Desafiar nosso trabalho é também desafiar nossa própria identidade

Mas tudo leva a crer que os próximos anos serão de cada vez menos empregos, pelo menos como os conhecemos

Foto: Pexels/Reprodução

Dias desses, navegando pelo Youtube, acabei caindo em uma ótima palestra do professor Luli Radfahrer sobre o emprego. “Que coisa é essa que todas as pessoas, todos os governos, todas as empresas defendem tanto?”, ele pergunta. “O emprego é uma violência diária, constante e gigantesca. É uma humilhação completa em que todos os dias você é submisso e tem que respeitar uma hierarquia que não faz o menor sentido. Você tem um idiota por chefe, você tem um idiota por cliente, quando você mesmo não é o verdadeiro idiota”, ele diz, comicamente. “Ainda assim você não pode falar mal do emprego. Você pode falar mal do seu trabalho, mas não pode falar mal de trabalhar”, completa.

Logicamente, ridicularizar o trabalho é tarefa delegada apenas para malucos ou revolucionários. Nosso século foi baseado naquilo que fazemos e no quanto de valor aquilo que fazemos entrega para a sociedade. Alguns sobrenomes, inclusive, determinam aquilo que seus antepassados faziam: os Fischers são pescadores, os Schumachers são sapateiro, os Schmidt são ferreiros, e assim por diante. Soa ultrajante desafiar aquilo que nos deu um sobrenome, aquilo que nos empresta algum sentido no mundo. Desafiar nosso trabalho é também desafiar nossa própria identidade. A primeira coisa que perguntamos para uma pessoa ao conhecê-la é seu nome. A segunda é o que ela faz da vida.

Mas tudo leva a crer que os próximos anos serão de cada vez menos empregos, pelo menos como os conhecemos. Cada vez mais, postos de trabalho estão sendo substituídos por máquinas. As grandes montadoras de carros nos anos 80 empregavam mais de um milhão de pessoas. A nova grande indústria da tecnologia emprega metade disso. A cada dia, jornalistas, engenheiros, arquitetos, advogados e fisioterapeutas se tornam motoristas de Uber, por não conseguir colocação na sua área. E o que acontecerá quando os carros se dirigirem sozinhos, revolução prevista para os próximos dez anos?

Teremos que reorganizar nossa sociedade de outra forma. Não será a primeira vez. Migramos de uma sociedade agrícola para uma sociedade industrial. Hoje, grandes potências econômicas são, em grande parte, focadas em serviços. Qual será o próximo passo? Quando as máquinas forem mais inteligentes do que nós, o que os futuristas chamam de singularidade e prevêem que aconteça até 2049, o que sobrará para nós e nossos empregos inúteis? No futuro, teremos que entender novamente o que podemos ser, para além daquilo que fazemos. Seremos todos artistas? Youtubers? Jogadores de videogame em uma realidade virtual? Uma sociedade hedonista que apenas passa os dias assistindo Netflix, jogando Candy Crush? Seja como for, teremos sempre os malucos e revolucionários para nos provocar.

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