Bela Gil: “Comer é uma ferramenta poderosa para mudar muitas coisas”

Bela Gil lançou seu novo livro em Florianópolis. Foto: Diórgenes Pandini

Por Karine Wenzel

Churrasco de melancia, escovação de dentes com cúrcuma e vitamina de placenta. A lista de receitas e hábitos que ganharam fama graças à chef de cozinha natural Bela Gil não para de crescer. A repercussão é tanta que a apresentadora do canal GNT inspira boa parte dos memes que circulam pela internet. Ao propor trocar tal ingrediente por outro mais saudável, a baiana de 30 anos é ativista na luta por uma alimentação natural e pela sustentabilidade.

Filha de Flora e Gilberto Gil, Bela encara a escolha dos ingredientes como um ato político e acredita no processo de democratização do acesso à comida saudável, ainda tão cara. Para que isso aconteça, a ações devem ultrapassar os limites da cozinha. Precisa começar com a divisão de terras e com reforma agrária, defende a chef.

Mãe de Flor, de nove anos, e Nino, de quase dois, Bela agora resolveu se embrenhar em um novo caminho, o da maternidade. Ela lançou recentemente o livro Bela Maternidade – Meu Jeito Simples e Natural de Ser Mãe (Editora Sextante). No volume de 256 páginas, Bela questiona a existência de modismos na criação dos filhos, mas garante que não quer converter ninguém. Avessa a rótulos, a chef defende a valorização da intuição na maternidade. Ela acredita que deve haver menos cobrança e que as mães devem “se libertar desse ego de criar o filho perfeito”, o que julga fundamental para que esse período seja mais leve. A obra aborda ainda as diferenças entre os dois filhos dela – Flor nasceu através de um parto hospitalar, Nino, domiciliar; a menina dormia no berço, ele, na cama dos pais – e traz entrevistas com profissionais de várias especialidades, como nutrição e pediatria. Além, é claro, de receitas. São 30 sugestões para o primeiro ano da maternidade, tanto para mãe quanto para a criança. Tem inclusive a famosa receita da vitamina com placenta, banana e frutas vermelhas que a família toda provou após o nascimento de Nino em Nova York.

A chef veio a Florianópolis neste mês para lançar o livro e conversou com a Versar. Ela garante que se diverte com os memes e vê neles um potencial para promover o debate sobre alimentação saudável. Também falou sobre a importância da rede de apoio para as mães, como educa a Flor para aprender a dizer não e qual ingrediente da região Sul costuma usar em suas receitas. Confira:

Como democratizar o acesso à alimentação saudável, que ainda é muito restrita?

Eu acho que é um caminho longo, mas urgente, então a gente precisa começar a resolver isso. Eu acho o caminho é através de políticas públicas e uma conscientização do consumidor em procurar alimentos orgânicos, mais saudáveis. Quem tem essa oportunidade de comprar alimentos orgânicos que faça isso, porque aumentando a demanda a gente consegue diminuir os preços, fazendo com que orgânicos se tornem mais populares. E dentro das políticas públicas, a reforma agrária é uma prioridade para que a gente tenha uma repartição mais justa de terra, que mais gente tenha acesso e plante produtos orgânicos. E acabe com esse monopólio dos latifúndios e da monocultura do Brasil. Além disso, acho que a gente precisa de políticas públicas que incentivem a agroecologia, mudar a forma como a gente produz e distribui alimentos. Porque como está, o Brasil ainda vai permanecer no mapa da fome.

Neste contexto, qual o significado de escolher um alimento?

Escolher um alimento é um ato político, porque entender o impacto que o alimento que você está consumindo tem no meio ambiente, na sociedade, na sua saúde, isso é ser político. Não tem como separar uma coisa da outra. Inclusive viver ou qualquer coisa que a gente faz, escolhe, é um ato político. A gente come três vezes ao dia, isso é uma ferramenta poderosa para mudar muitas coisas. Eu incentivo as pessoas a olharem o ato de se alimentar como um ato político para que a gente consiga essas mudanças todas. A informação e conhecimento são fundamentais para que as pessoas consigam fazer escolhas melhores em relação à alimentação. Então acho imprescindível as pessoas correrem atrás de informação e buscar conhecimento para fazer essas escolhas.

Mas teria dicas para começar a aderir a uma alimentação mais saudável?

Muita gente olha a alimentação saudável como uma alimentação mais complicada, menos prática, mais cara e muitas vezes não muito gostosa. Mas eu acredito que dá para a gente comer bem se colocarmos isso como prioridade na nossa vida. Então, por exemplo um estudante que não tenha tanto dinheiro, em vez de gastar com outras coisas supérfluas, está na rua procura um self-service para comer arroz, feijão e legumes. Não é muito caro e super saudável, às vezes mais barato que um sanduíche em uma rede de fast food. A gente precisa entender o que é comida saudável e que não é algo super mirabolante. São escolhas que a gente pode fazer quando a gente deseja. O mais importante é o desejo de querer ser mais saudável.

Tem algum ingrediente catarinense que costuma usar nas suas receitas?

Eu uso muitos alimentos do Brasil todo, mas principalmente do Norte e Nordeste, porque são lugares que vou com muita frequência e trago muitas coisas. Eu sou baiana e tenho um pezinho lá. Aqui do Sul não uso muitas coisas, mas, por exemplo, o pinhão eu uso bastante. Vocês têm uma culinária muito baseada em peixes e frutos do mar, que já não é o meu forte (risos).

