“Ser mãe não é se abandonar”, diz Djamila Ribeiro

Filósofa Djamila Ribeiro falou sobre maternidade durante debate em São Paulo. Foto: Midori De Lucca

Há cerca de 10 anos, a filósofa Djamila Ribeiro deixou a filha Thulane sob os cuidados do pai da menina, com quem era casada, e entrou na faculdade. Era o início da trajetória que a tornou mestre em filosofia política e uma das principais referências no movimento feminista negro atualmente. Mas, na época, Thulane tinha três anos e as pessoas falavam que Djamila tinha “abandonado” ela com o pai.

— Eu sempre quis deixar marcado para a minha filha que eu sou uma pessoa. Ela tem que entender que eu sou mulher. Não deixei de ser Djamila. O fato de eu ter ido estudar e “abandonado” ela com o pai foi o que proporcionou o que eu dou para ela hoje — explica a filósofa durante o debate Força Sem Superpoderes, promovido na última sexta-feira (4) em São Paulo pela The Body Shop. A conversa, sobre as pressões da maternidade, a importância de ter uma rede de apoio e de não romantizar o sacrifício materno, contou também com participação da youtuber e estudante de Ciências Sociais Nátaly Neri e Cris Bartis, apresentadora do podcast Mamilos.

Nátaly Neri, Djamila Ribeiro e Cris Bartis. Foto: Midori De Lucca

 

A Versar aproveitou para bater um papo com Djamila sobre maternidade. Confira:

Você comentou durante o debate que hoje tem uma rede de amigas que te ajuda e permite que você faça suas coisas sozinha. Mas quando sua filha nasceu, você tinha isso?

Não tinha tanto, minha mãe já era falecida e minha sogra trabalhava. Me senti muito sozinha, é um período de muita solidão e a gente precisa falar sobre isso. As pessoas não entendem, você não pode mais sair com suas amigas, a vida muda completamente e a gente se sente um pouco abandonada. Quando minha filha nasceu, senti muita falta de ter pessoas mais perto. Para poder dormir, dar uma volta, sem ouvir choro de criança. Tudo tinha que ser muito negociado. Foi muito duro, fiquei sozinha, sobrecarregada e muito cansada.

O que nós, principalmente quem não tem filhos, podemos fazer para ajudar as mães?

Acho importante: “amiga, estou indo aí fazer almoço, lavar a louça, cuidar do bebê para você dormir um pouquinho”. Isso faz muita diferença, porque a gente fica muito sensível, os hormônios estão complicados. Romantizam tanto a maternidade que quando a criança nasce você tem que lidar com um monte de coisa e às vezes não é fácil. Então acho que temos que oferecer ajuda. O que eu posso fazer? Uma visita para a gente poder conversar conversa de adulto, porque a gente fica às vezes o dia inteiro assistindo a canal infantil. Ou ficar com a criança para a mãe, sei lá, ir tomar uma cerveja. Acho que são essas as maneiras de ajudar.

Quando você foi estudar, sua filha tinha três anos. Como foi isso?

Eu senti muita culpa, porque a sociedade impute isso na gente. As pessoas me cobravam muito. Como que eu, uma pessoa que era mãe, estava em Guarulhos e a filha em Santos? Ela estava com o pai dela. Para mim foi difícil lidar com a culpa, até a hora que eu entendi que o que eu estava fazendo ia ser bom para ela também, que eu não tinha que ter vergonha nenhuma, que os homens fazem isso o tempo inteiro sem carregar um pingo de culpa, para mim foi libertador. E o quanto que eu mostrei para minha filha também que ser mãe não é se abandonar. Mostrei para ela uma outra concepção de maternidade sendo uma mãe que mesmo amando e protegendo ela, o que eu sempre fiz, também tinha vida e uma profissão. E hoje isso se reflete muito na minha vida. Hoje ela vê o quanto foi importante, e ela fala isso. Até me emociona. “Minha mãe teve que lutar muito para estudar e hoje ela faz várias coisas”. Ela sabe que eu só faço isso hoje porque quando ela tinha três anos eu saí para estudar.

Você fala sobre feminismo com ela?

Converso bastante com ela, até para ela entender o que eu faço, e por que eu faço. Eu mostro os casos que acontecem e por que isso acontece. Sobretudo agora que ela está começando a sofrer muito assédio, explico por que às vezes eu tenho medo que ela saia, ou não deixo ela fazer tal coisa. E ela já entende isso. A gente acha que não, mas é muito louco. Por mais que eu explique, ela também está absorvendo esse ambiente, como eu lido não só com minha vida pública mas também os valores dentro de casa.

Debate propôs ver as mães como mulheres fortes, mas sem superpoderes

Com o mote Força sem Superpoderes, a conversa mostrou que, às vezes, as mulheres vistas como fortes podem estar cansadas e sobrecarregadas com o trabalho e com a maternidade. As convidadas também destacaram a importância de não abrir mão de quem se é por causa dos filhos:

— Vejo mulheres que abriram mão de tudo pelos filhos e eles se tornaram a identidade dela. Quando eles vão embora, elas ficam sem ter o que fazer. Minha mãe acha que não era para eu ter saído de casa, por exemplo. Ela teve um trabalho para construir a identidade dela. Eu falo para minha filha que eu a amo muito, mas ela não é a única coisa que eu amo. Tem várias. Minha mãe não tinha esse monte de coisa, era só eu — conta Cris Bartis, que está grávida do segundo filho.

 

A repórter viajou a convite da The Body Shop.

 

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