Do que são feitas as lendas

Acompanhei pela primeira vez um dos maiores eventos de tênis do mundo. Foi sem querer que passamos pelo canal da Sport TV, e lá estava o número um perdendo para o quinto do mundo. Ficamos chocados com o nível do jogo. O “tal de Medvedev” deu todo trabalho possível para o Djokovic – que não passou para as etapas seguintes, mas terminou o jogo fazendo cara de “você joga muito, parabéns” para o menino de 23 anos que eu não sabia quem era. O Medvedev passeou nos jogos, tem um saque incrível – mas ao vencer o jogo seguinte, se perdeu – se irritou em uma jogada, destratou a torcida mostrando o dedo do meio, arrancou a toalha das mãos de um dos boleiros – e logo virou o bad boy da competição.

Torci pelos jogos do Rafael Nadal. Pessoalmente vejo nele uma energia bem boa. Uma quantidade de títulos tão grandiosa quanto a personalidade simpática. Achei graça que ele sempre arruma as garrafas na mesma posição, mexe na orelha-nariz-orelha antes de sacar ou receber um saque – isso em absolutamente todas as jogadas. Ele justifica que isso é uma forma de “colocar tudo no lugar” para que o jogo saia perfeito. Quem pode questioná-lo, afinal?!

Foi o menino bonzinho com o bad boy para a final e antes que eu diga quem venceu – para quem não assistiu – vale dizer que o espetacular jogo durou mais de 5 horas, e eu me arrepiei em cada minuto, sem piscar.

O jogo foi digno de uma final, disputado ponto a ponto – ora parecia mais fácil para um que para outro – mas o set decisivo foi ponto a ponto. Por fim, e por muito pouco, depois de um jogo de dois vencedores, o Nadal – para a minha alegria, e para quem virei torcedora sem nem perceber – venceu por muito pouco, no detalhe de jamais desistir da bola impossível. O que ele fez é o tipo de coisa que a gente só acredita se alguém provar. Era como seu eu tivesse entendido, finalmente, porque em nossas vidas a gente vence ou perde. É no momento da derrota certa, que as lendas conquistam o próximo e o próximo e o próximo ponto – e viram os jogos. Focados apenas no que podem viver e conquistar naquele momento, se tornam capazes de vencer corridas sem sexta marcha, sem freio, sem pit stop – como o Ayrton Senna fez. Lendas não desistem quando o que é impossível aparece, e modificam a maneira de fazer as jogadas e de correr para a reta final. E assim, mudam também as nossas vidas.

No final os dois fizeram discursos memoráveis – Medvedev tentando as pazes com a torcida, confessou-se humano pedindo desculpas pelo fiasco naquele dia das grosserias, reconhecendo e parabenizando o valor do Rafael Nadal, em um dos jogos mais importantes da vida – dos dois. Quem e apenas quem honra suas inspirações, em minha visão, será capaz dos mesmos feitos dos seus mestres – de bad boy, passou a exemplo de superação e diante do próprio orgulho, dessa vez venceu.

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