“Dá pra fazer um humor crítico sem ser xenófobo ou homofóbico”, diz Caito Mainier, do Choque de Cultura

Caito Mainier na Campus Party - Amanda Toni, divulgação

Foto: Youtube, Reprodução

Enquanto conversávamos, Caito Mainier, 40 anos, não imaginava que naquele mesmo dia passaria um bom tempo fazendo fotos com fãs que enfrentaram uma hora na fila para encontrá-lo na Campus Party em São Paulo. O frenesi no maior evento de inovação e tecnologia do Brasil representa uma amostra do quanto o trabalho do roteirista de Niterói (RJ) agrada boa parte de uma geração. O nome de Caito, que também é ator e diretor, talvez passe batido por quem é menos afeito às novidades da internet, mas se você tem uma conta no Facebook ou no Twitter provavelmente já ouviu falar de Choque de Cultura.

O programa de cultura (com os maiores nomes do transporte alternativo) é um dos produtos mais bem-sucedidos que contam com a participação de Caito. Com episódios semanais de cerca de oito minutos de duração, o Choque de Cultura basicamente se resume em quatro personagens mezzo cariocas mezzo capixabas discutindo cinema. Na descrição do canal Omelete, os vídeos são definidos como “uma visão diferente e inusitada sobre cultura pop no Brasil e no mundo”.

Caito (Rogerinho do Ingá), Leandro Ramos (Julinho da Van), Daniel Furlan (Renan) e Raul Chequer (Maurílio) encarnam figuras inspiradas nos motoristas de van do Rio de Janeiro. Eles já comentaram películas famosas como Velozes e Furiosos (a franquia preferida do quarteto, claro), Animais Fantásticos (ou Harry Potter sem Harry Potter) e o cult 2001 – Uma Odisseia no Espaço (no qual todos dormiram em trechos diferentes). Tudo com a malandragem, bom humor, doses de indignação e de espontaneidade dos “pilotos” das ruas cariocas e de conhecidos dos atores.

Na segunda temporada, que estreou no fim de 2016, o programa cresceu assustadoramente. Na última semana, o número de visualizações do canal bateu a marca de 2 milhões de views após o episódio que debate se os filmes de super-heróis da Marvel superam os da DC ou vice-versa. Agora, os quatro se dividem entre painéis de eventos de cultura pop, entrevistas e outros projetos. Caito escreve roteiros e edita programas como o Falha de Cobertura, Lady Night, da atriz Tatá Werneck, Larica Total, do Canal Brasil, Irmão do Jorel, animação infanto-juvenil da Cartoon Network, e outras séries. Além disso, estará nos cinemas com três filmes este ano, um deles com Cauã Reymond. Nesta entrevista, ele conta um pouco da carreira e fala sobre humor produzido nos dias de hoje.

Você não é ator, certo?
Na verdade, eu sempre escrevi e trabalhava com educação também. Escrever também não era minha ocupação principal no início.

Como assim? Você dava aulas?
Dava aula em escola do Estado do Rio, no projeto Nave e numa empresa chamada Moleque de Ideias, que era em Niterói. Depois, com o tempo, comecei a escrever. Já tinha uns amigos que trabalhavam na área. E eu também fiz Comunicação na faculdade. Em 2015, terminou meu trabalho com educação. Já estava ficando difícil de conciliar e trabalhar com criança é muita “responsa”, né? Acabou que foi no momento certo. Em 2016, fui para São Paulo trabalhar e, no tempo livre, comecei a me dedicar mais aos projetos de roteiro. Estava escrevendo o Irmão do Jorel, o Show do Kibe, que era um talk show do Kibe Loco, e comecei O Último Programa do Mundo. Em setembro, me mudei em definitivo para São Paulo com a família e comecei a trabalhar na Floresta, que é uma produtora, e em janeiro de 2017 comecei a entrar no projeto de criar o Lady Night.

E como você foi parar na frente das câmeras?
Essa coisa de ir pra frente da TV foi culpa do (Daniel) Furlan. Quando terminou o Larica Total, em 2013, a gente já estava querendo novos ares. Eu e o Furlan estávamos mais próximos quando editei uma série da MTV chamada Overdose, da qual ele era protagonista. Foi quando pensamos na possibilidade de eu atuar. No final do contrato da MTV com a Abril, eles passaram a fazer programas ao vivo porque era mais fácil. Foi quando fizeram um debate esportivo sobre a Copa das Confederações e Furlan me chamou para participar. E eu fui, sob protestos (risos). Mas disse que queria criar um personagem. Criei o Cerginho do Falha de Cobertura, depois participei do Último Programa do Mundo, na MTV.

Como iniciou o Choque de Cultura?
O pessoal do Omelete (site de cultura pop) já conhecia o Falha de Cobertura e sugeriu fazer um sobre o cinema. A gente pensou que era possível, mas decidimos criar uma parada nova. Aí resgatamos a ideia do Julinho da Van. O Fernando (Fraiha), o diretor, colocou a pilha do Maurílio ser o contraponto da história. O Maurílio é o cara que entende mais de cinema, o que traz mais informação, embora seja meio maluco. Entre o primeiro, gravado em outubro de 2015, os personagens evoluíram e agora eles têm histórias pregressas e paralelas. Acabou que os personagens foram ganhando mais corpo. É uma série que tem cinema, tem humor, fala da van, tem a pegada da ilegalidade de uma forma divertida, mas ao mesmo tempo é uma crítica. A gente também toca em determinados assuntos, temos noção de onde estamos vivendo e queremos provocar o debate. Mas a gente também já suprimiu coisas porque achou que estavam pesadas. Tomamos esse cuidado.

