Ou seja, aparentemente acontece com todo mundo, mais cedo ou mais tarde. Meu Deus.

Ninguém me impede de ir para a balada – convites eu tenho, oportunidades e opções, idem. O que me falta mesmo, preciso confessar, é vontade – que é sempre menor que a preguiça. Eu penso mais no cansaço do que na diversão. Mais no trabalho de me arrumar, me maquiar e ir até lá, do que no quanto vou aproveitar quando efetivamente estiver lá. E muito, muito mesmo, no quanto vou me sentir péssima no dia seguinte.

Hoje em dia eu gosto (repito: gosto) de acordar cedo no sábado para ir correr, malhar, andar de bicicleta; porque isso me dá uma injeção de energia enorme e me faz sentir que estou aproveitando melhor o meu tempo livre. E, se eu pudesse contar isso para a Marina de 20 anos de idade, baladeira e sedentária, ela teria morrido de rir. Com 20, 21 anos, eu não queria um namorado de jeito nenhum – imagina que chatice “ter que” ficar com ele no sábado à noite, em vez de sair para encontrar meus amigos? Já hoje eu acho que ficar em casa com ele no sábado à noite, comendo sushi, assistindo à nova temporada de Desventuras em Série e jogando Assassin’s Creed é simplesmente o melhor programa do mundo.

Nessas horas – quando recebo convites para festas que me enchem instantaneamente de preguiça, ou quando dou uma olhada no Instagram e vejo fotos dos meus amigos na balada – eu me sinto a Lily Allen, que, em Life For Me, canta mais ou menos assim: “Por que eu me sinto como se estivesse perdendo alguma coisa? Eu já estive lá e já fiz isso, e não serve para nada. Me diga que eu sou normal por me sentir desse jeito. É um pouco cedo para uma crise de meia-idade.” É verdade, Lily. Estamos velhas. E cada vez mais: talvez com 33 ou 34 anos eu olhe a Marina de 28 e pense como diabos ela conseguia pular da cama às nove da manhã de sábado e sair para correr. Mas é assim que as coisas acontecem. E está tudo bem. Como canta a Lily na mesma música:

“Tudo está bem: eu me sinto tão satisfeita quanto poderia me sentir. Esta é a vida perfeita para mim.”

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