Assista à entrevista:

E seus filhos, qual a relação deles com a alimentação saudável?

A Flor é super da cozinha. Ela adora fazer biscoitinho, bolo, pão. Às vezes ela se vira na cozinha, porque eu não estou afim de cozinhar e eu falo “ah filha, vai lá fazer a sua comida” e ela vai e faz. Então ela gosta muito. Ela foi vegetariana até os três anos – em casa a gente tem uma dieta basicamente vegetariana, não entra animal em casa. Doces e besteiras são super restritos. Mas ela leva uma vida normal no dia a dia. Ela vai numa festa de aniversário, ela come brigadeiro e bolo. Não existem proibições, mas existe, sim, uma disciplina para ela entender o que é comida de verdade e o que é besteira.

Quais são os maiores desafios da maternidade?

Em primeiro lugar há uma competição muito grande entre as mães em relação à educação dos filhos. Eu escrevi esse livro para tranquilizar as mães e mostrar que cada indivíduo é um, cada mulher é uma. É muito importante que a gente respeite as escolhas de cada uma das mães. Além de unir essa comunidade de mães, pais e educadores para não polarizar tanto as opiniões, porque isso acaba complicando muito a maternidade, culpando as mães de certos hábitos e escolhas. Ser mãe deveria significar uma empatia maior, não só com seu próprio filho, porque isso é um dos maiores aprendizados, mas que vá além da relação mãe e filho, e chegue a toda comunidade.

Mas ainda há muita cobrança para que as mães sejam perfeitas…

Exatamente. Não existe filho perfeito. A gente se desprender, se libertar desse ego de criar o filho perfeito é muito importante para ter uma maternidade mais leve, mais saudável tanto para a mãe quanto para o filho. Eu acredito muito no modo natural de ser mãe. Não só em escolhas menos industrializadas e mais em harmonia com a terra, mas mais natural no sentido de sentir um pouco a sua intuição, o que vem de dentro. A partir do que estudou, se informou, conheceu, a mãe deve se perguntar “agora com tudo isso que eu tenho, o que é natural, verdadeiro, importante para mim?”. E fazer isso sem se preocupar com julgamentos ou estilos de olhar a maternidade.

É possível equilibrar, com leveza, a maternidade e o trabalho?

É possível, mas cada vez tenho mais certeza que só é possível com a ajuda de uma rede de apoio. Sozinha fica muito difícil cuidar de uma criança. Eu digo sozinha, não só mãe solteira, mas uma mãe que não tenha apoio da sociedade. Que não tenha escola, que não tenha um trabalho que permita a ela amamentar, que dê suporte. Criar uma criança é muito difícil, mas se torna muito leve, muito mais prazeroso, quando tem outras mãos para te socorrer quando você precisa. Só é possível conciliar maternidade e carreira com essa rede de apoio, que sejam vizinhos ou família. Eu estou aqui e meus filhos estão com a minha cunhada. Às vezes eu viajo e eles ficam com a minha mãe, meus sogros. É muito importante ter esse acolhimento da sociedade.

Como é educar uma menina e um menino em uma sociedade que ainda é tão machista?

O mais importante é a gente criar seres humanos. Eu tive um filho do sexo masculino e uma do feminino, mas se eles vão ser homem ou mulher são eles que vão decidir. Não cabe a mim dizer “você vai ser menino e você, menina”. Cabe muito a eles a questão do gênero. Eu acho que é de pequeno que a gente recebe valores que a gente leva para a vida inteira. É muito mais difícil re-educar adulto, mudar um pensamento de uma pessoa que viveu a vida inteira com aquilo martelado na cabeça. Então eu ensino a Flor que “o corpo dela, as regras dela”. Isso é muito importante para que ela tenha confiança em si mesma, para ela entender o que pode vir a ser um abuso, o que pode ser vir a ser algo que muitas vezes a gente, pelo menos a minha geração, via como algo normal, que tinha que aceitar, mas não. Eu crio ela para ter o direito de não gostar de algo. Não gostar da maneira como alguém se referiu a ela, como alguém a tocou. É esse o caminho.

Bela Gil e os pequenos. Foto: Anna Fischer

O que acha dos memes inspirados em você?

Eu adoro! Acho os memes super divertidos e uma forma divertida de levar um assunto que muitas vezes não é prioridade, que não é de interesse de muitas pessoas, para todos. É uma forma de popularizar a alimentação saudável de uma maneira super divertida.

E os debates na internet sobre churrasco de melancia ou consumo de placenta?

Acho muito importante, até porque muitas mulheres que talvez desconhecessem essa prática de consumo de placenta, podem achar interessantes e se beneficiar disso. É uma forma de levar conhecimento para certas pessoas. Não atinge as pessoas da mesma maneira. Tem gente que olha e já rejeita, acha absurdo. Tem pessoas que são mais curiosas e já vão atrás e percebem que é uma prática comum em muitos lugares, principalmente nas circunstâncias que eu tive o Nino, que foi um parto domiciliar.

Você esteve no acampamento de apoio ao Lula. O que você acha da prisão dele?

Bom, eu acho que a gente está numa democracia e é uma prisão que vai contra a democracia. Eu sou a favor da democracia, então…(risos).

 

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