Em Florianópolis, consultor criativo e editor de moda Giovanni Frasson fala sobre os 30 anos de trajetória na moda

Giovanni Frasson - Foto Reprodução

O nome de Giovanni Frasson está diretamente associado à história da moda no País. Ex-modelo, consultor criativo, stylist, produtor de moda e editor icônico da Vogue, principal publicação  no Brasil especializada no universo fashion, acumula um currículo extenso em 30 anos de carreira. Hoje, Frasson atua como consultor criativo da clássica Forum e estará em um evento da marca em Florianópolis nesta quinta-feira, do qual participarão também as atrizes Fernanda Paes Leme e Bruna Linzmeyer.

Com fala calma e tranquila, Frasson prende atenção pelas histórias que gosta de contar e revela em cada uma delas como construiu sua trajetória. Seu acervo inclui trabalhos ao lado de Gisele Bündchen, Luiza Brunet, Xuxa, Costanza Pascolato, Regina Guerreiro, Naomi Campbell, Karl Lagerfeld e outros nomes da moda brasileira e internacional.

Dá pra dizer com certeza que ele assistiu a consolidação de um mercado, a profissionalização da área no País e a construção de ícones. Tantos eventos renderam o livro Dez Mil Novecentos e Cinquenta Dias de Moda com mais de 600 fotografias (selecionadas de um arquivo de 15 mil imagens) de editoriais dos quais Frasson coordenou como produtor nas revistas Nova e Vogue. A curadoria é de Alexandra von Bismarck e textos de Silvia Rogar e Antonia Petta.

Consultor criativo Giovanni Frasson e o estilista Bruno Delfino, da Forum – Foto divulgação

Início da carreira

Escolher os looks, selecionar modelos, carregar araras, passar roupa, todas estas tarefas estavam associadas ao trabalho nos bastidores nas décadas de 80 e 90, muito diferente de como é hoje quando há diferentes profissionais para realizar cada etapa do processo. Antes disso, teve uma breve passagem pela passarela, onde aprendeu um pouco sobre como funcionava aquilo tudo e como era criado o glamour deste mercado de criação de sonhos.

Sua primeira produção publicada em revista é de 1985. A foto saiu na revista Nova na época que Frasson trabalhava como assistente de “publieditoriais” sob o comando da editora Akiko Davidoff. Ali deu início ao longo caminho que, no livro, aparece dividido por décadas até a capa da edição de dezembro de 2015 estrelada por Gisele Bündchen e Choupette, a gata de Lagerfeld.

Seu trabalho diferencia-se desde o início pela compreensão de todo o processo. “Giovanni pensa na foto, enquanto os outros estão pensando apenas na roupa. A foto é tudo aquilo que está na página da revista, indo além do look. Ele entende muito de fotografia — coisa rara”, resumiu o fotógrafo J.R. Duran em depoimento no livro.

Em entrevista por telefone, Frasson falou à Versar sobre o começo da carreira e o futuro da moda.

O início da carreira como modelo te fez perceber o trabalho como stylist de uma forma diferente?
Na verdade, antes de tudo, eu sempre fui muito curioso. Ia com a minha mãe ao cabeleireiro toda semana e acompanhava esse universo da feminilidade. Foi ali que comecei a me aproximar da moda e de todo o glamour que ela envolve. Meu pai, italiano, também era muito elegante, usava a camisa dentro da calça, cinto e andava muito alinhado. Esse conjunto de coisas ajudou muito. Depois de uns anos, um amigo que morava em Madri e trabalhava com estilo em uma marca precisava de alguém pra fazer manequim de moda e eu tinha as medidas. Foi assim que comecei a desfilei, já desfilei com a Xuxa, Luiza Brunet. Quando parei, esse mesmo amigo me indicou para trabalhar na revista Nova com uma editora de projetos especiais, que era a Akiko Davidoff. Começou ali, foi o primeiro trabalho que eu fiz.

