Design para completar: conheça iniciativas em que o morador complementa o local em que vive

Em programas habitacionais, a despersonalização das edificações é um fator comum que tem consequências sérias na esfera privada e na pública

Meio cheia ou meio vazia?: o projeto de habitação popular de Alejandro Aravena entrega moradias com uma metade pronta, e deixa a outra sob a concepção e a execução de seus ocupantes (Foto: Crédito: Elemental / Divulgação)

Quando pensamos em governança urbana — a participação e o monitoramento da comunidade na construção de um lugar melhor para se viver —, logo vem a noção de que nossa rua, nosso bairro, nossa cidade são, ora, nossos e por isso devemos cuidar deles, como cuidamos de nosso espaço doméstico. Mas, e se nem sua própria casa lhe traz qualquer sensação de identificação pessoal, pertencimento e acolhimento?

Em programas habitacionais, a despersonalização das edificações é um fator comum que tem consequências sérias na esfera privada e na pública. Será que, só porque alguém compra uma casa com subvenções estatais e facilidades de financiamento, ele não pode questionar a adequação daquele projeto às suas necessidades objetivas e subjetivas? Pode e deve.

O arquiteto chileno Alejandro Aravena foi pioneiro ao conceber um modelo de habitação social que alia qualidade de partido e baixo custo à participação direta dos seus destinatários. Num primeiro momento, na cidade de Iquique, para lidar com a grande escala da demanda de moradia, a velocidade das ocupações em centros urbanos e a escassez de recursos públicos, e depois para resolver de modo rápido e barato o déficit habitacional causado por um violento terremoto em Constitución, Aravena propõs uma tipologia inusitada: uma casa pela metade, ou seja, uma edificação de 80m2 em que há metade da área está pronta para morar, com revestimentos de concreto e madeira, encanamento e instalações elétricas finalizados, e na outra metade, apenas as estruturas estão executadas. se em metade de cada casa observa-se um padrão de projeto, na outra o morador está livre para completá-la a seu gosto e possibilidades. Racionalidade e subjetividade caminham juntas, aqui.

ENQUANTO ISSO, EM AMSTERDÃ…

Lar DIY: o edifício de apartamentos DeFlatKleiburg tem tipologia que propõe ao morador pensar sobre que tipo de casa ele precisa, deseja e pode ter (Foto: Marcel van der Burg/Divulgação)

Os escritórios holandeses NL Architects e XVW ArchitectuurThe colossal comandaram o projeto de reforma de um colossal bloco habitacional construído na década de 1960, com 11 andares e 400 metros de comprimento, abrigando 500 apartamentos customizáveis. O DeFlatKleiburg, que oferece imóveis residenciais de baixo custo, adota o conceito de apartamento “faça-você-mesmo” (DIY) , que permite aos residentes idealizar e concretizar inteiramente os espaços, desde a composição da planta até os acabamentos.. Na reforma os arquitetos priorizaram a recuperação de estruturas comprometidas, elevadores, galerias e instalações de uso comum, enquanto os apartamentos foram deixados inacabados e sem mobiliário. a planta privativa aberta trouxe flexibilidade na ocupação dos espaços e reduziu drasticamente o custo total da obra. Um modelo inovador de habitação popular que oferece ainda vários esquemas de compra subsidiada, aluguel ou contratos mistos. Pelo projeto, os escritórios receberam o prêmio Mies van der Rohe de Atquitetura Contemporânea, concedido pela União européia, em 2017.

DESIGN VIVO

Criado para criar: mosaico permite composição original e transforma o consumidor em co-autor (Foto: Mosarte/Divulgação)

Interferir no uso e na aparência de um objeto adquirido e completar seu desenho e seu sentido em casa: essa é uma ambição contemporânea no mercado de arquitetura, design e decoração. A Mosarte, empresa de mosaicos catarinense criou uma coleção que navega segundo essa rota de co-criações. “Mosarte Fabros Semplice” é um mosaico que pode ser instalado pelo consumidor em disposições diversas. O esquema de paginação é aberto e permite inúmeras combinações entre as peças, que são fixadas com fita adesiva dupla-face já aderida ao produto.

PASSOS CRIATIVOS

Pessoal e intransferível: o lambe-lambe criado por Maurício Arruda traz cartazes com círculos vazios a serem livremente preenchidos a lápis de cor ou adesivos colados pelo comprador (Fotos: BG27 / Divulgação)

O bureau de pesquisa de tendências WGSN indica que um sentimento de liberdade de pensamentos e atitudes permeia o estilo de vida contemporâneo, que se desprende das idades cronológicas e se aproxima de um gradiente multigeracional. Os designers estão atentos às qualidades individuais de cada geração e a um forte senso de individualidade e personalização que orienta ações de consumo atualmente. Com novos meios de expressão criativa e auto-identidade desenvolvidos em técnicas projetuais como o design thinking, por exemplo, o consumidor abandona a tradicional postura passiva quanto aos artigos que adquire e se torna um agente transformador. No design de objetos e de itens para decoração essa tendência tem sido progressivamente explorada.

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