Catarinense Carlos Trilha fala da experiência na Legião Urbana e com a música eletrônica

Neste fim de semana, Trilha volta à cidade em que nasceu e apresenta o Concerto nº1 para sintetizadores, em que compartilha o recém-lançado álbum Moogbeat – Nação Zumbi para Minimoog

carlos trilha
Fotos: Tiago Ghizoni/Diário Catarinense

Carlos Trilha é um dos músicos catarinenses mais bem-sucedidos no cenário nacional desde a década de 1990. Deixou Florianópolis para ir ao Rio de Janeiro depois de passar pela maior banda de rock catarinense na década de 1980, a Tubarão, com um conhecimento que, até então, poucos tinham no Brasil: a criação musical a partir do uso de sintetizadores e programação. Trilha foi ousado e precursor neste quesito, mas enfrentou algumas dificuldades. A primeira foi driblar a resistência a este tipo de som e abrir caminho no mercado. Os nomes com quem atuou de lá pra cá provam que ele conseguiu: foi tecladista e produtor da Legião Urbana e de Renato Russo, acompanhou Marisa Monte por mais de 15 anos, atuou com Léo Jaime, Erasmo Carlos, Gal Costa.

Neste fim de semana, Trilha volta à cidade em que nasceu com uma nova proposta e um som que une música autoral com releitura: ele apresenta o Concerto nº1 para sintetizadores, em que compartilha o recém-lançado álbum Moogbeat – Nação Zumbi para Minimoog, no Teatro da UFSC.

Inusitado? Essa talvez seja uma das palavras que melhor definem seu trabalho. Mas é muito mais amplo do que tirar música genuína de sintetizadores. Nesta entrevista, Trilha revisita sua trajetória e fala do processo criativo. E ainda adianta uma novidade para os catarinenses: vai produzir o novo álbum do Dazaranha, que começa a ser gravado em novembro.


Como foi tua trajetória na música a partir do momento que saiu de Florianópolis?

Quando eu fui para o Rio de Janeiro, acompanhar grandes artistas, esse meu lado da synthesizer music ficou de lado, porque ninguém mais aguentava sintetizador por causa dos anos 80. O trabalho era mais voltado a piano, órgão, os sintetizadores ficaram adormecidos até o começo dos anos 2000, com a profusão da musica eletrônica. É uma geração que não sofreu aquele fastio do sintetizador dos anos 80 e começou a olhar pra ele como um instrumento genuíno. Foi a época dos samplers. Então os sintetizadores viraram uma piada. Mas não é só um instrumento de imitação, é um instrumento genuíno que pode gerar sons que nenhum outro instrumento é capaz de fazer.

E apesar dessas variações no som, no instrumento, na música, você nunca parou. Como foi lidar com os altos e baixos no tipo de trabalho que se propõe a fazer?

Tem vários tipos de trabalho. Acompanhar artistas, eu sou produtor musical, engenheiro de som. Fui me interessando muito pelo universo do som. Tenho um estúdio no Rio de Janeiro que faz gravações muito bacanas. O interesse é muito amplo, o universo físico, eletrônico, o funcionamento das coisas. Estudei orquestração, fui desenvolvendo várias frentes. No final dos anos 90 fui percebendo nos meus amigos o interesse pelos meus teclados velhos. Desenvolvi o retrotech, viajei, fins alguns shows, mas é assim, uma parafernalha pra transportar, o custo é muito alto. Tem um dia de montagem no teatro, ontem (quinta-feira) passamos o dia montando, testando, hoje (sexta) ainda estou fazendo os últimos acertos. Tem equipamentos de 1972, 79, 85. Cada um desses instrumentos tem uma história não só comigo, mas também na música (Como exemplo, ele toca trechos de músicas de A-ha e Legião Urbana).

Que lembranças você guarda do tempo que tocou com a Legião Urbana?

Engraçado que eu toquei 15 anos com a Marisa Monte, mas ainda assim sou reconhecido pela Legião Urbana. Foi um divisor de águas trabalhar com o Renato. Me mudou como pessoa, como músico, a forma de ver a música. Ele era 10 anos mais velho que eu, um poço de cultura, e eu super ignorantezinho, jovem. Ele me dava livros, discos. Tinha uma coisa meio tutorial, meio de professor. Ele me ensinou a produzir discos, tinha métodos de trabalho.

E teu primeiro contato com ele, como foi?

