Em entrevista exclusiva, coreógrafa Deborah Colker, que traz a SC o espetáculo Cão Sem Plumas, critica as manifestações contra a liberdade artística

Deborah Colker - Foto Flavio Colker

Deborah Colker: “É preciso estar atento para evitar que este sentimento pró-fascismo se transforme em censura” – Foto Flavio Colker, divulgação

Por Rafael Martini

Numa época em que se discute os limites da arte no Brasil, Deborah Colker garante que não está nem aí para esse mimimi todo disseminado intencionalmente nas redes sociais. “Não tenho medo de nada”, diz a coreógrafa multipremiada internacionalmente. Sua companhia de dança inicia neste fim de semana turnê por Santa Catarina para apresentar o espetáculo Cão Sem Plumas, baseado no poema homônimo de João Cabral de Melo Neto, de 1950. As apresentações ocorrem sábado e domingo no teatro do CIC, em Florianópolis, e na próxima quarta, em Blumenau, no Teatro Carlos Gomes.

Inquieta por essência, a carioca mergulha pela primeira vez numa temática escancaradamente brasileira, a partir de uma narrativa nordestina.

– O Cão Sem Plumas fala sobre o Rio Capiberibe e seu entorno, em Pernambuco. Só que apesar do localismo, sua mensagem é de uma obra universal sobre o inconcebível, o que não deveria existir. É uma poesia espessa sobre o descaso com as crianças, com as águas, com os animais e plantas. É uma obra que fala sobre o descaso com a vida – diz Deborah, por telefone, dos Estados Unidos

Cão Sem Plumas, que já esteve em SC este ano abrindo o Festival de Dança de Joinville, é um soco no estômago da ignorância. Tem cheiro de mangue, cara de lama. O espetáculo é uma espécie de divisor de águas no trabalho de Colker. Sem trocadilhos:

– Sou uma mulher e profissional antes do Cão e depois do Cão sem Plumas.

Quem for ao teatro verá no palco uma apresentação que mistura cinema, música e dança. Um retrato sem retoques do bicho homem e sua essência mais visceral. O espetáculo é provocativo como a arte deve ser. A proposta é tirar o espectador da sua zona de conforto. Ao comentar sobre o trabalho, Deborah praticamente não respira. Vai da política à filosofia, sem ser panfletária:

– Onde termina o rio e começa a lama, onde termina a lama e começa o homem? Quero falar desse homem caranguejo, que sobrevive à indiferença. O rio é a vida e a vida é irrigada pelo sangue.

Cenas de um filme realizado por Deborah e pelo pernambucano Cláudio Assis são projetadas no fundo do palco e dialogam com os corpos dos 13 bailarinos. As imagens foram registradas em novembro de 2016, quando coreógrafa, cineasta e toda a companhia viajaram durante 24 dias entre o sertão e o agreste até o Recife. No palco, os bailarinos se cobrem de lama, alusão às paisagens que o poema descreve, e os passos deles evocam os caranguejos.
Deborah não tem tempo a perder com os que tentam surrupiar a essência da arte, que é exatamente a de provocar:

– João Saldanha já dizia: quem só reclama é porque já perdeu.

Cão sem plumas, da Cia Deborah Colker – Foto Cafi, divulgação

2 perguntas para Colker

Duas recentes exposições em Porto Alegre e São Paulo foram acusadas de apologia ao crime e pedofilia, como você encara este momento no país para quem trabalha com arte e cultura?
O mundo vive uma onda de conservadorismo e isso não é uma realidade só brasileira. Mas é preciso estar atento para evitar que este sentimento pró-fascismo se transforme em censura. A melhor forma de frear o MBL é questionando na Justiça as mentiras por ele propagadas como verdades absolutas. Cabe aos que se sentem ofendidos buscar seus direitos na Justiça, simples assim.

Santa Catarina é considerado um dos polos de dança no Brasil. Dá para dizer que esta manifestação cultural alcançou sua maturidade?
Quem trabalha com dança está sempre reclamando da falta de apoio e dinheiro, o que é uma verdade. Mas vejo coisas muito interessantes. Em Santa Catarina, por exemplo, tem o Bolshoi e o Cena 11, duas companhias de dança. Além disso, existe um movimento que vem das ruas, inquietante e provocativo. A dança está aí e cada vez conquistando mais praticantes. Tudo é válido. É preciso entender de uma vez por todas que um país sem cultura é um país sem memória.

Serviço:
Deborah Colker apresenta Cão Sem Plumas

Florianópolis
Quando: 21 e 22 de outubro
Onde: Teatro Ademir Rosa, no CIC (Av. Gov. Irineu Bornhausen, 5600, Agronômica, Florianópolis)
Quanto: ingressos a partir de R$ 140 e R$ 70 (meia). Sócios do Clube do Assinante pagam R$ 110, via Blueticket

Blumenau
Quando: Dia 26 de outubro
Onde: Teatro Carlos GomesTeatro Carlos Gomes (Rua XV de Novembro, 1181, Centro, Blumenau)
Quanto: ingressos a partir de R$ 99 e R$ 49,50 (meia). Sócios do Clube do Assinante pagam R$ 69,30, via Blueticket