A conquista de espaço e voz dos negros é tema de reflexão no Dia Nacional da Consciência Negra

"A mudança já começou, por nós", Amanda Vieira

As dificuldades de inserção no mercado de trabalho, falta de oportunidades e preconceito são temas que norteiam os debates crescentes no Dia Nacional da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro. Apesar de serem motivos de luta diária, a data é importante para reforçar à reflexão sobre a igualdade racial.

Dados do Sebrae destacam números que refletem muito mais do que a conquista de espaço dos negros no mercado de trabalho. De acordo com levantamento feito pela agência, com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), 52% dos donos de negócio são afrodescendentes. Somente em Santa Catarina, segundo a Coordenadora da Rede Nacional de Afroempreendedorismo em Santa Catarina (Reafro), Giselle Marques, microempreendedores individuais (MEI) somam 100 mil afroempreendedores.

— Quando redirecionamos nosso olhar para além de cargos de limpeza, constatamos a restrições nas contratações de pessoas negras por “não se encaixarem no padrão”. Mesmo com currículos tão bons ou melhores quanto o colega que almeja a mesma vaga. Esse é um dos pontos principais que levam essas mesmas pessoas ao empreendedorismo. – aponta Giselle Marques.

Giselle Marques, arte-educadora, escritora e Coordenadora da Rede Nacional de Afroempreendedorismo em SC

Além da posição de coordenação na Reafro, Giselle é escritora e arte-educadora. Com lançamento de um livro previsto para o primeiro trimestre de 2019, “Mulheres negras e o empreendedorismo”, ela destaca que a conquista do espaço empreendedor se forma historicamente e se faz, na maioria das vezes, pela falta de oportunidade.

— A historicidade nos traz elementos imprescindíveis para a compreensão do atual cenário, cujo as lacunas em espaços de poder é o reflexo do que entendemos por herança patrimonial. Em meio às mazelas, a resistência negra já o fazia empreendedor, as mulheres negras já no século XIX trabalhavam no comércio com a venda de quitutes, joias e outras especiarias nos mercados.

Resistência e conquista

— A nossa voz está cada vez mais crescente, sim. Por que hoje estamos em todos os lugares. Hoje, pela maior oportunidade de nós negros conseguirmos estarmos inseridos em faculdades e universidades, acredito que as coisas estão mudando. A mudança já começou, por nós. A luta é de todos, mas temos que lembrar que no debate racial nós negros temos que estar presentes.

Amanda Vieira, analista financeiro

É assim que Amanda Vieira, analista financeiro, destaca a importância de debater o tema de igualdade racial nos dias de hoje, reforçando a importância do lugar de fala.

— Não há como descrever a realidade, a dor, se você não passa por ela.

Esse é o mesmo conceito trazido pelo Grupo Mulheres do Brasil, que recentemente reuniu negras empreendedoras para discutirem essa realidade com o grupo. Para Flávia Bittencourt, é importante trazer convidadas com fatos, dados e experiência da realidade que a raça negra, ainda nos dias de hoje, passa.

— Fazer com que, independentemente da cor, todos saibam que cada um tem uma “dor” diferente, mas que precisamos sair da nossa “bolha” e se colocar no lugar do outro, trazendo para nossa realidade também algo que não é nosso dia a dia.

A discussão das relações étnico raciais se faz necessária. A população negra, de acordo com a coordenadora da Reafro, movimenta 1,5 trilhões de reais no país sendo uma potência na economia nacional. Entender esse movimento é o primeiro passo para conquistar a igualdade racial.

 

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