Recomendo deletar todas as redes sociais e todos os jogos do celular

criança com celular
Foto: Diogo Sallaberry/Agência RBS

Vai fazer cinco meses que não atualizo minhas redes sociais. Meu histórico ainda está lá, mas não tem nada de novo. Um perfil fantasma sem foto e nem vídeo desde a primavera passada.

Primeiro eu pensei: está chegando o verão, época de aproveitar com a família. Não vou ficar postando foto. Daí então, como não ia postar fotos, passei a tirar menos fotos. Daí então, como não ia tirar fotos, passei a andar sem o celular. Daí então, como estava sempre sem o celular, passei a olhar mais ao redor, para as pessoas, as casas, a natureza. Achei gostoso e fui ficando.

Virei um alienígena. Na sala de espera do médico todo mundo olhando pro celular, eu virei aquele simpático que puxa conversa. Na saída da escola, todos os pais olhando pro telefone, eu olhando as crianças brincar. No restaurante, mesmo quando almoço sozinho, estou olhando pela janela, pra comida, sentindo o aroma do tempero. Esses dias encontrei um bicho no alface e me perguntei quantas vezes comi um desses, enquanto almoçava respondendo emails.

Passei a ler mais livros. Tenho tempo de assistir filmes antigos, que sempre quis ver. Saio com meus amigos e conversamos por horas, sem olhar o celular. É claro que tem desvantagens: não sei qual é o meme do momento; não entrei no último challenge do Facebook; não estou por dentro dos bastidores dos reality shows, nem sei nada sobre nenhum dos envolvidos nas festas que aconteceram em Fernando de Noronha – e imagino que seja assunto velho, me desculpem.

Mas também não fico até as três da manhã em discussões sobre política no Twitter; não troco o sorriso das minhas filhas pelo sorriso de outras pessoas no Instagram; não fico até de madrugada jogando Candy Crush e depois digo que não tenho tempo pra nada.

Ouço as pessoas reclamando que não tem tempo, que estão cansadas. Recomendo deletar todas as redes sociais e todos os jogos do celular. Vai parecer que o dia tem 50 horas.

Minhas filhas perceberam que não estou no celular, então também não pedem. A mais velha tem usado apenas para pesquisar as tarefas. A mais nova não assiste Youtube há semanas, desde que descobriu os gibis da Mônica. Depois que lê todos, pede pra ir no sebo e trocar por novos. E influencia as amigas: esses dias passou um final de semana com uma colega viciada em Youtube, e na noite de domingo era a menina tinha se transformado. Agora só quer saber de gibi da Mônica. Estão à salvo da sinistra boneca Momo.

Sempre fui um entusiasta da tecnologia, um early adopter de todas as redes sociais. Fiz um blog em 2001, entrei no Twitter em 2008, no Instagram em 2010, tive um vlog no Youtube em 2009. Não havia quase ninguém lá. Mas agora, sinto que virei um early desadopter: estou me distanciando daquilo que não me deixa mais produtivo e não me deixa mais feliz. Por enquanto, está maravilhoso.

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