Memórias de uma diva: catarinense Daisy Benvenutti foi pioneira na universidade e nas artes

Natural de Jaraguá do Sul, ela foi a primeira mulher a se formar em Economia na Universidade Federal do Paraná e ainda hoje inspira com sua história de pioneirismo e liderança

daisy benvenutti
Foto Tiago Ghizoni/Diário Catarinense

Uma mulher muito à frente do seu tempo! Bastaram apenas cinco minutos de conversa para eu perceber que aquela bela e elegantérrima senhora – que prefere não revelar a idade – escreveu uma trajetória incomum. Natural de Jaraguá do Sul, Daisy Benvenutti largou uma carreira promissora como economista na década de 50 para seguir o coração e trabalhar no rádio e no teatro. Ela conta com muito orgulho, aliás, que foi a primeira mulher a se formar no curso de Economia da Universidade Federal do Paraná, tendo recebido inclusive uma homenagem recente da instituição que criou um coletivo feminista com seu nome.

Ainda jovem e apontada pelos críticos como um dos maiores talentos da sua geração, tendo recebido prêmios como locutora de rádio e atuado nos palcos com grandes atrizes como Fernanda Montenegro, Daisy mais uma vez seguiu o coração e se mudou para a Itália, acompanhando o marido, Ruggero Jacobbi, que era natural daquele país e com quem anos antes havia fundado uma companhia de teatro. Chegou grávida na Europa e lá escreveu outros capítulos importantes de sua história. Teve a única filha, fez teatro, tradução, deu aulas de português e virou inclusive nome de rua por toda a sua contribuição com as artes.

Apesar da distância ela sempre manteve o vínculo com o Brasil. Durante quase três décadas Daisy trabalhou como correspondente internacional para revistas importantes como Manchete, Desfile, entre outras, comandando a sucursal de Milão. Acabou virando executiva poderosa do Grupo Bloch, novamente a única mulher entre muitos homens. Na Itália cobriu fatos importantes como a morte e escolha do novo papa, acompanhou semanas de moda e viajou o mundo.

Atualmente Daisy se divide entre Florianópolis e Milão, onde ainda mora a filha Paola. Gosta do Brasil, mas não abre mão de respirar a cultura italiana. No apartamento onde mora as paredes são tomadas de recordações, que ela relembrou com entusiasmo neste papo especial à Versar.

Você foi a primeira mulher a se formar no curso de Economia na UFPR. Como foi estudar num curso dominado por homens?
Pra mim foi muito natural e, talvez por isso, eu realmente acredite que tenha sido uma pessoa adiante do meu tempo, porque eu não me senti exceção em nada, imediatamente me senti dentro, não sofri nenhuma risadinha ou ironia dos colegas, foram todos sempre muito respeitosos. Os professores também me estimavam porque eu estudava, a ponto de ter me sido oferecido um trabalho de assistência de política financeira, que depois acabei não aceitando porque quis entrar para o rádio.

Como surgiu seu interesse pelo rádio?
Eu ouvia as vozes das locutoras e achava que podia fazer aquilo. Liguei e pedi emprego. Nunca tive medo de ir atrás das coisas, esse era o meu jeito. Eu me encantei pelo rádio primeiro porque era uma coisa divertida, segundo porque tinha muita gente que telefonava, mandava carta, eu me sentia amada, e terceiro porque todos os colegas eram ótimas pessoas.

A carreira artística começou no rádio?
Sim, eu fui para a Rádio Record de São Paulo e trabalhei em novela de rádio, apresentação também, tive a satisfação e a honra de fazer a apresentação da Maísa Matarazzo, o lançamento da cantora.

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Foto Tiago Ghizoni/Diário Catarinense

Como foi a preparação para se tornar atriz?
Acho que eu já nasci atriz, nunca tive dificuldade para interpretar grandes personagens, fiz vários, infelizmente eu não fiquei no Brasil senão teria feito outra carreira sem dúvida. Lembro que a crítica do Rio de Janeiro na época dizia que eu era uma das atrizes jovens mais importantes do Brasil, para ficarem de olho em mim. Trabalhei com nomes como Fernanda Montenegro, Natália Timberg, fiz protagonistas…

Como retomou a carreira depois da mudança para a Itália?
Logo que cheguei lá eu comecei a fazer com um grupo apresentações de letras de grandes poetas nas escolas, a gente interpretava escritores difíceis de compreender para alunos jovens de maneira mais fácil, gostei muito de fazer. Fiz muita coisa na Itália, de traduções de livros a aulas de Português, eventos culturais e trabalhos como atriz também.

Durante quase 30 anos você foi também correspondente de revistas importantes. Como foi essa experiência?
Eu não era só correspondente, era “pau pra toda obra”. Eu me tornei executiva do Grupo Bloch e comandei a sucursal de Milão. Entre as minhas funções estavam assinalar as matérias publicadas pelas revistas italianas que pudessem interessar aos leitores brasileiros, negociar a compra dos direitos de publicação com agências e fotógrafos, negociar e resolver problemas com os produtores de tintas, películas e rotativas, relações públicas principalmente com amigos da empresa que estavam de passagem por Milão e escolha de material fotográfico de obras de arte para publicação em encartes especiais. Eu comprei, por exemplo, os direitos em exclusiva para a Manchete das fotos de Jackie Kennedy nua em Skorpios, na Grécia, na casa de veraneio do Onassis.

Do que mais sente saudade?
Tenho ótimas lembranças dessa época. Uma coisa que lembro sempre da Manchete foi um dia que entrei no elevador e o homem que entrou atrás de mim era o Omar Sharif. Nesse dia o elevador foi muito rápido (risos). Tenho saudade da adrenalina das grandes coberturas. Os papas quase me mataram de cansaço, morreu um atrás do outro, foi uma correria, eu acompanhava tudo de Roma. Lembro que um amigo que deu a dica de que o Karol Wojtyla seria escolhido e viraria o Papa João Paulo II. Eu me antecipei com todas as fotos da vida dele em família, deixei tudo organizado.

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Foto Tiago Ghizoni/Diário Catarinense

Hoje você se divide entre Brasil e Itália. Do que mais gosta em cada país?
Milão, onde eu moro metade do ano, é uma cidade muito fértil, chamada capital moral da Itália, tem muitos museus, exposições, muita cultura. Aqui no Brasil eu gosto das praias, da natureza, que espero que não seja destruída, e dos brasileiros.

Que conselho daria para as mulheres de hoje?
Primeiro de ser. Sejam uma pessoa, sejam corajosas, metam a cara, sejam fortes. Eu não tinha medo de nada, talvez porque eu precisava realmente, eu não tinha mais meu pai desde pequena, minha mãe era professora aposentada, mas sempre tive coragem e determinação. Você precisa se doar totalmente.

daisy benvenutti
Foto Tiago Ghizoni/Diário Catarinense

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