Endometriose: conheça três mulheres que venceram a doença e se tornaram mães

Fotos arquivo pessoal

“Desde novinha eu sempre tive cólicas, que pra mim eram normais – acredito que por ser resistente à dor e porque nenhuma das minhas médicas falava que era errado. O fluxo também era intenso, de eu ter que sair da escola no intervalo porque o absorvente não dava conta. Sofri muitos anos assim, com dor e achando que era necessário menstruar”.

O relato é de Marina Fagundes, 29 anos, que descobriu ter endometriose já adulta, quando teve dificuldades para engravidar. De acordo com estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença afeta até 7 milhões de brasileiras e o que é mais preocupante: mesmo com os desconfortos da cólica aparecendo na adolescência, a demora no diagnóstico da endometriose pode demorar cerca de 12 anos.

O especialista Dr. Maurício Simões Abrão explica que o útero da mulher é revestido internamente por uma espécie de película chamada endométrio que, quando a mulher engravida, é responsável receber o óvulo fecundado. Durante o período menstrual, o endométrio é renovado e descama, sendo eliminado do corpo em forma de menstruação.

“A paciente com endometriose apresenta endométrio implantado fora do útero, ou seja, podendo infiltrar outras estruturas, como por exemplo, os ovários e os ligamentos ao redor do útero. Em casos graves, o endométrio pode aderir inclusive a outros órgãos, como a bexiga e o intestino”, reforça. O que causa a dor extrema característica da endometriose é que, assim como o endométrio, estes implantes também se inflamam durante o período menstrual, podendo causar dores e até infertilidade.

A relação de normalidade entre o período menstrual e as cólicas pode ser indicada como um motivo para 53% das brasileiras desconhecerem a doença, conforme aponta uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva (SBE), em parceria com a Bayer. No entanto, é necessário estar atenta a sinais importantes da endometriose que se manifestam já na adolescência:

  • Dores incapacitantes e persistentes durante todo o período menstrual e fora dele.
  • Dor pélvica inclusive durante a relação sexual.
  • Dificuldade e dor para evacuar.
  • Dores para urinar durante a menstruação.
Ao identificar esses sinais, o mais indicado é procurar um ginecologista e solicitar a investigação do quadro. Exames como o ultrassom transvaginal e de abdômen podem auxiliar no diagnóstico precoce e definição do tratamento ideal. “Quanto antes for detectada e tratada, melhor o controle sobre a endometriose. Embora não tenha cura, a rapidez no diagnóstico evita as complicações da doença e inclusive que a paciente passe por tratamentos mais agressivos, além de preservar a fertilidade”, ressalta o especialista.

Os relatos emocionantes das mulheres que venceram a doença

Krishna Lee, mãe do Gael de 4 meses

Foto: Arquivo Pessoal

“Desde muito nova tive cólicas, menstruei muito cedo – com 9 anos -, fui em diversos médicos. Sempre falavam que era normal sentir cólicas, mesmo cólicas intensas como as minhas, de desmaiar e sentir dores de cabeça fortíssimas. Passei minha adolescência inteira assim. Fui me preocupar realmente quando parei os anticoncepcionais, já casada e com intenção de engravidar. Esperei os tais 12 meses recomendados pelos médicos e nada. Então fiz um exame e esperei mais 6 meses, pois havia relatos de mulheres que engravidavam após este exame. Não foi o meu caso.

Mais médicos e mais exames. Nesse tempo vi na televisão algo sobre a ressonância da pelve. Pedi ao médico uma requisição, e o resultado estava lá: a endometriose, em grau IV, a mais intensa. Procurei um especialista e partimos para a videolaparoscopia, tudo limpinho e mais 8 meses de espera e nada! Aí o especialista recomendou uma fertilização in vitro, muitos medicamentos, injeções, muitas dúvidas, choros e mais choros. E nada!

Fui para São Paulo. Fertilização, mais injeções, medicamentos, quilos a mais… e nada! Mudamos todas as medicações e injeções. Deu certo! Estava grávida de gêmeos. Mas, tudo desabou quando fiz 8 semanas de gestação. Sangramento, nada de batimentos cardíacos e o diagnóstico: aborto. Fizemos então a curetagem. Muita tristeza, mas desistir não estava nos nossos planos.

No próximo ano, mais uma transferência de embriões, novas injeções, novos medicamentos e grávida novamente de gêmeos. Com cerca de 6 semanas começou um sangramento e o tal descolamento de placenta. Mesmo fazendo uso de  medicamentos, perdi um dos embriões; O outro fixou e com a graça de Deus hoje tenho meu bebê, meu milagre. Ele se chama Gael e está perto de completar  4 meses. Agora estamos ainda na fila da adoção.
Então posso dizer que depois de 7 longos anos eu venci a endometriose. Eu nasci para ser mãe!”

Clarissa Pereira Rodrigues, mãe do Miguel (dir.) e do Nicolas

Foto: Arquivo Pessoal

“Eu sempre tive os sintomas clássicos desde muito novinha. Cólicas incapacitantes que me faziam faltar as aulas no colégio, que me deixavam de repouso com muita dor e não havia medicamento que resolvesse. Tinha até episódios de fortes náuseas e desmaios, mas todo médico que eu ia na época me dizia que era normal, que eu era mais sensível.