Foi ensaiando com a Legião Urbana direto. Mas teve um bom contato musical de cara. Depois eu fiquei sabendo que ele aprendeu a tocar piano pelo mesmo método que eu, mas ele não desenvolveu muito como instrumentista. Mas eu via que ele tocava como eu tocava quando era criança. Eu tocava aqui antes com o grupo Tubarão, toquei rock, toquei com o Leo Jaime, sempre gostei de tocar simples, tinha boa memória, ainda tenho. Cheguei no ensaio da Legião sabendo todas as músicas, e como tinha esse conhecimento da síntese, quando eu ouvi os discos, pra aprender, eu já sabia.

Você também acompanhou Renato Russo solo. Era muito diferente de quando você tocou com a banda?

Pra mim era um Renato só, na verdade, eram uns quatro Renatos só (risos). Porque ele era bipolar, hoje em dia a gente sabe disso. Na época a gente dizia que era maluco, instável. Ele chegava cada dia de um jeito, era sempre uma surpresa. Mas ele me adorava, me tratava super bem, era super educado, nunca foi grosso. Só levei bronca uma vez, que eu puxei palma num show. Totalmente sem noção, né. A Legião super espartana, aquela coisa séria. Ele estranhou o público batendo palma, me falou pra parar. Mas foi a única bronca que recebi dele.

Você já trabalhou com Marisa Monte, com bandas de rock, com artistas como Jerry Adriani; qual foi o seu trabalho mais desafiador até o momento?

Produzir o Renato foi um desafio, é um evento na vida da pessoa. Cada turnê com a Marisa era um desafio diferente. Ela queria programação, mas não queira forma fixa. Precisou desenvolver uma técnica. Numa outra turnê tinha coisa que ela queria sincronizar. Na última ela queria cantar com ela mesma ao vivo, eu escrevi um programa pra ter a sequência e minha esposa fez a interface do software. Nos shows dela eu era responsável pela sincronização, eu tinha que estar sempre prestando atenção nela, se estava pronta ou não.

Como começou teu interesse pela música eletrônica?

Sempre gostei de máquinas. O sintetizador sempre foi meu brinquedo. Me dá um prazer como se eu tivesse jogando Atari, jogando no computador. Eu tenho facilidade pra entender o funcionamento das máquinas, e eu acompanhei a evolução delas. É mais fácil compreender do que alguém que tá iniciando agora. Pra mim foi muito fácil programar no computador.

Quando você começou e foi para o rio 30 anos trás, eram poucos músicos nessa área, não?

Exatamente. Talvez por isso eu tenha entrado com tanta facilidade no mercado. Eu cheguei no Rio crente que todo mundo sabia programação, mas não.

E mudou muito de lá pra cá?

Mudou bastante, não só a parte tecnológica, mas a estrutura do mercado em si, o posicionamento dos músicos. Hoje em dia são muito sindicalistas, menos ligados com a música. Não todos, obviamente. Tudo vai se organizando e nem sempre artisticamente a organização é o melhor caminho, porque às vezes fica muito burocrático. Quando você vai montar uma banda pra um projeto, você sabe quais são os músicos mais interessados na questão artística. São aqueles músicos que nem perguntam quanto é, como que vai ser. Eles querem fazer. E tem aqueles que só perguntam isso (quanto vão pagar). É obvio que tem que ter essa conversa, e logo no começo, mas tem essa diferença de postura. Anos atrás era um pouco mais romântico viver de música. Hoje em dia o menino faz um sol maior no violão e a mãe já fica apavorada achando que vai ser músico profissional. Porque a música perdeu essa função na sociedade, de agregar a família. Agora vejo sempre uma preocupação de logo aparecer. Sempre vale à pena investir na música, porque é boa pra memória, tira as ansiedades, é uma forma de distração, de entretenimento, e é muito boa para o desenvolvimento. É uma pena não ter aula de música nas escolas. Eu toquei na fanfarra, assim comecei.

Em SC você teve banda, mas também trabalhou com músicos catarinenses como Dazaranha e Tijuquera. Continua acompanhando a música feita no Estado?

