“Vejo a luta de mulheres, negros e pobres desde sempre, mas não vejo evolução”, diz Glória Maria

Glória
Glória Maria. Foto Zé Paulo Cardeal

Por Gustavo Foster/GaúchaZH

Glória Maria se acostumou a ser pioneira: mulher, negra e filha de uma família pobre de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, precisou de personalidade para ganhar espaço em uma grande emissora de TV do Brasil. É tida como a primeira pessoa a evocar a Lei Afonso Arinos, em um processo de discriminação racial.

A jornalista, que não revela a idade, está prestes a completar 50 anos de uma trajetória que consegue agregar entrevistas com grandes personagens, cobertura in loco de megaeventos e viagens para mais de 150 países – aliada à longa experiência como âncora de noticiários e um trabalho que, hoje, assemelha-se ao de uma documentarista. Tem uma carreira mais longa que o Globo Repórter, programa que completa, neste mês de abril, 45 anos e do qual é repórter especial. Nesta entrevista, fala sobre feminismo, racismo e a influência das redes sociais na política e no jornalismo.

O Globo Repórter comemora 45 anos em um momento de transformação nas comunicações e invasão das notícias falsas nas redes sociais. Como é trabalhar com a informação nesse cenário?

O Globo Repórter dura tanto porque é um programa que tem personalidade e se atualiza sempre. Temos condições de informar com profundidade em um contexto no qual a informação circula com muita rapidez. As pessoas não têm mais informação; têm uma enxurrada de coisas que não sabem de onde vêm. Nós viemos na contramão disso, e vamos ao encontro de uma necessidade das pessoas – necessidade de aprender, de conhecer, o que, com as informações consumidas no dia a dia, não acontece. Até um tempo atrás, o Globo Repórter era um programa que se sustentava por ser jornalístico, de notícia, de profundidade. Era um contraponto aos telejornais, que trazem informações mais rápidas. Agora, com tudo ainda mais corrido, a importância de aprofundar as questões cotidianas é maior.

A informação em profundidade adquiriu ainda mais valor…
A informação não perdeu valor e não vai perder nunca. O que ocorre é que, hoje, as pessoas estão sobrecarregadas de informações inúteis. Isso faz com que elas tentem se informar de uma maneira melhor, porque o que a gente tem aí, aos montes, é a antinotícia. O mundo de rede social é quase um mundo fictício, e agora as pessoas estão começando a perceber isso. A internet já chegou a ser sinônimo de verdade. Porque era onde havia mais informação. Agora estamos percebendo que não é bem assim. É por isso que os jornais e os outros veículos de mídia tradicional estão ganhando importância. Para quem quer se informar de verdade, quem não quer sair ferido deste mundo maluco em que a gente vive, é importante dar valor a informações reais, que vêm a partir da apuração em profundidade.

Você usa redes sociais?

A única coisa que tenho é o Instagram, e sou eu que cuido do meu perfil pessoalmente. Não tenho Facebook nem Twitter. Vivo de notícia e de imagem, de foto. Então, o Instagram, para mim, é o espaço perfeito. Viajo pelo mundo, posto as fotos dos lugares que conheço, para onde estou viajando. Sem condição de ter mal-entendido. Botou lá, botou. É o espaço em que me sinto à vontade, confortável.

Facebook e Twitter não te dão esse conforto?

Acho que esse tipo de rede, hoje, é terra de ninguém. As pessoas entram para depositar ali suas frustrações e infelicidades. Não quero participar disso. Já bastam os meus problemas. Não quero ser alvo de ódio alheio, gratuito. Essas pessoas que se aproveitam do pretenso anonimato das redes sociais… Não me interessa conhecê-las, conviver com elas e tê-las como seguidoras. Prefiro ficar em uma área mais preservada.

Você já viajou para mais de 150 países. Com essa bagagem, como analisa a situação atual do Brasil?
O Brasil é um reflexo do que está acontecendo no mundo. Uma síntese. O mundo todo está assim, tomado por intolerância, raiva e principalmente desesperança. Quando você não acredita no outro como um igual a você, é porque você perdeu a esperança. A base da convivência em sociedade é perceber que seu semelhante é igual a você, em todas as diferenças que vocês têm. Quando você esquece isso, esquece o básico. E a gente acaba vivendo um momento como este que vivemos agora. Cada vez que visito um país mais de uma vez, vou percebendo as diferenças. O Marrocos, por exemplo: nas primeiras quatro vezes em que fui até lá, percorri todo o território sem problemas, sem precisar de segurança do governo. Agora, na última vez, em várias regiões, inclusive as que eu já tinha visitado, não podia ir mais. Porque estava tomado pelo Estado Islâmico. Ou seja, quando viajo, mais do que ver paisagens, percebo que o mundo e as pessoas estão mudando. Antes, era possível viajar descompromissadamente pelo mundo, fazendo o meu trabalho com segurança. Hoje, sair por aí é uma aventura que você não sabe como vai terminar. Isso independe de você estar na Síria ou em Paris. Você não sabe de onde vem o tiro. Vivemos em um mundo muito mais inseguro, muito mais instável, e viajando você tem a possibilidade de perceber isso mais fortemente. Você vê a mudança gradativa. O que espero é que mude rápido. Porque do jeito que está não dá mais para a gente viver.

