Aninha: “A música deixa todo mundo igual”

Aninha foi uma das primeiras mulheres a se destacar na música eletrônica brasileira. Foto: Fransuê Ribeiro

Há cerca de 20 anos, Anna Paula Cabral começou a trabalhar na noite. Primeiro, nas saudosas baladas entre Porto Belo e Balneário Camboriú, que fizeram os verões de muita gente mais feliz. Depois, como residente do clube Warung, na Praia Brava em Itajaí, e dali para o mundo. Hoje, mais madura e aberta, Aninha está em uma fase criativa e de realização pessoal, depois de cinco anos dividindo-se entre o lado artista e o empresária. Sócia da label Seas, de Balneário Camboriú, e a mais nova residente do Terraza, em Florianópolis, ela conversou comigo sobre música e outras coisas.

Você começou a tocar no começo dos anos 2000. Como foi o início da sua carreira e como era a cena naquela época em SC?

Em 1998 comecei a trabalhar como promoter. Eu era adolescente, queria sair, ficar livre e ter a minha grana, e surgiu a oportunidade de divulgar o Rancho do Perê, em Porto Belo. Foi lá que vi um CDJ pela primeira vez. Na época também ia no Cavalinho, em Itapema, e depois trabalhei no Café Pinhão, em Porto Belo. As raves iam acontecendo, com outro tipo de música eletrônica que não tocava nas rádios. Na noite, fui chegando cada vez mais perto das cabines. Via o que Leozinho, Edson Nunes e Mau Mau estavam fazendo. Foi uma época em que estava todo mundo começando, fazendo coisas diferentes. Uma vez, no Kiwi (Praia Brava), estavam reunidos todos os que hoje são grandes. O que a gente viveu não vai voltar mais, uma pena que essa geração não vai desfrutar disso.

Um amigo me ensinou a tocar e, em 2002, já ganhava meu dinheiro. O Conti (um dos sócios-proprietários do Warung) me viu tocar no Baturité (Balneário Camboriú), depois nos conhecemos e foi tudo muito rápido. Em 2005, fui convidada para ser residente no Warung. Meses depois o clube já foi eleito o terceiro melhor do mundo. Muita coisa aconteceu para o Warung e isso nos impulsionou também. Comecei a tocar no Brasil todo.

Aninha no Warung, no começo da carreira. Foto: Ricardo Lin

O que mais a atrai na cultura da pista?

Essa coisa de que nunca vai ser igual. Não é como o rock, que tem os hits e sempre permanece o clássico. A cada cinco anos tem uma grande virada. Antes tinha apenas house, techno, trance e drum and bass. Hoje as vertentes se ramificaram. Sempre tem uma coisa nova, porque todo mundo tem acesso à produção e à tecnologia, que antes só existia nos estúdios.

E tem a mudança do comportamento do ser humano. A forma como a música chega até a pessoa. Hoje tem muita mídia envolvida e a gente tenta se adaptar de todas as formas. Antes, DJ tinha que mandar revelar foto e só ouvia música depois da meia-noite por causa da internet discada. A gente comprava disco ligando para as lojas, que colocavam para tocar pelo telefone para a gente ouvir. Acabava comprando muita porcaria, porque não tinha referência.

Tem algum clube que você já tocou que nunca tinha imaginado tocar? E onde ainda tem vontade?

DC-10 (Ibiza). Nunca imaginava na vida que iria tocar lá. No começo, o Warung e o D-Edge também. E têm vários lugares no Brasil que tenho vontade de tocar. O coletivo Gop Tun, o festival Dekmantel (que rolou nos dias 3 e 4 de março, em São Paulo), e festas independentes como Mamba Negra e Capslock.

Você ficou conhecida pelos sets de warm up. O que você mais gosta no processo de “esquentar” a pista?

O que mais gosto é essa sutileza das músicas. Tento fazer com que não sejam tão estridentes, e passar quase despercebida nessa parte de barulho e agressividade do som. Acabei me destacando com isso. Como eu abria para muitos DJs internacionais, procurava ter esse respeito, tinha esse cuidado para que ele se sentisse bem ao chegar. Tentava deixar o mais próximo do que ele costumava tocar para ele ficar à vontade. Nisso, as pessoas confiaram muito em mim para desempenhar esse papel. Virou meio que uma doutrina.

Escute um set de Aninha para o Warung:

Hoje a música eletrônica está mais profissional. Mas o que ainda falta?

Falta espírito coletivo. Vejo clubes de uma mesma cidade pequena se matando. Tem que deixar o ego de lado, deixar que os artistas locais toquem e desenvolvam o próprio trabalho. E também falta apoio e financiamento para empresas que estão começando. A música gera emprego, mas se você chega num banco e fala que quer fazer uma festa de música eletrônica ou montar um estúdio, só vai rolar se você tiver grana, porque se chegar do zero vai ser negado. E em outros países isso é normal, milhões são investidos em festivais. Há muito preconceito contra a música eletrônica. É preciso diminuir impostos e tarifas, facilitar os alvarás, incentivar essa cultura. O que fez com que parássemos de tocar em vinil, por exemplo, foram as taxas alfandegárias que tornam tudo caro. É absurdo.

Um noite memorável na sua carreira?

São várias. Quando toquei no Skol Beats (São Paulo, em 2006), não conseguia nem apertar o botão de tão nervosa. Fui uma das poucas do Sul a tocar. No Warung também, nas vezes em que toquei com os artistas de quem eu era fã, como Luciano, Ricardo Villalobos, Laurent Garnier. E tocar fora também. No Watergate foi muito legal, sempre quis tocar em Berlim. No meio da noite, a pista de cima abriu mas o pessoal não subiu (em 2017, ela tocou com Eli Wasa por lá).

Há algo em comum nas pistas no mundo?

A música deixa todo mundo igual. Se está todo mundo gostando, não tem diferença de raça, gênero, cultura, economia. Todo mundo está na mesma vibração. O ódio, por exemplo, também deixa todo mundo igual. Mas a música é o que faz isso da forma mais bonita.

 

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