Marcelo Falcão fala sobre disco solo e relação com bairro histórico de Florianópolis

Em abril, ele apresenta novo trabalho na Capital catarinense

Foto: Jacques Dequeker/Divulgação

O ano de 2019 será especial para Marcelo Falcão por diferentes motivos. O cantor celebra o nascimento do filho Tom, com a namorada Érica Bauchiglione. Profissionalmente, coloca na estrada o primeiro projeto solo, a turnê Viver – mais leve que o ar, que estreia em abril. No mesmo mês, o show chega a Florianópolis, no dia 19.
O álbum apresenta uma nova versão de Falcão, artista que, por 25 anos, esteve à frente de O Rappa.

Como foi a criação deste disco?

Eu vinha de uma história em que era o último do Rappa que ainda não tinha lançado um projeto só. O Yuka já tinha lançado um CD solo, o Lobato também. Eu era mais um tentáculo daquela família se mostrando só, mas na verdade eu gosto de jogar com aquele pensamento do Jorge Ben: “nunca nesse mundo se está sozinho”. Então eu contei com vários amigos para organizar a quantidade de material em que eu cheguei. Era tanto material que eu fiquei sem saber o que fazer. Eram 600 arquivos de música que eu precisava decupar. Fui para a Toca do Bandido, no Rio de Janeiro, que é um lugar sagrado pra mim e onde eu já gravei O silêncio que precede o esporro, com O Rappa. A viúva do Tom Capone abriu o estúdio, e eu pude perverter o lugar, levar mais equipamentos pra fazer ficar do jeito que eu achava que era certo. Encontrei com o Felipe Rodart, e enquanto eu terminava a turnê com O Rappa eu falei pra ele: “eu preciso que você separe aquele material que as letras estão mais prontas, com começo meio e fim”. Esse material virou umas 80 canções e depois 47. E daí eu separei essas 13, que são as que eu resolvi trabalhar. Dizem muito sobre o momento que eu tenho vivido. Estão relacionadas com a perda de pessoas que a gente ama. Eu ainda estou aprendendo a lidar com isso. Eu só conseguia ver o contrário das perdas, um mundo onde as pessoas estão cada vez mais deixando de viver, e sejam elas ricas ou pobres. As pessoas estão se perdendo nas picuinhas que a vida prega e deixando de entender o verdadeiro sentido que é viver. Então, nessa espinha dorsal, eu coloquei a canção Viver, que no início traz um trecho de e-mail que meu pai me mandou: “Viver, viver a vida que eu vivo. Às vezes com emoção. E outras vezes com perigo.” Eu olhei e pensei que eu sou exatamente isso, sempre na corda bamba do dia a dia, assim como a maioria dos brasileiros. Esse projeto é um desabafo. As pessoas estão perdendo amigos por divergências políticas, sociais, questões muito menores do que a história que é viver. Eu terminei a turnê com O Rappa e entrei de cabeça na Toca do Bandido, onde fiquei mais ou menos uns 11 meses, e aí nasceu meu primeiro filho: Viver.

O álbum traz muito dessa mensagem positiva, um pouco diferente da linha que você seguia no Rappa, em que contestava e batia de frente com algumas questões sociais. Ele é realmente um trabalho mais leve?

Ele é simplesmente o Marcelo, que era 25% de uma história de uma banda de respeito e que sempre buscou falar coisas para que houvesse mudanças. Não me lembro de nenhuma outra banda que quisesse falar desse contexto e colocar o dedo na ferida, e falou. Mas eu não quis fazer um disco para competir com O Rappa, eu quis fazer um trabalho para mostrar o Marcelo desses últimos anos, que tem lidado com as perdas e com a vida. Eu não faria um disco para competir ou ser igual. Se o cara gostou muito e gosta daquele Falcão que cantava no Rappa, eu fico muito feliz, mas eu queria oferecer algo novo. Minha maneira de ver o mundo sempre foi de botar o dedo na ferida e ajudar as pessoas, só que eu não estaria ajudando fazendo mais do mesmo, do que já está consagrado. Nunca foi essa intenção. Então essa foi a minha contribuição individual para que tenhamos mais um disco de desabafo e de leveza para que as pessoas possam refletir que viver é o meu mote maior. Tem a veia pop, reggae, rock, mas que seja eu, e não seja O Rappa. Conversando com o Mano Brow, eu falei: “Poxa, que maneiro, quando todo mundo achou que você ficaria mais pesado, você veio com um disco de amor da década de 70”. Acho que isso é o legal do artista. Se eu venho com a mesma parada, eu não estaria feliz. Estou fazendo o que meu coração pede para eu fazer agora.

Arriscar causou medo ou sua bagagem deu segurança?

