“Doutor Sono” nos remete ao pior da humanidade, enquanto “Cadê Você, Bernadette?” ao melhor

Imagem Filmes/Divulgação

*Andrey Lehnemann, especial

A força do registro cinematográfico está acoplado na história da vida e na necessidade de catalogar diferentes tipos de memória. Somos seres humanos desesperados por compreensão, diagnóstico e controle. Nesta ótica, o cinema moderno não tardou em nos fornecer uma forma de compensação e de conforto – e de nos autossatisfazer mais do que nos autoanalisar. É um pouco do que assumo ser o grande ponto por trás da questão levantada por Scorsese nos últimos meses sobre a maneira com que a indústria tem se comportado, investindo com ferocidade no universo dos quadrinhos. Se você não precisa pensar muito no que está “vendo”, aos poucos a arte se torna um produto industrializado de sabor conhecido. O problema deste pensamento é que ninguém sobrevive apenas de fast-food. O público muda de paladar na mesma intensidade que gosta de desfrutar o novo restaurante da cidade. As histórias, naturalmente, caminham junto. Escolhemos o que procuramos, acima de tudo; assim, o controle às vezes pode ser exatamente o tipo de sentimento que queremos nos deparar, naquela semana. Doutor Sono e Cadê Você, Bernadette? são filmes extremamente diferentes em temáticas, mas que trazem inquietações pessoais similares a respeito de como saber o nosso lugar no mundo – um deles, apresenta-nos o ódio e o pior de nós; o outro, o amor e a possibilidade de comunhão.

Um poeta costumava dizer que a vida não serve para você se encontrar nem para encontrar nada, a vida serve para você se criar. É o caminho dificultoso que Bernadette tem que compreender sem nenhum prazer para si, no novo filme de Richard Linklater, que responde à pergunta de seu título (“Cadê Você, Bernadette?”) com um ensurdecedor: à deriva. Existe uma amabilidade e ternura no longa-metragem estrelado por Cate Blanchett que é cada vez mais raro no cinema de hoje, ainda que não perca o cinismo que a vida projeta sobre nós. Bernadette Fox é uma arquiteta que passa a organizar e gerir a vida de sua filha – a quem deposita todas as expectativas de aproximação humana. Como toda artista, ela precisa de sua arte para respirar. Para tecer do caos algo belo, memorável, serene. Seu encontro criativo se dá numa viagem, quando permite a viver novamente a sua essência. Sua família não serve em momento algum como obstáculo, a não ser acréscimo. O espectador percebe de antemão; Bernadette, não. É preciso uma conversa com um de seus tutores, interpretado por Laurence Fishbourne, para lembrar a que condição Bernadette foi posta ao mundo: a de criar e a de viver – respectivamente.

Foto: Divulgação

Por outro lado, fugindo do passado tempestuoso, Danny Torrance, agora um adulto, em Doutor Sono, é atormentado por não ter encontrado uma forma de lidar com a dor, a depressão e seus vícios – pelo menos, não como Bernadette. O mais próximo de um ciclo completo se dispõe nas cenas particularmente sensíveis nos quartos dos doentes terminais, onde o personagem de Ewan McGregor pode seguir seu papel de intermediador entre mortos e vivos. O mundo de Doutor Sono é uma alegoria bastante explícita e pessimista sobre um mundo cínico, menos mágico e que suga nossa força vital. A trupe do Verdadeiro Nó, liderado por uma ótima Rebecca Fergunson, recebe oxigenação pelo medo das massas. É, afinal, um “mundo faminto”, como vários personagens repetem ao longo de duas horas e meia de narrativa. A força vital dos jovens são sugadas por quem quer a imortalidade do corpo e o abandono da alma. A obra é clara: esconda sua força antes que a suguem ou cresça escondendo quem você realmente é para se adaptar ao mundo. O grande problema do filme acaba sendo a infantilização do medo proposta pelo seu diretor.

Mike Flanegan sempre foi um bom argumentista, mas um realizador medíocre. Suas ideias jamais fazem jus às suas ambições. É difícil notar alguém pensando em cada quadro, ao se analisar uma obra sua. Sua simplicidade alcança uma gama de seguidores, ainda que seja pouca, porém sua técnica é debatível. Uma das raras sequências em que apresenta algo diferente, Flanegan acerta: ao levantar a câmera um pouco acima do ponto de fuga, o diretor recria a mesma sensação do triciclo de Danny quando ele vaga (adulto) nas ruínas do Hotel Overlook. O cineasta brinca com a percepção do adulto e do garoto, fazendo com que todo saibam a que corredor ele está a caminho e o que aquilo significa. Infelizmente, a cena também empalidece por ser utilizada uma segunda vez, com Abra, para gerar o susto esperado. Há outra rima visual com o original de Kubrick que é digno de nota – nela, o diretor faz o mesmo plano inicial do filme, da árvore para a estrada, só que agora, entretanto, o dia ensolarado do filme de 1980 é trocado por uma noite tomada pela nevasca – com a qual ambos os filmes terminam.

O roteiro de Doutor Sono é seu maior trunfo, explorando o conhecimento prévio do espectador sobre um mundo doente. Sua observação pessimista sobre a vida conclui que a morte é a única coisa que nos aproxima, ainda que queira ofuscar um pouco de seus tons fúnebres com os tons esperançosos finais de dar a juventude uma esperança de construir um mundo novo. A sensação deixada ao término, no entanto, é a de um passatempo prosaico e pouco imaginativo.

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