Por que vocês fizeram o Choque de Cultura com personagens baseados especificamente nos “pilotos” do transporte alternativo do Rio?
O transporte alternativo traz uma série de referências, histórias e piadas que podemos fazer. Poderia ser com qualquer tipo de figura que tenha o contato com o público frequente, como porteiro, garçom, cobrador. Todo mundo sabe como é motorista de ônibus, né? E tem essa brincadeira com a informalidade, tem umas piadas absurdas. O fato de ser motorista de van foi porque o Leandro Ramos teve a ideia de fazer o Julinho da Van Talk Show, que seria o Manhattan Connection dos motoristas de van. Fizemos o piloto em 2010. Está no Youtube. A gente gostava muito de ver a TV comunitária, aqueles caras que fazem programas regionais. Esses programas têm uma pegada com menos recurso, um cenário meio mambembe, o apresentador, em geral, não é um bom comunicador, não é articulado. E como a gente andava muito de van, conhecia esse ambiente. A ideia era brincar com o código do programa de TV. Era ‘como seria um programa com os motoristas de van?’. Por isso tem essa linguagem.

Teve uma discussão no Twitter sobre a forma de humor que o Choque de Cultura faz. Muitos classificam como humor “hétero”, que seria machista.
Esse caso específico, acho que não houve problematização. Vi as pessoas que falaram isso eram pessoas super legais, mas que não gostavam de Choque de Cultura. Disseram que era humor hétero, o que eu concordo. Os personagens têm o estereótipo do machão, mas o texto neutraliza isso. É fácil quem não conhece, vê uma vez ou outra identificar o estereótipo. Acho normal. Mas uma vez que isso deu uma repercussão, fiquei a fim de responder que tudo bem não gostar de Choque de Cultura, que as pessoas têm que parar de encher quem não gosta. Também não gosto de várias paradas e quero exercer meu direito de não gostar e de poder falar mal. Acho que tem que ter gente reclamando se a pessoa se sentir ofendida, sim. A gente tem que entender isso, ouvir e ver se houve má interpretação ou se mandamos mal mesmo. O humor que a gente faz hoje, tanto no Choque quanto no Irmão do Jorel, tem que ter responsabilidade de fazer algo legal. Dá pra fazer um humor que é maneiro, que é crítico, engraçado e que não vai ser xenófobo, homofóbico. A pessoa que vê um episódio isolado pode ver algum machismo. Estamos atentos, tentamos consertar.

A questão de estarem na internet, mudou a forma de fazer humor?
Não me pauto muito pelo que as pessoas dizem. Me interesso pelo que acharam depois de o programa sair. Quero ver se gostaram. Isso me dá satisfação. Muitas vezes as pessoas complementam, fazem suas próprias histórias. Mas na hora de escrever a gente faz muito o que a gente gosta. Não sei dizer o quanto somos influenciados pelas pessoas que a gente dialoga na internet.

Vocês sabem quem é o seu público?
Uma agência de propaganda nos mostrou que é o público mais velho. Entre 18 a 25 anos e muitos de 25 a 35 anos, não é necessariamente uma galera que está sempre no Youtube. Também tem muito youtuber que vê o Choque.

Tem um canal aqui em SC chamado Irmãos Miranda, que ficou conhecido pelas dublagens de filmes. Um deles se chama Rocky Crossfiteiro. Já viu?
Nunca vi, mas já ouvi falar do Rocky Crossfiteiro. Sou o pior para ver pra ver coisa. Às vezes vejo série. O último filme que fui ao cinema foi Kong com a criançada (risos). Vejo mais futebol e só.

Você disse que quase não vê nada, mas quais são as suas indicações de filmes e séries, suas referências?
As minhas referências são as mais básicas. São Monty Pynthon, TV Pirata, Calvin e Haroldo. Gary Larson, cartunista. Alguns amigos, como Arnaldo Branco, Laerte, Adão e André Dahmer, do Malvados. E Seinfield, como série de humor. Gosto de filmes nonsense clássico como Top Secret, Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu, o primeiro da Pantera Cor de Rosa. As minhas referências principais são programas como Serginho Total, de Niterói. Muita gente diz que a gente tem referência a Hermes e Renato, mas eu vi muita pouca coisa deles. Acho eles incríveis. As pessoas podem ver semelhança visual ou pelos temas, mas a nossa referência são os programas toscos de TV, programas verdadeiros. Também tenho referência de amigos da minha rua. Eu brincava na rua e conhecia muita gente, jogava bola com o garçom, com os caras do morro. Isso te enriquece de histórias pessoais.

E quais são os próximos planos?
A gente vai fazer a live do Oscar, mas vai ser diferente. Vai ser completamente fora dos padrões. A temporada de Choque de Cultura acaba na semana do Oscar. Depois só gravamos em setembro. Vai ter o Lady Night, a segunda temporada. Furlan tá fazendo série da Netflix. Ah! E minha filha nasce em maio, isso vai tomar um tempo (risos).

Caito (Rogerinho do Ingá), Raul Chequer (Maurílio dos Anjos), Daniel Furlan (Renan) e Leandro Ramos (Julinho da Van) em entrevista na feira de cultura pop, onde uma plateia de 800 pessoas assistiu aos atores. Fotos Amanda Toni, divulgação
O Choque de Cultura começou com o vídeo Harry Potter Sem Harry Potter. Nesta semana, com o episódio Marvel vs DC, o canal foi um dos termos mais citados no Twitter mundial e bateu 2 milhões de visualizações. Youtube, reprodução
Os episódios vão ao ar às quintas-feiras no Youtube. Assim que são publicados, os fãs fazem prints das frases dos personagens. Acesse a coletânea de pérolas dos pilotos em clic.sc/ChoquedeCultura. Youtube, reprodução