Ecossistema de Inovação: empresas de tecnologia se proliferam em SC e já influenciam a forma de trabalhar no Estado

Parece lazer, mas é uma reunião em uma multinacional em Florianópolis. Foto: Felipe Carneiro

Por Thiago Santaella, especial

Todos os gerentes da empresa estão reunidos. Dois na sinuca, um no fliperama, outra dupla no mini-golf, enquanto o restante acompanha observando e pontuando os principais temas da reunião de trabalho. São 16h. Para algumas cabeças mais antigas, isso significaria desperdiçar tempo, falta de produtividade. Para os inovadores do setor de tecnologia, é uma das receitas para uma fórmula que dá muito resultado e permitiu ao setor ser o menos afetado pela crise financeira em todo o país, com crescimento na casa de dois dígitos mesmo na maior recessão já enfrentada pelo Brasil. As mudanças de relacionamento profissional já estão transformando muito do conceito tradicional de trabalho como o conhecíamos. E, se prepare, as transformações vieram pra ficar.

A reunião acima ocorre em uma empresa que acaba de inaugurar o novo escritório, um espaço com dois andares, de 3 mil metros quadrados. Antigamente, uma área com essa proporção conseguiria abrigar até uma indústria de pequeno porte. Aqui, é um espaço com jogos, cafeteria e até três cantinhos especialmente preparados para quem precisar tirar uma soneca durante o expediente.

— Esses 3 mil metros quadrados que temos aqui poderiam ser, antes, um espaço para 600 pessoas em cubículos. Hoje, é um espaço para 200 pessoas. O andar em cima, de 1 mil metros quadrados, é apenas para os funcionários interagirem, sem nenhuma estação tradicional de trabalho — explica Daniel Girardi Dias, vice-presidente de operações para a América Latina da empresa, uma multinacional de hospedagem, que tem uma de suas sedes no Brasil e decidiu trocar o Rio de Janeiro por Florianópolis.

A Capital de Santa Catarina conquistou, sim, destaque como principal referência para a área no Brasil. Mas o avanço já se espalhou de tal forma que a cultura da inovação está presente em todo o território catarinense. Joinville, a maior cidade do Estado, é outro ótimo exemplo.

— Tem uma coisa que, às vezes, parece mais propaganda que valor de verdade. Falo dessa história de ter o videogame, essas coisas… Queremos que as pessoas estejam com a gente não pelo joguinho, mas porque têm muita vontade, gostam de desafios. Tudo isso é para que o funcionário não vá embora estressado, tenha um bom ambiente e se sinta bem no negócio — conta Piero Contezini, CEO e cofundador de uma startup em Joinville que ajuda milhares de empreendedores individuais a vender e receber, ao facilitar os pagamentos com boletos onlines e outros serviços.

Piero tem 34 anos e já abriu seis startups, quatro ainda são dele e outras duas, o empreendedor já vendeu. Em outubro deste ano, um levantamento realizado pela Associação Brasileira de Startups mostrou que Santa Catarina concentra cinco das quatro cidades com a maior concentração dessas empresas nascentes do setor (veja quadro acima), que tem grande potencial de crescimento. Florianópolis, Chapecó e Joinville lideram a lista, enquanto Tubarão completa o ranking no quinto lugar. Uma de cada região do Estado. De fora do território catarinense, nesse top 5 nacional, está apenas a cidade de Uberlândia, em Minas Gerais.

— A partir do momento que você está convivendo e vê que alguém do seu lado deu certo, você fica com esse sentimento de ‘eu também posso’. Cada dia essa roda está girando mais rápido. É o poder do exemplo local. Apenas nos último cinco anos, praticamente dobrou o número de empresas. E cada vez ela girará mais rápido e mais forte — aposta o presidente da Associação Catarinense das Empresas de Tecnologia (Acate), Daniel Leipnitz.

O Estado como um todo concentra 20% das 4,2 mil startups brasileiras. Ganha em números proporcionais pela população e perde apenas para São Paulo em termos absolutos. Por enquanto.
Somando também as empresas maiores do setor de tecnologia, os investidores privados e públicos, as universidades e as pessoas empreendedoras que nasceram ou escolheram morar aqui, tudo isso configura o que os especialistas chamam de “ecossistema de inovação”, um conjunto de fatores que influencia de forma positiva todos os atores do cenário e acelera seu desenvolvimento.

