Em seu livro de estreia, Julia Faria reúne crônicas sobre as vantagens de aproveitar a vida sem um par

Foto: Luiza Ferraz

Às vezes, basta uma temporada sem namorar ou sem nenhum casinho à vista para que já se comece a sonhar com o dia em que vai mudar o status para “em um relacionamento sério” e usufruir de todas as benesses da vida a dois. Mas será que a solteirice não pode ser tão ou mais divertida e cheia de descobertas? Foi justamente para propagar as alegrias da vida de solteira, muitas vezes camufladas em meio à dor do fim de um relacionamento, que a atriz e escritora Julia Faria lançou seu primeiro livro. Para as solteiras, com amorPorque todo mundo já foi um dia (Paralela, 194 páginas) discorre sobre as vantagens de estar sem um par.

Escritas em tom informal, as crônicas são inspiradas em histórias vividas por Julia ou por suas amigas – e talvez por você mesma, como aquele cara que parecia estar super a fim, mas nunca mais deu as caras depois do primeiro encontro ou da primeira transa.

Ao publicar textos em seu blog sobre as desventuras da solteirice, Julia queria mostrar como a vida pode ser mais fácil sozinha, sem depositar as expectativas em ninguém além de si mesma, sem depender de ninguém para nada e decidindo você mesma para onde viajar, onde comer, qual filme ver ou quanto dinheiro gastar nisso ou naquilo. Foi assim que ela, referência de solteira feliz entre as amigas, angariou na internet leitoras fiéis que pediam cada vez mais textos sobre estar em paz com seu estado civil. A própria mãe de Julia tomou a iniciativa de reunir os textos escritos ao longo de anos no blog e enviar à editora, sem a filha tomar conhecimento.

Aos 31 anos, a atriz chegou a emendar uma década de namoros contínuos. Depois da última separação, se propôs a passar um tempo sozinha. E foi descobrindo a si mesma de uma maneira que não havia conseguido fazer enquanto estava em um relacionamento amoroso.

– Sou aquela amiga que fica meses e meses sem sair com ninguém. Viajo com casais de amigos e fico ótima. Direto, estou em mesa de jantar com quatro casais, sozinha, e fico ótima. Minhas amigas querem me arrumar um par mais do que eu mesma – conta ela.

A melhor parte de estar solteira, segundo Julia, é manter todo o foco em você mesma, sem ter de conciliar valores e diferenças corriqueiros até nas relações mais saudáveis.

– Não há expectativa para se frustrar, pois elas estão todas em cima de você, e não de outra pessoa. E outra coisa maravilhosa de ser solteira é que você pode cruzar a esquina e encontrar um novo amor. Todos os dias há essa possibilidade, e isso é maravilhoso – afirma.

Essas e outras dicas estão presentes ao longo das 30 crônicas do livro. Separamos algumas delas para você colocar em prática ou compartilhar com as amigas solteiras.

Seja o que você espera do seu par
Anda solteira e devaneando sobre quem é e por onde andará a pessoa ideal para você? Pode ser que quem espera para formar família e compartilhar os sonhos juntos realmente esteja em algum canto distante da cidade – ou até do mundo. Então, enquanto o destino não se encarrega de viabilizar esse encontro, ocupe-se em ser você mesma a pessoa com a qual está sonhando. Na falta de quem atenda àquela listinha imaginária de expectativas que você projeta para o seu novo amor, verifique se você mesma pode dar o “check” ao lado de cada item. Foque em você e em se tornar uma pessoa melhor, mais interessante e com mais conteúdo – para o par que você pretende encontrar, se pretende, mas, sobretudo, para você mesma. “Ele pode até achar alguém por aí mais sarada, mais alta que você (isso está fora do nosso controle). Agora, se vai achar mais inteligente, mais interessante, aí está na nossa mão”, escreve Julia.

