Depressão pós-parto: o romântico mundo da maternidade desaba no pós-nascimento

Foto: Marco Favero

O romântico mundo da maternidade desaba no pós-nascimento imediato. Todas as certezas, opiniões que se construíram, anotações do curso de gestantes e da internet, os livros e até aquele “eu juro que não vou fazer” caem por terra.

Pode até ter um componente hormonal, mas existe um mundo de cobranças em cima da nova mãe e expectativas em torno da maternidade ideal.

A fase puerperal é conhecida pela ocorrência de ajustes psicológicos, de recuperação e adaptação às transformações sofridas pelo organismo feminino no seu estado gravídico.
Junto a estes ajustes, uma nova rotina, novas preocupações e a própria recuperação do corpo pós-nascimento tornam a mulher muito mais vulnerável.

As mudanças conscientes e as inesperadas podem contribuir para o desenvolvimento da depressão pós-parto. Se o transtorno depressivo já é julgado e cheio de preconceitos, imaginem a depressão enquanto a mãe deveria estar apenas feliz.

Há grandes transformações não só na saúde da mulher como uma soma de experiências alheias, as vezes polêmicas, que irão alterar o psiquismo e o papel sócio-familiar. Me arrisco a dizer que, provavelmente, em nenhuma outra fase da vida da mulher inúmeras modificações e alterações no corpo humano ocorram em tão curto espaço de tempo.
Os dados brasileiros são pouco alimentados, mas estima-se que 10% a 20% das puérperas desenvolvam depressão pós-parto. As consequências graves dessa condição são trágicas
não só para a mulher, mas para todo o sistema familiar.

A etiologia da depressão pós-parto ainda não é totalmente conhecida e inúmeros fatores, além dos já citados, podem influenciar. Entre eles estão os hereditários, obstétricos relacionados à gestação atual ou anterior, a saúde antes e durante a gestação e, principalmente, a história de depressão anterior à gravidez.

Os sintomas fundamentais são os mesmos da depressão fora do período puerperal: humor deprimido, perda do interesse e fatigabilidade que, juntamente com outros sintomas acessórios como, por exemplo, atenção e concentração reduzidas, sono perturbado, apetite diminuído, auto-estima reduzida, pessimismo no futuro, fazem o diagnóstico.

Uma dificuldade diagnóstica importante pela mistura dos sintomas depressivos e o momento da mulher na fase pós-gestacional somada ao tabu do tratamento frente à amamentação acaba subdiagnosticando e consequentemente subtratando essas mulheres.

É sabido que a depressão pós-parto pode, além de afetar a vida da mulher e do casal, ter implicações negativas na interação mãe-bebê e afetar o desenvolvimento da criança.

Cabe a nós, como sociedade, quebrar os estigmas envolvidos com a maternidade e permitir que a mulher se desenvolva como mãe dentro dos preceitos que julga fundamental e, sim, olharmos as puérperas não apenas como mães, mas, também, como mulheres no sentido literal da palavra.