Cidades catarinenses entre as 20 brasileiras com maior
concentração de startups

Florianópolis
Chapecó
Joinville
Tubarão
Blumenau
Balneário Camboriú
11ª Criciúma
Fonte: Pesquisa ABStartups e Accenture

Números do ecossistema de Santa Catarina
• Faturamento das empresas de tecnologia passou de
R$ 28 mil anuais* (1986) a
R$ 6 bilhões por ano (2016)

• Há 1,2 mil empresas de tecnologia e inovação em SC
• SC concentra 20% das 4,2 mil startups cadastradas na Associação Brasileira de Startups (ABStartups)
*valores convertidos

A primeira incubadora

– Tudo começa de forma formal em 1986. Já havia algumas empresas de tecnologia surgindo, na garagem das casas mesmo. Mas aí criamos a IET, Incubadora Empresarial Tecnológica – conta o professor Carlos Alberto Schneider, presidente de honra da Fundação Certi.

Foi esse instituto que começou o processo que, em uma linguagem mais popular, pode ser resumido como o desejo de criar empregos em “informática”. Era o início de uma trajetória que começou com as primeiras seis empresas incubadas de Santa Catarina, em uma época em que o termo startup ainda não existia. Fernando, João Marcos e Frederico estavam perto da casa dos 30 anos no final da década de 80. Eles já “brincavam” com algumas montagens caseiras de placas de circuito. Mas a questão não ficava só na garagem:

– A gente trabalhava na Eletrosul. Tentamos pedir que os controladores de tensão já viessem prontos de fábrica nas nossas configurações, mas aí queriam cobrar bem mais por isso. Então nós mesmos fazíamos as adaptações. E caiu a ficha. Podíamos fabricar e vender para as empresas de energia – conta Fernando Pons, um dos fundadores e diretor de engenharia da Reivax, que completou 30 anos em 2017.

A empresa fabrica hardware que garante a energia dentro dos padrões nacionais. Na prática, é o mecanismo que faz com que a tomada da sua casa tenha 110 volts ou 220 volts, conforme a região.

Não existia nenhum fabricante nacional, então o trio resolveu ser o primeiro. Como era um passo no escuro, resolveram diluir o risco. Dois continuaram no emprego enquanto o João Marcos Castro Soares embarcava na aventura de criar uma empresa do zero dentro da primeira incubadora catarinense.

— A gente rachava nosso salário para cada um – conta Fernando, sobre aqueles primeiros anos.

— A experiência de incubação foi muito boa para o país — conta Nelson Zeni, atual presidente da empresa e a pessoa que ajudou os empreendedores a fazerem a sua primeira venda. Nelson ainda nem estava na empresa. Foi mesmo um apoio aos ex-colegas de sala da UFSC.

De seis pessoas lá no início, os fundadores, dois colegas de faculdade que se unem ao projeto e um funcionário (o Igor, que ainda está na empresa), hoje são 150 pessoas, com exportações para mais de 30 países, entre eles os EUA e o fornecimento de equipamentos para as forças armadas americanas, que controlam a produção hidrelétrica no país por uma questão de segurança.
Tudo isso em apenas um prédio. Coincidência ou não, a incubadora IET surgiu ali, a própria Acate teve sua sede antiga no local e, agora, o edifício abriga também uma multinacional de tecnologia. Tudo a partir do endereço no Bairro Trindade, em Florianópolis, em uma evolução que agora se espalha por dezenas de municípios, novos endereços da inovação em todo o Estado.

Para compreender o boom de ideias inovadoras que Santa Catarina abriga, basta olhar um dos programas que mais ajuda no surgimento de startups. A Fundação Certi desenvolve, em parceria com o governo do Estado, o projeto Sinapse da Inovação. Todos os anos, são selecionadas 100 propostas de inovação para serem transformadas em empresas, novas startups. Apenas neste ano, foram 1791 projetos inscritos por mais de 4 mil participantes. As ideias vieram de todos os cantos do Estado, com 300 selecionadas para a segunda fase do programa provenientes de 46 municípios diferentes. Isso em apenas uma iniciativa das várias que existem em Santa Catarina.
A roda continua a girar.

“Quando você está convivendo e vê que alguém do teu lado deu certo, você fica com esse sentimento de ‘eu também posso’.” Daniel Leipnitz, presidente da Acate

Uma ilha de conexões

Florianópolis reúne a maior concentração de pessoas que trabalham com tecnologia no país. Elas se encontram em supermercados, festas, bares ou até para levar a roupa na lavanderia. No meio, costuma se dizer que perde apenas para o Vale do Silício em concentração de gente que atua com inovação. E essa não é uma comparação a se menosprezar.