Essa história de medo, musicalmente, não senti. Eu gosto de me organizar para fazer as coisas como elas devem ser feitas, então essa coisa de medo e preocupação eu nunca tive. Sabia que haveria as comparações normais. Minha ideia era fazer o que eu sinto. O que eu tenho vontade de cantar e fazer agora. Eu montei uma big band para que a gente possa reproduzir no palco o que as pessoas escutam no disco, com as loucuras que eu estou inventando para cenário e tudo mais. Medo de expor meu sentimento, jamais. Era necessário que as pessoas me conhecessem de uma forma diferente. E por que não fazer uma história que eu venho amadurecendo, que venho cuidando e fazendo com carinho? E que essa coisa possa ser divertida e dançante para alegrar as pessoas a tal ponto que elas possam sair de casa, assim como elas saíram um dia para ver O Rappa, pra ver um Marcelo Falcão diferente, mais íntimo, falando de coisas mais do coração. O meu amor é plural, então é um amor à música, um amor ao fã, ao meu filho que daqui uns dias estará
nascendo. O Falcão que as pessoas conheceram é um cara que existe dentro de mim, mas o Falcão de agora precisava fazer de coração o que ele queria. Eu brinco com o presidente da gravadora, que conhece o Paul Mccartney. O cara vai ouvir o disco do Paul, mas vai ter o tom saudoso dos Beatles. O Mano Brow vai tocar as novidades, mas vai ter aquele tom saudoso dos Racionais. Acho que uma mescla de você ser você é o que tenho pra brindar o público. Eu tenho essa bagagem.

Você sempre foi muito intenso em suas apresentações, interpretações e posicionamento no palco. Sendo esse trabalho uma entrega muito maior, como serão esses shows?

Terão dois momentos. Um que as pessoas já conhecem, que pode ser de uma forma mais bacana e diferente. No que eu sei que posso mudar, eu vou mudar. Mas eu preciso que as pessoas abram o coração pra ouvir músicas novas. Se nesse momento eu não estivesse lançando esse trabalho, certamente estaria lançando outro disco do Rappa. Então as pessoas ficam sempre ansiosas pra ouvir coisas novas, mesmo com aquele saudosismo. Eu precisava de um escritório que me desse suporte para isso, a gravadora que desse apoio e de uma equipe – e eu nunca deixaria minha equipe do Rappa na mão. Eu trouxe quem já trabalhava comigo, porque é uma família que já conhece meu jeito e minhas manias. A estreia sempre dá um frio na barriga. Seja com tudo ganho ou com os outros xingando a minha mãe (risos). Eu acho que existe um compromisso, que eu me permito sentir coisas que poucas pessoas vão sentir, então meu medo seria se eu não tivesse essa turma comigo. Vou ter um cenário que minha equipe foi buscar na China para que as pessoas se sintam vendo algo em 3D, confortáveis, e som e imagem em coisas relacionadas ao disco acontecendo de forma simultânea. Todo o aprendizado que eu tive no Rappa me auxiliou para construir esse trabalho. Eu não poderia deixar de apresentar para as pessoas o Marcelo Falcão que ainda é combativo, mas também tem um lado que quer se divertir um pouco mais. Não adianta ficar brigando ou levantando bandeiras que não são as suas. Eu levantei as bandeiras do Rappa, sociais, mas eu nunca me atrelei a nenhum partido político. Eu tenho minhas observações por não curtir essa política que é feita, e eu canto ela da maneira que eu acho que tem que ser cantada.

Com o nascimento do seu filho você irá diminuir o número de shows? Pensa em mudar sua rotina?

Eu tenho na minha cabeça fazer poucos e bons. Nos últimos seis anos com O Rappa, não importava mais tocar de terça a domingo. Minha intenção nunca foi ficar rico, mas sempre foi fazer shows. É mais ou menos isso que eu estou querendo oferecer. Fazer menos, mas fazer com mais qualidade. Essa coisa de fazer pra ganhar eu já fiz muito – e se precisar voltar a fazer, eu faço – mas hoje as minhas escolhas são pontuais. Eu mesmo escolho os locais, eu mesmo banco as histórias.

Você costuma vir para Santa Catarina?

Eu não saio do Ribeirão da Ilha, em Floripa (risos). O Jaime Barcelos, do restaurante Ostradamus, é meu amigo de muitos anos, então estou muito por aí. Eu sinto que tem um clima que é diferente de São Paulo, por exemplo, que é aquela coisa mais dureza. Vejo Floripa com esse conservadorismo, com sua própria cultura e sua própria historia, mas vejo uma leveza como no Rio, por ter o mar, que serve de alento. Ver o mar já dá um alívio tremendo. Eu sempre amei demais tocar por aí, e será uma oportunidade das pessoas que sempre curtiram meu trabalho com O Rappa conhecerem esse disco, que está lindo.

Serviço

Marcelo Falcão e Hungria
Quando: 19/4, 21h
Onde: Stage Music Park
(Rodovia Jornalista Maurício Sirotsky Sobrinho, 2.500, Jurerê, Florianópolis)
Quanto: A partir de R$ 44,80. Desconto de 30% para sócio do Clube NSC e acompanhante na compra do ingresso antecipado na loja Blueticket ou no local do evento.

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