Deborah Colker traz para Santa Catarina o espetáculo “Nó” e conta sua trajetória de sucesso na dança

Deborah Colker. Foto divulgação

Vinte e cinco anos atrás, quando Deborah Colker falou para a mãe dela que iria abrir uma companhia de dança contemporânea, a resposta foi simples: “minha filha, ninguém nem sabe o que é isso”. O balde de água fria não a impediu de seguir os planos. E com essa obstinação, Deborah fez com que muita gente soubesse que tipo de dança era aquela. Mais que isso, fez com que o Brasil e o mundo soubessem quem era Deborah Colker.

De lá para cá, ela dirigiu a dança apresentada nas Olimpíadas no país, criou um espetáculo para o Cirque du Soleil, vai dirigir uma ópera no ano que vem, e já começa a revisitar trabalhos mais antigos. É um deles, considerado um divisor de águas pela coreógrafa, que chega a Santa Catarina. Nos dias 17 e 18 de abril na Capital, Deborah apresenta Nó.

Foto: Flavio Colker, divulgação

Você traz a Florianópolis o espetáculo Nó, que foi lançado em 2005. Por que optou por esta remontagem?

Nó é um espetáculo muito emblemático na companhia. Eu acho que fiz um caminho e, a partir dele, eu mudo a direção. Nó me leva a buscas diferentes. Eu tive necessidade de falar da natureza humana, e Nó inaugura isso. Eu começo a falar sobre o desejo, sobre algo que é condição humana, que não é escolha. Que pertence à gente. Em Nó eu começo a trabalhar uma dramaturgia diferente. E vou conduzindo isso até chegar a Cão Sem Plumas, meu novo espetáculo. Mas o Nó foi muito importante pra mim, até a investigação do movimento e do espaço com as cordas, com a caixa transparente no palco, foi de uma maneira diferente. O espaço tinha que ser carregado de sentido. Resolvi remontar até porque agora sou mais velha, estou mais madura, já passei por tanta coisa, dirigi as Olimpíadas, um espetáculo do Cirque de Soleil, meus filhos cresceram, me tornei avó. Então falei que estava na hora de rever Nó, que foi onde eu comecei algo tão importante pra mim. Refiz ele de uma maneira mais corajosa, olhando para Nó e entendendo a importância dele agora. E é um espetáculo supercontemporâneo, porque ele fala de liberdade, de livre arbítrio, de cada um poder ser o que é. E a gente está vivendo num retrocesso tão grande, num mundo careta, que tem uma vigilância sobre sua escolha política, religiosa, sexual, então Nó chega numa boa hora.

Teve mudanças na coreografia?

Teve muita, porque eu mudei a música. Começa com uma música diferente, dos Picassos Falsos. Quem me apresentou essa música foi o Toni Platão, um cantor superbacana. É uma música dos anos 1980. Falei pra ele que queria uma gravação nova, então ele fez, com João Barone, baterista dos Paralamas, com Pedro Sá, que é guitarrista, e com Berna Seppas, diretor musical da trilha. E fizemos essa canção que começa o duo de amarração de cordas. Mudei coregrafia, música, utilização do cenário.

Seu trabalho mais recente se chama Cão Sem Plumas. Li que este trabalho te “dilacerou”. Pode falar sobre esse processo?

O Cão foi muito intenso. Ele não é só profundo, ele é profundo no fundo mais fundo. Eu chafurdei na lama. Quando terminou, eu falei “quero remontar o Nó”. Porque é também profundo, mas de uma maneira diferente. O Cão sem plumas fala sobre aquilo que é inconcebível, inadmissível. O Nó fala sobre escolha, liberdade, desejo.

Você criou o espetáculo Ovo, do Cirque du Soleil. Como foi?

Esse espetáculo é maravilhoso, e chegou ao Brasil 10 anos depois. Minha mãe viu duas vezes já, ela tem 84 anos. Minha família toda viu, meus bailarinos. Demorei três anos pra fazer, foi um desafio gigante. O Cirque du Soleil é a maior fábrica de espetáculos do mundo. Fui a primeira mulher a dirigir, dei um nome português, é superbrasileiro. É algo pra gente celebrar. É uma afirmação de um Brasil com uma cultura rica e inteligência. Foi o maior sucesso no Rio de Janeiro, estreou em Brasília, vai pra São Paulo.

Sua companhia comemora, em 2019, 25 anos. Como você analisa essa trajetória?

É uma trajetória de luta, de desafios, de conquista de espaços pra dança. Quando eu comecei, que eu falei pra minha mãe que eu fazer uma companhia de dança contemporânea, ela disse “minha filha, ninguém nem sabe o que é isso. Faz dança de salão, gafieira, outra coisa” [risos]. A gente agora está num momento de entender que cultura enriquece e é estrutural pra educação.

Foto: Flavio Colker, divulgação

Você acredita que teve um papel importante da “popularização” da dança contemporânea no Brasil?

Posso te responder isso dizendo que tem dias que eu vou pegar um táxi e o taxista fala pra mim: “oi, dona Deborah, a senhora vai pra onde?”. Eu pergunto “vem cá, você tá me chamando pelo nome?”, e ele responde “claro, sou seu fã, respeito seu trabalho”. Então a gente tem uma responsabilidade popular, educacional, artística, estética.

Como você se descobriu bailarina e coreógrafa? Como surgiu seu interesse pela dança contemporânea?

Ah, faz muito tempo! Na verdade, comecei estudando música, fui atleta. Meu pai era músico, arquiteto. Acho que a dança veio pra unir o esporte, que tanto me fascinou, com a música, a arte. Eu estudei psicologia, e a dança conseguiu sintetizar e me deu a possibilidade criativa de me expressar, de construir um corpo, ideias, gestos, movimentos. Veio de trazer esse lugar de pensar, de construir um corpo transformador.

Quais são seus planos futuros?

Estou fazendo um espetáculo novo que vai se chamar Cura, vou dirigir uma ópera ano que vem e fazer um filme sobre a história da companhia.

Você costuma vir a Santa Catarina?

Sempre vou, a companhia sempre teve essa certeza de não pular Florianópolis. Porque o povo dizia que era melhor ir pra Porto Alegre ou pra Curitiba, porque Florianópolis “é só praia”. Mas desde o início a gente vai pra Floripa, fomos construindo e temos o nosso público.

“Nó”, de Deborah Colker

  • Quando: 17 e 18/4, 21h
  • Local: Teatro Ademir Rosa – CIC (Av. Gov. Irineu Bornhausen, 5.600, Agronômica, Florianópolis)
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