— Hoje Florianópolis é uma das cidades que tem mais densidade de pessoas que trabalham com tecnologia na cidade. De cada 1 mil pessoas, 100 trabalham no setor — conta Alexandre Souza, coordenador do programa Startup SC, do Sebrae.

Uma startup pode acelerar a economia de um município. Mas seus efeitos podem ser em uma escala muito maior. Lívia, Patrícia, Gustavo, Peralta, Eduardo e Ilê ajudam todos os dias 40 mil pessoas de todo o Brasil e até de outros países com os problemas de saúde delas. Eles desenvolveram e trabalham com um aplicativo que lembra os pacientes de tomarem as medicações prescritas pelo médico para o tratamento. Se não tomar, três contatos próximos recebem um alerta para cobrar que a pessoa lembre do remédio. Lívia Cunha é cofundadora da empresa que desenvolveu o app Cuco. E essa é justamente uma das caras novas que o setor de tecnologia começa a ter: a maior participação das mulheres.

Lívia Cunha, cofundadora da empresa que desenvolveu o app Cuco. Foto: Léo Munhoz

– Hoje também estamos lá na Cubo, em São Paulo. De cinquenta empresas, são apenas três fundadoras. Mas isso está mudando. No início da empresa, eu ia em eventos e só tinha eu de mulher. Agora eu já falo em encontros como uma forma de incentivar que surjam outras startups fundadas por mulheres – conta.

Tecnologia já é uma das principais fatias da economia em Florianópolis, ultrapassando o turismo. E os belos cenários da Ilha acabaram por se tornar um atrativo para o ecossistema de empresas de tecnologia que se formou na cidade. A Ilha é reconhecida como o principal centro de tecnologia, o local que fervilha e tem se desenvolvido mais rápido. Mas o diferencial de Florianópolis é outro:

— Santa Catarina furou a fila. Ultrapassou o Rio Grande do Sul, Pernambuco e até São Paulo. E as pessoas querem estar no centro de onde as coisas estão acontecendo. O que em outros lugares seria tratado como segredo, aqui os empreendedores compartilham de graça. E isso ajuda muito as empresas daqui a solucionarem mais rápido os seus problemas. — reforça Daniel Girardi Dias, que só discutiu a sua contratação com o head hunter que o procurou após saber que se tratava de um emprego em Florianópolis.

A evolução aparece nos números. Não foi apenas nos últimos anos que Santa Catarina se movimentou para ser o principal polo de tecnologia do país. Nos 31 anos de existência do setor no Estado, foram várias as iniciativas para chegar a essa realidade consolidada.

— De umas poucas empresas, lá no início, com um faturamento de R$ 28 mil anuais (em números atualizados), passamos a mais de 1,2 mil empresas que faturam somadas mais de R$ 6 bilhões — explica o presidente da Acate, Daniel Leipnitz.

Estilo Tech
Algumas características essenciais definem a formação de um ecossistema de tecnologia. Confira:

Colaboração
Empreendedores que já passaram algumas etapas compartilham com os iniciantes como venceram os desafios:
“A gente só tem problema em startups. É só desafios. Mas ali a gente encontra gente que já venceu esses momentos”
Lívia Cunha, CEO de uma startup

Networking e eventos
A oportunidade de conhecer casos de sucesso do universo da tecnologia inspira o surgimento de novos empreendedores.
“Apenas nesse ano, 14 cidades receberam o Startup Week”
Alexandre Souza, do programa Startup SC

Mão de obra qualificada e capacitação
Universidades, cursos técnicos, profissionais que já trabalharam em startups e empreendedores com “sangue no olho” compõem a rede do ecossistema.
“Um ecossistema é todo calcado nas pessoas”
Alexandre Leipnitz, presidente da Acate

Ciclos completos
Ter empresas de tecnologia em vários estágios de desenvolvimento, das consolidadas às mais iniciantes, e que consomem seus produtos entre si, como uma forma de testar as inovações e também fomentar o grupo local.
“Hoje existe um pacote completo de mecanismos de empreendedorismo inovador”
Carlos Schneider, presidente do conselho da Fundação Certi

Investimentos
Existência de oportunidades em financiamentos públicos, como a Finep e o próprio Sinapse da Inovação, e privados, como os investidores-anjo, muitas vezes empreendedores que deram certo e agora apostam em novo talentos.
“Tem que ser um empreendedor, ser aquela pessoa que coloca as coisas em risco em busca do que deseja”
Nelson Zeni, presidente da Reivax