Existe vida depois do pé na bunda
Os primeiros tempos na vida de solteira são os mais difíceis para quem teve de trocar o estado civil a contragosto. Julia acredita que as garotas costumam sofrer em dobro porque, geralmente, são duas perdas de uma única vez: o cara e todos os sonhos depositados nele.
A boa notícia, segundo a autora, é que dá, sim, para passar pela dor sem se entregar ao sofrimento. Uma das regras é se conscientizar de que, se você tinha um sonho, como ter filhos e construir uma família, ainda pode concretizá-lo com outro alguém ou de outra forma. Não é porque ele foi embora que tem de levar os seus sonhos junto. Para Julia, o medo de sentir a dor do término de uma relação pode ser maior do que a dor em si. E cada uma encontrará seu próprio caminho e deixará para trás esse período nebuloso. O lema da autora é: “Viajar, ler, escrever, tomar uma taça de vinho e gastar o assunto com amigos que façam bem”.

Peça em namoro a você mesma
Algumas situações e datas (como o 12 de junho) são capazes de balançar até mesmo as solteiras mais convictas e felizes. E foi vivendo um desses momentos que Julia decidiu pedir em namoro a si mesma. Uma noite, abriu uma garrafa de vinho, cortou queijos, acendeu velas e preparou uma mesa de flores só pra ela. Mimos e cuidados que foram se manifestando espontaneamente para selar o relacionamento sério consigo mesma. “E ao longo do ano todo vale esse exercício, não só no Dia dos Namorados (…) Se arrume para você, cozinhe para você. Alugue o filme que você quer ver. Se presenteie. Escolha por você, sempre, que a vida vai te surpreender”, aconselha. Se ficar consigo mesma pode parecer difícil no começo, com o passar do tempo, torna-se tão saboroso que pode ser até difícil abrir mão da própria companhia pela de alguém mais. “Depois que você aprende, só alguém que mereça muito e acrescente muito para te tirar do seu conforto”, adianta, com conhecimento de causa, a autora.

Primeiro encontro: foque na conversa
Uma das graças de se estar solteira é que o amor pode aparecer sem dar aviso prévio. E quando alguém bacana pintar na sua vida, a dica de Julia para o primeiro encontro é pular o cinema e o teatro e escolher um lugar propício ao bate-papo. “Você está ali para conhecer aquela pessoa, saber com quem está lidando. Descobrir coisas em comum, outras nem tanto. Se encantar, se deixar ser conquistada. Conquistar. Deixar que ele te corteje. Puxar a cadeira. Escolher o vinho”, descreve a atriz, que diz já ter tido um primeiro encontro inesquecível comendo cachorro-quente sentada num meio-fio. O fundamental, indica ela, é estar à vontade e deixar que o outro também fique, dosando as ações: falar, sim, mas saber ouvir, também. Se estiver à vontade, tome a iniciativa do primeiro beijo ou de prolongar a noite na sua casa ou na dele. “A grande sacada é você estar sendo honesta com as suas vontades. Todas elas. Fiel mesmo, parceira de você mesma. Porque a onda é a gente se agradar. Aguardar o outro é consequência”, resume a escritora.

 

Encare as decepções como aprendizados
Quem já experimentou estar solteira por muito tempo provavelmente tem uma história para contar sobre uma paquera que parecia promissora, até que a criatura sumiu depois do primeiro encontro ou da primeira transa. Pode ser alguém que você sequer conhecia até ontem, só virtualmente, mas conseguiu se fazer presente na sua vida de uma maneira que parece que ele sempre esteve ali. Do bom dia ao boa noite, o sorriso rola fácil quando o celular sinaliza uma mensagem dele no WhatsApp. Até que vocês finalmente saem ao vivo e em cores, e o encantamento virtual também se confirma. Julia define esse como o momento em que o “controle do videogame” passa para a mão do outro. E, no dia seguinte, quando você acredita que tem tudo para ficar ainda melhor, nem sinal da pessoa… Chá de sumiço. Na dúvida sobre a infinidade de motivos que podem ter feito o paquera recuar, Julia dá a dica: vá direito à fonte. “Olho no olho, pergunte o que rolou. Diga que é uma pena, porque você gostaria de ter experimentado mais. Acenda o pavio da bomba na mão dele e saia de fininho. Com classe. Desfile. Aí é abrir um vinho com as amigas para brindar mais um aprendizado para contar no final”, sugere.

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