“A mulher negra é alvo de assédio, racismo, preconceito. Tudo precisa melhorar. O que mudou é que nós estamos mais unidas”, diz IZA

Cantora carioca IZA faz show gratuito em Florianópolis neste domingo (4). Foto: Pino Gomes

Aos 27 anos, a cantora carioca IZA é uma típica garota da geração que não tem medo de largar contracheques infelizes por sonhos e que sabe usar as redes sociais a seu favor – talvez o que a difira de muitos é a clara consciência do alcance daquilo que fala, escreve e é.

Madura, tem total noção da importância que a imagem dela tem para outras meninas e mulheres negras carentes de modelos que as ajudem a encarar o racismo e os demais preconceitos enraizados, referências que a própria IZA lamenta não ter tido na infância.

De família católica, Isabela Lima canta desde criança, mas começou a soltar a voz em público depois dos 14 anos, em eventos da igreja que frequentava com a família. A publicitária trabalhava em um coworking quando decidiu sair do emprego para ir atrás do que, segundo ela mesma, faria até graça. Foi quando ela se revelou pelo YouTube, onde começou a postar vídeos em que fazia covers e versões de músicas de outros artistas e bandas. O primeiro deles, publicado em setembro de 2014 com uma sequência de Flawless, da Beyoncé, e Rude Boy, da Rihanna, tem mais de 1,2 milhão de visualizações.

Depois de chamar a atenção de executivos da Warner Music, fechou com a gravadora e lançou canções como Quem Sabe Sou Eu e Te Pegar. No final de 2017, ela estourou com Pesadão, música em parceria com Marcelo Falcão que fala sobre representatividade, superação e negritude.

É pela importância de trazer temas como esses à tona que a coluna, que geralmente tem conversas com pessoas que se destacam em Santa Catarina, abre uma exceção neste fim de semana para uma entrevista com IZA, feita por telefone na última semana. É também um convite para o primeiro show que a cantora faz em Florianópolis, neste domingo (4). O evento é gratuito e ocorre no palco do projeto Floripa Tem, no Trapiche da Beira-mar Norte. Vamos?

Foto: Pino Gomes
Como foi esse processo de você se descobrir como cantora e decidir mostrar isso na rede social?

Foi de muita surpresa e de muita coragem. Sou formada em Publicidade, trabalhava com isso mas estava insatisfeita. Não me sentia feliz exercendo a função que eu tinha. Comecei a pensar qual era o meu dom. O que eu faria até de graça? E me veio à cabeça cantar. Eu tinha 25 anos e decidi largar tudo para fazer o canal no Youtube, pensando em criar uma base de fãs e também ocupar o meu tempo. Foi um período de muita descoberta e de muita aposta, tanto da minha parte quanto da minha família, que me apoiou. Eu precisava apostar as fichas nisso. Eu canto desde criança, sabia que gostava muito mas tinha inseguranças. Nunca tinha feito aulas de canto, por exemplo. Comecei a fazer preparação vocal só depois.

Você estourou um pouco depois daquela que foi chamada de geração tombamento, com artistas como Liniker e Karol Conka, que explodiram já há alguns anos. Você sente que isso preparou, de alguma forma, o terreno para você agora?

Isso com certeza me inspirou. Sou muito fã da Liniker e Karol Conka. São cantoras que me estimularam desde o início. E acho que ter existido essa chamada geração tombamento abriu caminhos para mim, sim. As pessoas cada vez mais ficam abertas a ver e ouvir coisas diferentes, gostam de pessoas com propósito e histórias. E é muito bom ver como elas estão dispostas a adquirirem novos sons.

Eu vi você falando em outra entrevista que, se tivesse a oportunidade, falaria para a IZA de 15 anos que ela é linda, que o cabelo dela é lindo. Como que rolou esse seu processo de autoestima e empoderamento?

Minha adolescência não foi um momento de muito autoconhecimento. Eu só queria me encaixar, me misturar. Foi com 21 anos, na faculdade, que comecei a entender que eu precisava me descobrir e ver como eu era. Comecei a achar louco que eu nunca tinha visto meu cabelo natural, por exemplo. Pensei: como eu passei tantos anos dessa forma? Decidi me conhecer, me dar essa chance.

E como isso ocorreu?

Comecei a ver vários grupos de meninas cacheadas e crespas que passavam pela transição capilar na internet. Li bastante coisa e achei super legal. Foi quando eu parei para pensar que já tinha passado da hora de eu fazer isso.

Comparando o ser mulher negra no Brasil hoje, e o ser mulher negra há 10 anos: o que mudou e o que precisa melhorar?