Aos 18 anos eu comecei a tomar anticoncepcional e por volta dos 21 minha menstruação começou a reduzir até quase zerar por conta do remédio. O médico sugeriu que eu tomasse o anticoncepcional sem pausas, uma cartela seguida da outra. E assim fiz e sem querer eu “tratei” ou dei uma segurada na doença.

Então depois de mais de dez anos já casada resolvemos que era a hora de termos nosso primeiro filho. Com 32 anos parei de tomar o anticoncepcional. Começamos as tentativas para engravidar e nada acontecia. Depois de quase um ano fiz todos os exames para verificar se eu tinha algum problema. Todos os exames deram normais.  A ginecologista nos encaminhou para um especialista em reprodução. Fizemos diversos tratamentos, estimulação de folículos, acompanhamentos, controle ovulatório, e nada!

Até que já com 2 anos e meio de tentativas o médico levantou a suspeita  de que eu tinha uma endometriose que estava afetando minha fertilidade. Minhas opções eram fazer um fertilização in vitro ou fazer uma videolaparoscopia investigatória para tentar descobrir a endometriose ou outro problema que os exames não mostravam.

Dois meses depois fiz a cirurgia que constatou que eu tenho a doença. Minha endometriose era de grau 2. Foram encontrados focos nos dois ovário, nas paredes externas do útero, no intestino e até na bexiga. Meus dois ovários estavam completamente tomados. Depois da cirurgia precisei fazer um tratamento que durou aproximadamente 8 meses. Depois deste tratamento consegui engravidar, mas tive uma perda com 9 semanas. Passei mais um tempo sem conseguir engravidar depois desta perda. O que me levou a fazer outro tipo de investigação. Fui a uma hematologista e também descobri a trombofilia – trombose na gestação. Ela impede que a placenta se forme, dificulta a fixação do embrião, e pode formar trombos na placenta que dificulta a troca sanguínea com o bebê podendo levar a abortos, perdas gestacionais tardias e também trombose na gestante. Depois de alguns meses já quase desistindo, descobri que estava grávida do meu primeiro filho.

Foram quase 4 anos até a chegada dele. Quando meu filho mais velho completou 1 ano, decidimos que já era hora de começar a tentar o segundo. Já que foram 4 anos para dar certo. Ficamos com medo da doença voltar e ter que mais uma vez operar e também demorar muito para engravidar. Mas desta vez foi diferente. Em um mês veio o positivo. Não esperávamos ser tão rápido. Precisei interromper a gestação com 36 semanas e fazer uma cesariana. No parto minha médica encontrou novos focos de endometriose. Hoje estou usando diu com hormônio o que me deixa sem menstruar e controla a endometriose.”

Marina Fagundes, mãe do Arthur de 2 anos

Foto: Arquivo Pessoal

“Desde novinha eu sempre tive cólicas, que pra mim eram normais – acredito que por ser resistente à dor e porque nenhuma das minhas médicas falava que era errado. O fluxo também era intenso, de eu ter que sair da escola no intervalo porque o absorvente não dava conta. Sofri muitos anos assim, com dor e achando que era necessário menstruar. Quando resolvi engravidar, tentei por alguns meses, não conseguia, e todos os médicos que eu consultava me falavam que era comum demorar até um ano, que a ansiedade poderia atrapalhar e que investigar algo só depois desse tempo.

Depois de muito insistir uma das ginecologistas que eu fui me pediu um ultrassom de acompanhamento do ciclo. Quando fui fazer a médica logo falou que suspeitava que eu tinha endometriose, mas teria que observar. Fiquei desorientada, nunca tinha ouvido falar na doença. Algo me dizia que não era para esperar, que tinha algo errado, já que meu marido é saudável, eu também, somos jovens, enfim… Fui atrás de um especialista. Mesmo contra as opiniões, eu queria saber se estava tudo certo. Não estava. Descobri a endometriose. Fui encaminhada para outro médico especialista em infertilidade. Após alguns exames, marcamos a cirurgia para a data mais próxima, porque minha doença já não era leve, estava num estágio de médio para avançado, com muitos focos.

Como nunca me pediram exames? Como me falavam que sentir dor é normal? Junto com os exames de sangue para entregar no hospital para a cirurgia tinha o de gravidez. Na sexta-feira antes da entrevista com o anestesista fui imprimir tudo para anexar ao pedido do plano e quando olhei o resultado: POSITIVO. Foi o maior susto, surpresa e alegria da minha vida. Foi Deus, porque realmente seria muito difícil eu engravidar com tantos focos de endometriose. Obviamente fiquei a gestação inteira sem menstruar, e como o Arthur ainda mama, minha menstruação só veio agora. O que me faz procurar um método contraceptivo que me ajude a não sangrar mais e tentar fazer com que a doença não apareça. Investiguem, dor não é normal.”

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