Na década de 1980 a produção de moda era completamente diferente. Como foi esse início?
Sim, não tinha celular, tinha bip. A gente chamava maquiador por bip. E o produtor fazia tudo, até passava roupa. Hoje tem uma pessoa pra tudo isso. Quando tenho um assistente tento que ele passe por todo esse processo para que ele tenha um olhar muito maior sobre o todo. Essa experiência faz com que tenha mais tranquilidade de desenvolver o trabalho como diretor criativo. Quando o Alexandre Menegotti e o Arnaldo Sampaio me chamaram para trabalhar na Forum foi por esses 30 anos de carreira e por entender as características da moda. A marca é um ícone no Brasil e hoje tem mulheres como Laura Neiva e Bruna Linzmeyer como a cara da marca.

Editorial com Luiza Brunet – Foto Willy Biondani, Maureen Bisilliat e Gal Oppido, reprodução

Seu livro tem mais de 650 páginas que mostram um pouco dos seus 30 anos de carreira. Há alguma dessas histórias que te marcou mais?
Tem várias. São 150 depoimentos de pessoas que trabalharam comigo e eu quis mostrar tudo de peito aberto. Em 30 anos de carreira, tem muita coisa interessante. Algumas delas são perrengues, bem diferentes do glamour que as pessoas veem. Realizei os sonhos da Gisele (Bündchen) e da Luiza Brunet de fotografar na Amazônia, por exemplo. Também já fui fotografar no deserto do Saara e acabei preso em um hotel por mais de quatro dias. Com a Luiza foi muito interessante. Ela é metade índia e metade italiana, por isso, queria fotografar na Amazônia. Voamos por oito horas e, chegando lá, negociamos com um índio para nos levar de lancha até a locação. Só que era época de seca e o rio Andirá forma várias ilhas. Com isso, nosso guia se perdeu. Ficamos vagando de lancha até que o combustível acabou. Tivemos que dormir com coletes salva-vidas, com medo dos animais e sofrendo com o frio. No meio da noite escutei um barulho e vi uma luz. Era outro índio que veio nos buscar. A Luiza dormiu em uma cadeira e os botos ficavam batendo no barco. O glamour é só quando a foto já está na página da revista. O resto é ralação.

Hoje os editores de moda estão bem próximos do público com ajuda das redes sociais. Como isso tem influenciado a produção de revistas de moda?
Com certeza influencia, e isso não tem volta. O digital está aí. Penso que o Brasil é um pouco atípico no consumo de redes sociais. Se for ver, o País é o maior consumidor de Whatsapp. Hoje, olhar as redes sociais é quase um hábito como tomar um copo de água. Mas ao mesmo tempo que aproximam a moda de um consumidor final, fazem com que se perca um pouco do glamour. Moda é imagem, é vender um sonho. As mulheres veem as modelos e querem vestir o que elas vestem. A moda inspira as pessoas. As influencers, por exemplo, fazem com que o consumidor as vejam como uma irmã, alguém da família, mas é apenas uma pessoa com voz forte que está falando com as pessoas. Acho que as duas coisas existem, mas o digital não pode matar o glamour da moda.

Depois destes 30 anos e tantas mudanças qual é o futuro da moda?
Em 2000, falei em uma entrevista que naquela época a moda ia começar a partir para uma imagem de tribos, com gêneros diferentes. E essas tribos iam influenciar a moda. Isso ia durar uns 5 ou 6 anos, falei na época, mas que depois disso ia se individualizar mais. Cada um é cada um. As pessoas vão se juntar mais por ideologia do que por gosto musical, por exemplo. Hoje as pessoas estão raivosas e se juntando por isso, isso também está acontecendo. Além disso, algo que precisamos estar atentos é que tem pesquisas que mostram que imediatismo está acabando. Essa ideia de querer consumir o que vai estar na loja daqui a seis meses. A geração dos millenials está acabando no ano que vem e a nova geração só vai comprar coisas que façam sentido, que sejam ecologicamente corretas e sustentáveis. Hoje temos produtos tecnologicamente criados para parecer natural, mas a tendência é que isso mude. Que o feito à mão, o handmade, seja o produto principal.

Laura Neiva em campanha da coleção que Frasson atuou como consultor criativo – Foto divulgação

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