Conheça projetos que conectam arquitetura, design e arte de modo original e sensível

Existe uma força poética que só a arte, em suas diversas linguagens, pode atribuir aos espaços

Somos parte da paisagem
Somos parte da paisagem (Fotos: Mariana Boro/@acasaacom)

As obras de arte são comumente utilizadas em projetos de interiores como elementos decorativos complementares. Ao se adotar uma tela, uma gravura ou uma escultura por suas características formais, não se está necessariamente reduzindo sua relevância, pois a beleza é um valor nobre ao espírito humano. Porém, a arte tem tantas outras potencialidades mais densas, eloquentes e mobilizadoras que a aparência, e elas não devem ser desprezadas. Existe uma força poética que só a arte, em suas diversas linguagens, pode atribuir aos espaços. Por isso, nesta edição, eu mostro alguns projetos e criações que conectam arquitetura, design e arte de modo original, sagaz e sensível. Nos corpos, nas casas, nos jardins, nas ruas, a arte nos salva da superficialidade, da obscuridade, do óbvio.

PALAVRAS AO VERDE

Paisagem com arte: impregnações da história, da memória e da emoção nos cartazes criados por Camila Petersen e Fábio Yokomizo

Ao projetar um jardim numa área inclinação (talude), a arquiteta e paisagista Ana Trevisan criou uma escada de concreto moldado que é não apenas elo entre os diferentes níveis do terreno, mas um lugar de permanência, contemplação e experimentação. Ali, um dos degraus se alonga para formar um banco que convida a sentar e a se conectar com o presente e natureza. Este e alguns dos demais degraus servem de suporte aos lambe-lambes da ação artística Somos Parte da Paisagem, que trazem textos curtos com histórias reais que se conectam com o bairro de Santo Antônio de Lisboa, onde se situa o jardim. As narrativas do percurso despertam memórias, reflexões e emoções que e ensinam: os espaços privados ou públicos, da casa e da cidade, são feitos de pessoas e suas histórias, sejam elas bonitas, trágicas, engraçadas ou mesmo banais.

LUGAR-NÃO-LUGAR

Invólucros de sentimentos: os casulos de tecido da série Air Embroidery (Bordados no Ar), de Renato Dib, expostos na sala nômade concebida por Marcelo Salum

Uma sala de estar com espaço para escritório doméstico criada pelo arquiteto Marcelo Salum apresenta uma investigação lírica sobre a condição nômade de seu morador. Como falar da transitoriedade de sua (de nossa) vida e dos movimentos que ele faz pelo mundo? Mais do que na esperta utilização de móveis soltos e nos materiais que aludem a cores e texturas dos desertos, é notório o papel relevante das artes visuais na construção de uma narrativa coesa e densa sobre a ocupação do espaço. Dentre as diversas obras, os objetos aéreos do paulistano Renato Dib captam um sentido particular da analogia que Salum propõe, “entre a morada e a própria natureza humana que está sempre em movimento, expandindo-se e se retraindo”, diz o arquiteto. Dib, que tem os tecidos e bordados como base de suas criações, argumenta: “Para mim, o uso dos tecidos nas minhas obras remete à pele e, por consequência, ao corpo humano. Sempre investiguei as relações do dentro-e-fora, das células e dos órgãos, como busca às questões internas do ser”. Os casulos de tecidos-peles que parecem se soltar estabelecem forte coerência simbólica com o conceito do projeto de interiores e lançam questões complexas sobre o que nos é essencial, sobre a impermanência, para muito além de seus atributos estéticos. O que sempre levamos conosco? Do que realmente precisamos? Para cada resposta, uma centena de perguntas. E que assim seja.

Arte fiada

Padrão de beleza: o jacquard de O Tropicalista na foto-arte de Mariana Boro

O tecido jacquard nasceu no final do século XVIII quando, a partir de um sistema de cartões perfurados que orientavam o comando para o entrelaçamento dos fios em um tear, passou-se a produzir um pano que permite a criação de padronagens complexas em escala industrial. A estampa no jacquard não é, portanto, tinta aplicada sobre a base têxtil, mas sim o resultado de uma trama urdida com fios tingidos. Daí a durabilidade superior de suas cores e sua aplicação indicada para revestimento de mobiliário e complementos de decoração. Foi com um tecido assim que o estúdio de design de superfícies e laboratório artístico O Tropicalista – sediado em Florianópolis e comandado por Marcelo Fialho e Marco D. Julio – foi selecionado para a exposição do 32º Prêmio Museu da Casa Brasileira 2018, de São Paulo/SP. Fabricados pelos teares eletrônicos da catarinense HACO, os seis padrões da coleção de jacquards trazem elementos da flora brasileira em belas composições de cores e formas que aproximam os valores da arte e do design.

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