Empresário de Joinville relata em livro a experiência de atingir o cume de uma das montanhas mais altas do planeta, o maciço Vinson

Guilherme Bertani - divulgação

Guilherme Bertani em expedição ao Vison – Foto divulgação

Comandar a maior exportadora de metais sanitários da América Latina, a Docol, com cerca de 1,5 mil funcionários, é um desafio e tanto. Para Guilherme Bertani, não o bastante. O paulista radicado em Joinville desde a década de 90 é também escritor e ainda arranja tempo para desbravar montanhas pelo mundo. Já escalou o Aconcágua, na Argentina; Kilimanjaro e Monte Meru, na Tanzânia; Pequeño Alpamayo e Huayna Potosí, na Bolívia; Antisana, no Equador; Elbrus, na Rússia, e por último, o Vinson. Os desafios e alegrias de subir o maciço mais alto da Antártida são o mote do recém-lançado livro Sobre a Fronte de Atlas.

De que forma surgiu o interesse pelo montanhismo?
A primeira vez foi em 2001, na Argentina. Um amigo fez trekking pelo Nepal com um guia brasileiro, que conduzia outras viagens. Uma delas era organizar expedições para o Aconcágua, que tem uma taxa de sucesso de chegar ao cume de 30%. Fui convidado e aceitei integrar o grupo de nove pessoas.

Como foi a transição das atividades físicas rotineiras para encarar a primeira subida?
Cresci próximo da natureza e sempre fui uma pessoa bastante ativa. Tinha o hábito de pedalar, jogar futebol e mergulhar. Quando surgiu o montanhismo, como eu não conhecia nada a respeito, minha primeira iniciativa foi ler revistas e livros que falassem sobre o preparo, a experiência, suas rotas e riscos à saúde. Quatro meses antes, intensifico a carga de exercícios. Subir a montanha é uma mescla de aeróbico com anaeróbico. É preciso ter disposição para aguentar uma jornada extenuante de esforço físico. Há momentos que exigem mais força do que resistência.

O que o Guilherme montanhista ensinou ao Guilherme empresário?
De fato foi o Guilherme presidente que ensinou mais, mas o montanhismo tem gerado realmente diversas correlações com o mundo empresarial ultimamente. Existem muitos paralelos, como o de atingir um objetivo e vencer desafios, que exigem esforço. Para ter sucesso é preciso planejar, buscar antever o caminho antes de percorrê-lo e calcular o uso correto dos recursos, lembrando que há também a volta. No montanhismo, depende principalmente de você ir adiante. Já nos negócios, as relações interpessoais são ainda mais importantes: todos precisam estar alinhados e focados no mesmo objetivo. E assim como na economia, especialmente a brasileira, a subida é repleta de incertezas. O clima está constantemente mudando, não é possível aguardar um dia bonito para continuar. Agilidade na adaptação também é um fator importante. Já no Cotopaxi, vulcão localizado no Equador, enfrentei pela primeira vez uma tempestade com fortes rajadas de neve e vento em plena montanha. Depois de duas horas de subida, decidi voltar e, 15 minutos depois, todo o grupo tinha voltado. Nessa ocasião, percebi a importância de saber até que ponto é possível ir.

A exploração no Vinson envolve a possibilidade de enfrentar temperaturas de -40ºC. Como se sentiu enfrentando todos esses fatores?
No Vinson, durante praticamente toda a viagem há a possibilidade de cair em gretas, cobertas por uma fina camada de gelo. Nem todos os trechos estão sinalizados. Busco minimizar esses riscos por meio da atenção plena nas condições do caminho e do corpo, tendo rapidez e equilíbrio na tomada de decisões. Importante também respeitar os limites, voltando sempre que necessário para descansar e dormir.

Quais são as principais recompensas neste tipo de jornada?
Estar na montanha é uma espécie de retiro físico e espiritual. Uma grande oportunidade para fazer reflexões sobre a vida, que permite abrir novas portas no retorno ao cotidiano. E, claro, há a questão da conquista, de realizar um sonho.

Você já esteve nas montanhas mais altas da Argentina, Tanzânia, Rússia e Antártida. O que o motivou a escolher o Vinson para o livro?
Foi o lugar de mais difícil acesso que explorei, devido às exigências em termos de condições físicas e financeiras. Está fora do roteiro de viagens da Antártida, que costuma ter mais procura no litoral, onde estão as estações de pesquisa. Achei também o ambiente bastante inspirador.

Desde o próprio título, passando por toda a narrativa, há diversas menções a deuses. Qual foi a sua intenção ao abordar aspectos ligados à mitologia?
A humanidade tem grandes questões. Algumas delas são O que é Deus?, O que é o amor?. A Antártida acabou inspirando a refletir sobre tudo isso. A verdadeira conquista está na satisfação com a nossa vida. Em um mundo do ter e do querer, esquecemos que desfrutar é o mais importante. É no ato de apreciar o presente que encontramos a felicidade. As próprias religiões tentam ensinar isso. O que tentei fazer no meu livro foi essa mistura do relato da viagem para a Antártida com a filosofia.

Quais serão os seus próximos projetos nas montanhas e na literatura?
Tenho dois livros de poesia, à procura de uma editora, um romance iniciado e dois por vir. Sobre as montanhas, iniciei os sete cumes, os locais mais altos de cada continente. Desses, já consegui fazer quatro. Meu próximo desafio deve ser daqui a dois anos, quanto pretendo escalar o Monte Carstensz, na Oceania. Os outros dois são o Denali, nos Estados Unidos, e o Everest, na fronteira da China (Tibet) com o Nepal. E tem também muitas outras montanhas pelo mundo que eu gostaria de subir, como Mont Blanc, na fronteira franco-italiana.

De que forma você faz o seu gerenciamento para conciliar os desafios no montanhismo, a gestão da empresa e a produção dos livros?
Como diria o Renato Russo, “disciplina é liberdade”: é preciso ter foco e planejamento, tanto financeiro quanto das atividades. Quem assume o papel de “salvador da empresa”, não consegue. É preciso contar com uma equipe que permita ao executivo se ausentar. A habilidade de ser um bom negociador com a família conta bastante também.

Serviço
Sobre a Fronte de Atlas, G. F. Bertani. Scortecci Editora, 160 páginas. R$ 43

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