Parece um discurso bastante desesperançoso.

Me parece muito claro que o mundo está involuindo. Estamos voltando ao tempo da barbárie. Se você for ver o que acontece no mundo todo, inclusive no Rio, você vê que a gente está andando para trás. Algumas coisas que acontecem hoje são medievais. As pessoas se matam por nada. É complicado falar dessa mudança para quem, como eu, nasceu e cresceu no Rio, porque a violência e o tráfico de drogas parece que sempre existiram. Só que as pessoas estão mais tristes, mais desesperançosas. Porque não têm apoio do poder público. Após tanta violência, perdemos a esperança. E, quando acontece isso, a amargura e o ódio crescem. O que a gente está vendo é o resultado do descaso do Estado de maneira geral. Isso no mundo todo. Os grupos terroristas nascem da intolerância e da insatisfação, alimentam-se disso. A coisa mais difícil, hoje, é ver um país em paz. O terrorismo já chegou inclusive a Suíça, Noruega, Suécia…

O que está acontecendo no Rio de Janeiro, que acaba de passar por uma intervenção federal e viu a execução de uma vereadora ativista dos direitos humanos, Marielle Franco, é resultado dessa situação de ódio e desesperança consequentes da desassistência do Estado?

Acho que sim. A história da Marielle é uma consequência de tudo isso que a gente vive. Ela é vítima da guerra política, que vem da intolerância e do descaso. Não dá para você separar as coisas. De algum modo, tudo o que está acontecendo é resultado de uma desesperança generalizada.

Mas há mudanças para melhor. A internet, por exemplo, ajudou minorias a serem mais ouvidas.

Sim, mas acho que não houve evolução. Sou mulher, negra e de origem pobre, ou seja, vejo essa luta das minorias desde sempre. Não vejo evolução. Só mudanças para pior. Acho que qualquer discussão é válida, só que falamos de violência contra a mulher há muito tempo. O feminismo está fortemente estabelecido desde pelo menos os anos 1960, e mesmo assim tem de falar o tempo inteiro, repetir as coisas, para fazer as pessoas pensarem ao menos um pouco. Não existe novidade, só repetição. E não se evolui. A luta da mulher, na verdade, é muito mais antiga, veja o exemplo de Joana D’Arc. É claro que há novidades, armas novas, como as redes sociais e até a globalização. Mas ter mais canais não significa que há novidades realmente boas.

Como se pode de fato evoluir?

Com educação e informação. Como isso são metas que a gente só vai atingir a longo prazo, acho que essa discussão de gênero, de racismo, vai prosseguir por muito tempo. Ainda mais com esse radicalismo que está estabelecido no mundo todo. Enquanto houver pessoas com perfis radicais impondo-se nas discussões, não se pode mudar muita coisa.

Conquistas como, por exemplo, a criminalização das injúrias raciais, são fruto de forças particulares ou um contexto de luta social ao longo dos anos?

Não se conquista muita coisa individualmente. Quanto mais gente reunida, mais se é ouvido. Fui uma pioneira nessa luta contra o racismo, sim (em 1976, processou um hotel na zona sul do Rio ao sofrer preconceito, no que ficou conhecido como o primeiro caso de aplicação da Lei Afonso Arinos no Brasil), mas porque só havia a minha cara para dar tapa. Não havia outras. No fundo, era uma luta de todos os discriminados que são vítimas da intolerância. Era – e é – uma luta de todo o mundo. Há alguém ali, mas representando todos nós.

Como tem sido educar suas filhas neste contexto? Você recentemente levou-as para uma viagem pelo continente africano. Escolher justamente este roteiro foi uma forma que você encontrou de passar essa mensagem de luta para suas filhas?