Tudo precisa melhorar. O que de fato melhorou é que nós mulheres estamos juntas. Agora, a gente se fala, se cumprimenta, se exalta, se protege. Agora a gente é um movimento. O feminismo negro sempre existiu, mas a gente tem falado mais sobre isso. A mulher negra é alvo de assédio, racismo, preconceito. Nesse sentido, tudo precisa melhorar. O que mudou é que nós estamos mais unidas.

Desde que você começou a ficar mais famosa, teve um momento em que você se deu conta da importância que tem para outras meninas e mulheres que se espelham em você?

Várias mães vêm me procurar dizendo que a filha resolveu parar de alisar o cabelo e colocar trança por minha causa. Crianças. Isso é muito bacana. Seria muito legal se, quando eu era mais nova, eu tivesse essa referência. Então esse reconhecimento é muito bacana.

Você tem bastantes fãs crianças e adolescentes?

Sim. É muito especial. Eles fazem vídeo de coreografia, imitam a roupa, o clipe, o penteado. Acho muito bonita essa relação.

Já sofreu assédio na vida profissional? Na vida pessoal nem pergunto porque é óbvio, né.

Na vida profissional, graças a Deus não. Já na vida pessoal, infelizmente todo dia, é só sair na rua.

Que mulheres, fora da música, te inspiram?

Taís Araújo, Glória Maria, Cris Vianna e Isabel Fillardis.

Vamos falar de carnaval? Você regravou Eu sou o Carnaval, com Moraes Moreira. Como foi?

É uma campanha para a Apple. Achei incrível essa oportunidade. Eu adoro o Moraes Moreira, ele é parte do nosso patrimônio cultural e musical. E eu sou apaixonada por carnaval. Conseguir juntar tudo nesse job foi incrível. Me senti muito honrada, principalmente por causa dessa música que é muito importante e ainda toca muito, principalmente no Nordeste.

Você está preparando algum lançamento?

Vou continuar trabalhar com Pesadão no Carnaval. As minhas novas músicas podem ser esperadas para depois.

Ouça Pesadão

Você vai representar uma mulher guerreira no desfile da Salgueiro. Você acabou de falar que gosta de carnaval, como é essa relação?

Eu sempre sonhei em desfilar na Sapucaí, mas nunca tive oportunidade. Eu amo carnaval, principalmente de rua. Costumava sair muito em bloco, e agora já não é mais possível. Mas tem vários aqui no Rio que eu sou superfã.

Dona de Mim vai ser o título do seu álbum? Me fala como foi essa escolha.

Todas as músicas falam de coisas diferentes, de partidas, relacionamentos, sexo, amor, autoestima. Todas reforçam isso, que eu sou dona de mim. Também é o título de uma das canções.

E como vai ser o repertório? Na vibe de Pesadão?

Tem muito trap, blues, rap, R&B, percussão brasileira, reggae. Está tudo misturado de uma forma bacana. Vai ser bem versátil, mostra várias versões de mim.

O que tem tocado no seu celular?

Eu estou viciada em Get You Alone, do Maejor, What Lovers Do, do Maroon 5… E Vai Malandra também estou ouvindo muito.

Não vai ter funk no seu álbum. Você gosta?

Gosto muito, faz parte da minha vida. Eu sou carioca da Zona Norte, então óbvio que todas as festas que eu ia tocava funk. Fico feliz de ver o funk crescendo cada vez mais.

Que coisas aconteceram com você nesses últimos tempos que você jamais imaginou que aconteceriam?

Um monte. Nunca imaginei cantar no Rock in Rio, com CeeLo Green. Ou cantar para o Gilberto Gil, em uma homenagem a ele no prêmio UBC, da União Brasileira de Compositores. Não pensei que eu fosse abrir o show do Coldplay, ou cantar com AlunaGeorge. Tem acontecido um monte de coisa doida. E que 2018 me encha de surpresas.

Vai ser a sua primeira vez em Floripa?

Sim. Estive doente e infelizmente não pude ir ao show do dia 20 (IZA iria se apresentar no Stage Music Park, mas o evento foi cancelado por motivos de saúde). Vai ser a minha primeira vez, e cantando.

O primeiro show do Floripa Tem foi do Emicida, um show gratuito na Beira-Mar Norte, e reuniu 15 mil pessoas. Foi legal ver uma galera que não costuma ocupar aquele espaço curtindo de graça. O que você está esperando desse show?

Acho isso ótimo, é muito bacana quando a gente tem eventos que são abertos ao público. Fico feliz de cantar dessa forma. Esses dias, no Rio, aconteceu um show assim e foi muito especial porque tinham muitas pessoas que geralmente não podem pagar para ver. E também muitas crianças, que não podem ir nas casas de shows. Fico muito feliz de saber que vai ser assim em Florianópolis.

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