Trabalhei com eles. São primos, inclusive o som era meio primo. Depois trabalhei com o Daza, e agora vou produzir o disco novo deles. Acompanho sempre. Acho a música feita em SC muito criativa. Conheço a galera do Daza, conheço o Marcinho que era do Tijuquera e ele sempre me conta o que tá acontecendo. Um ano fui jurado do Prêmio da Música Catarinense. Ouvi tudo, fiquei bem feliz com o resultado artístico dos trabalhos. Hoje em dia é mais fácil ter contato com a informação. Quando eu cheguei no Rio era muito distante. Mas o que é mais diferente é o próprio meio musical. No Rio de Janeiro se grava há mais de cem anos. Aqui se grava há 30.

Tem uma dificuldade para o músico catarinense conseguir expandir a música que faz aqui para o cenário nacional?

Sempre teve. No Rio e São Paulo se tem um pouco de preconceito com a música feita no Sul. É como se a música feita aqui não fosse brasileira. Se você vai como profissional, se destaca. Um trabalho artístico daqui é difícil, sempre é visto como “os caras de lá”. É como se não tivesse cultura. A gente sabe que tem. É outro tipo de coisa. A música eletrônica feita aqui é muito boa, o rock feito aqui é muito bom.

Você incentiva os músicos catarinenses a saírem daqui e irem para esses grandes centros em busca de espaço neste mercado?

Não mais. Hoje em dia não precisa. Antes era necessário. Eu com 17 anos tocava com o Tubarão, que era a maior banda, tocava no maior estúdio, não tinha mais pra onde expandir aqui. Tinha aquela coisa de querer ir pra cidade grande, para o Rio de Janeiro. Hoje em dia não tem mais, ninguém mais quer ir pra lá. Eu não iria. Tentaria desenvolver minha música e divulgar a partir daqui mesmo, porque com a internet pode conseguir. O que faz falta é que esses locais são mais desenvolvidos artisticamente, tem mais influências.

Tem diferença o trabalho que você vai apresentar aqui em Florianópolis para o trabalho feito acompanhando outros músicos ou produzindo?

Sim, esse é o meu trabalho, minha escola preferida. É o som que eu ouvia quando era criança e isso fica dentro de você pra sempre. Esse disco foi um desafio interessante porque eu criei usando só esse instrumento (minimoog). Eu quis brincar com as músicas da Nação Zumbi, o Pupillo (baterista da Nação) ouviu e ficou louco. Eu fiquei um ano e meio produzindo esse trabalho. Desenvolvi ele inteiro só nesse sintetizador, um instrumento raro. Tem poucas pessoas que sabem tirar som e tocar isso no Brasil. Comecei a usar outros teclados. Fiz várias montagens diferentes, nove ou 10. Nesse processo já compus um disco inteiro novo, ensaiei mais de 30 musicas diferentes, e desenvolvi esse repertório das músicas da Nação.

Como os músicos da Nação receberam?

Eles piraram. O Pupillo, baterista, ficou louco. “Trilhoso, tu é doido?”. Ele sabe o que significa, porque é um instrumento que faz um som de cada vez, não tem mídia, não tem nada. Não se comunica com computador, tem que tocar tudo na mão, bumbo, caixa, guitarras. Tudo que você ouve eu toquei num só instrumento.


Qual é o público que vai aos teus shows?

O repertório mais antigo são pessoas mais velhas que escutam, mas tem uma curiosidade da molecada quando vai no estúdio. Eu sinto que tem essa coisa antiga, esse hiato nos anos 90, e depois passou a surgir esse interesse novamente.

Quais são teus próximos passos?

Vou fazer um próximo disco de synthesizer music. Tô produzindo o disco novo do Pedro Baby, filho da Baby Consuelo e do Pepeu Gomes, que tem toda a influência dos Novos Baianos. Esse trabalho com a Nação também me deu muito contato com a música brasileira. Foi uma forma de fazer música brasileira sem colocar fruteira na cabeça. Foi uma coisa que eu fiz naturalmente e soa muito novo. Eu tenho algumas ideias para o futuro, mas por enquanto eu tô focado nessa vibe. E, aqui, o novo trabalho com a Daza. A gente começa a gravar em novembro.

Carlos Trilha apresenta Concerto nº1 para sintetizadores, para compartilhar o recém-lançado álbum Moogbeat – Nação Zumbi para Minimoog

Quando: dias 24, 25 e 26 de agosto – sexta e sábado às 21h e domingo às 20h
Onde: Teatro da UFSC (ao lado da Igrejinha), Praça Santos Dumont, Trindade, Florianópolis
Quanto: Ingressos a R$ 50 e R$ 25 (meia), via Sympla ou na bilheteria do teatro, que abre uma hora antes do início do show

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