Sim. Eu queria mostrar para ela de onde nós viemos, onde estão nossas raízes. Porque, no Brasil, a gente acaba vivendo em um mundo branco. Elas vão para a escola e são minoria, vão ao teatro e são minoria. É natural que estranhem. Então eu quis mostrar para elas a nossa história. Além disso, precisamos saber que há vida inteligente além de Paris, Londres, Nova York…

Como você faz para explicar para suas filhas essa desigualdade com a qual elas convivem?

A gente conversa muito. Elas têm uma mãe jornalista que vive no mundo real, vendo as transformações, convivendo com as diferenças. Sempre as preparei para situações de racismo, porque é algo que está aí. Minhas filhas sabem que existe racismo, que os nossos antepassados foram escravos. O que elas não entendem é por que existe uma diferença histórica tão gritante simplesmente por causa da cor da pele. Tento explicar para elas o que ninguém pôde me explicar na infância. Minha avó contava que a gente tinha que ser livre, que a coisa mais importante era a nossa liberdade, porque os nossos antepassados tinham sido escravos. Ela contava que o bisavô dela havia sido lançado nas matas de Minas Gerais. Dizia que, pelo amor de Deus, a gente nunca permitisse que voltasse a acontecer com a gente. Nos preparou para sermos livres.

Você recentemente compartilhou, no seu Instagram, uma frase creditada a Morgan Freeman que diz que “o dia em que pararmos de nos preocupar com consciência negra, amarela ou branca e nos preocuparmos com consciência humana, o racismo desaparece”. Houve reações negativas por parte da comunidade negra. Como você reagiu a esse episódio?

O que aconteceu ali foi mais uma consequência da leitura apressada por parte das pessoas. A frase é simples: diz que, quando você parar de se preocupar com consciência branca, negra, amarela e azul, vai se preocupar com a consciência humana, e aí é muito mais fácil ao menos tentar diminuir o racismo, porque você está pensando em gente, não em cor. Isso para mim é tão óbvio… Mas não significa que não deva existir o Dia da Consciência Negra, por exemplo, isso é outra coisa. Concordo 100% com o Morgan Freeman quando ele diz que a base de tudo é a gente mudar o nosso olhar. Quando a gente começar a olhar para gente, não para a cor, podemos começar a encontrar um caminho para acabar com a intolerância.

 Entre 2008 e 2010, você ficou fora da TV em um período sabático. Como foi?
Eu estava muito cansada. Trabalhava há 35 anos. Na época do Fantástico, era muito duro, porque apresentava junto com o Pedro Bial no domingo e, na segunda-feira, viajava para um país diferente. Voltava na sexta, ia para a ilha de edição, e ali ficava até domingo… Toda semana era assim, durante 10 anos. Chegou uma hora em que eu não tinha mais força. Falei: “Tenho que parar”. E, graças a Deus, a Globo reconheceu meu trabalho e me deu esses dois anos sabáticos. Eu queria ir para o mundo, mesmo, fazer trabalho voluntário, ver coisas que eu não via enquanto estava trabalhando. Fiz trabalho voluntário na Índia, na África, na Bahia… E também me diverti. Aproveitei os lugares nos quais era uma desconhecida, anônima. Fiquei dois meses na cidade mais pobre da Índia trabalhando com monges, mendigos e crianças. Na Bahia, conheci as minhas filhas.

É impressionante como sua vida pessoal causa curiosidade. Ainda assim, você consegue ser reservada. Como lida com a fama e a necessidade que as pessoas têm de saber da sua vida pessoal?

Para mim, é simples. Venho de um tempo em que não existia exposição de jornalista. Na TV, o repórter nem aparecia no vídeo. Essa coisa da fama nunca fez parte do meu show. Foco no trabalho! Acho que o segredo está em não ser uma personagem, mas simplesmente ser eu mesma.

Você não gosta de falar sua idade, nem sobre seus relacionamentos amorosos. Por quê?
Há coisas que não interessam. Mas nunca tive segredo sobre minha idade. Passei a vida inteira viajando, ou seja, mostrando documentos. Como vou esconder a idade? Não tem como. As pessoas precisam de um pouco de mistério para viver, então fizeram da minha idade um enigma, mas esse enigma não existe, é uma invenção. Todo mundo que me conhece sabe quantos anos eu tenho. A questão do casamento é a mesma coisa: casei uma vez, todo mundo sabe, e daí? Qual é o interesse? Sou uma jornalista, não uma estrela, de sair divulgando meu estado atual. Isso só interessa a mim. Se divulgar isso se transforma em algo importante na sua vida, você perde a sua personalidade, deixa de ser quem você é. E eu quero viver a minha vida, não a dos outros. Não vou ficar divulgando nada.