Batemos um papo com o velejador catarinense Marcelo Gusmão

Foto: Leo Munhoz

Nascido à beira-mar de Jurerê, onde mora até hoje, Marcelo Gusmão foi criado dentro de um barco. O pai, Reny Reitz, foi comodoro (presidente) do Iate Clube de Santa Catarina, o Veleiros da Ilha, e desde cedo levou o filho para navegar. Hoje, aos 54 anos, o velejador coleciona títulos, em todas categorias de vela que competiu. Entre outros projetos, dedica-se atualmente ao Itajaí Sailing Team, equipe de vela da qual é comandante – a cidade do Litoral Norte, inclusive, é a primeira do Brasil a ter uma equipe para chamar de sua. Vez ou outra, ainda arranja um tempo para viagens pelo mundo a bordo de seu veleiro Moleque. Marcelo recebeu a Versar na última segunda-feira para um papo no Iate Clube, enquanto se preparava para ser o juiz principal da parada brasileira da Volvo Ocean Race, que ocorre em Itajaí até o dia 22 de abril. Confira a nossa conversa:

Como surgiu o interesse pela vela?

Desde muito novo, talvez até desde recém-nascido. Meu contato com o mar vem de cedo, meu pai levava a gente para andar de barco desde os primeiros dias de vida. E o contato direto com o mar, já velejando, começou ali pelos 10 anos. Os primeiros passos foram também com meu pai, em um veleiro de 42 pés. Essa é minha lembrança inicial de contato com a vela. Aos 16 já tinha um barco de Oceano de 22 pés.

Chegou a seguir outro caminho em algum momento da sua vida?

Tentei, de todas as maneiras na minha vida, ser um profissional da vela. Hoje eu sou. Aos 17 anos, montei uma loja de material náutico. Aos 18, montei uma veleria, uma fábrica de vela. Tudo isso para tentar viver de vela. Vivi dessa maneira até uns 30 e poucos anos, quando eu fui para as Olimpíadas de Atlanta (1996). Depois, eu achei que as coisas iam dar um passo diferente, que haveria um interesse um pouco maior da sociedade esportiva, não só por mim mas pelo esporte como um todo. Um pouco desiludido, fui trabalhar na iniciativa privada, em empresas da família de outra área, por oito anos. Mas não teve jeito. Voltei para a vela novamente e estou até hoje.

O que mais o pegou nesse mundo, que fez com que você se apaixonasse e continuasse apaixonado?

Aconteceu muita coisa. Cheguei a fabricar barcos, vela, fui importador de materiais. Existe um momento na vida do atleta velejador que ele consegue identificar se vai ser um atleta com habilidade suficiente para sustentar tudo isso, ou se vai ser somente um atleta comum, de fim de semana. E eu consegui ser um atleta completo, mas não consegui viver financeiramente da vela. Mas depois descobri, quando fui trabalhar na iniciativa privada, que aquilo realmente era minha vida e que eu não conseguia ficar longe do mar. Nesse momento, apareceu a vela de travessia. Comecei a fazer travessias, um pouco de aventura. Depois de uns seis anos disso, de idas até a Europa e para tudo que é lado, as pessoas começaram a me chamar de novo para o lado esportivo. Acabei voltando. Nunca larguei, na verdade, mas voltei com mais forças e estou aí até hoje.

Fotos: Leo Munhoz

Foi nessa época que você começou a ser juiz?

Na verdade, eu comecei a ser juiz em um momento em que trabalhei como técnico de alto nível para a Confederação Brasileira de Vela, para melhorar o índice técnico de atletas já formados. Aí, achei uma grande necessidade ver como os juízes viam os atletas. Comecei a pedir para ser chamado para trabalhar em alguns eventos. Me identifiquei com aquilo, achei diferente, as pessoas eram divertidas e aprimorei ainda mais meu conhecimento de regras e de condução das regatas. A própria classe de juízes no Brasil gostou muito de mim, começou a me chamar para trabalhar e acabei indo para esse lado, onde estou até hoje. Hoje faço algumas escolhas. Minha preferência é velejar e não ser juiz.

Com isso, em parceria com o Ricardo Navarro que é nosso representante da ISAF (Federação Internacional de Vela), conseguimos levantar o nível técnico da classe aqui em Santa Catarina. Hoje temos um corpo legal, com pessoas com currículo bastante extenso. Conseguimos fazer qualquer tipo de evento em Santa Catarina, com a quantidade de juízes que precisar. Inclusive, o grupo de juízes das Olimpíadas que teve o melhor desempenho foi aquele em que estavam todos os profissionais do Estado, inclusive eu.

E agora você é juiz da etapa da Volvo Ocean Race em Itajaí… 

A Volvo tem um corpo técnico muito legal. O juiz principal é o Bill O’Hara, altamente qualificado que tem um currículo exemplar. E ele é o juiz oficial da regata, de todas as etapas.  Mas a organização obriga que cada cidade-sede tenha um profissional local, no caso escolhido pela entidade máxima da vela brasileira, que represente o país, mas que tenha também um conhecimento da região onde vai ser a regata. A pessoa que tem mais conhecimento nessa região sou eu (risadas). Santa Catarina tem juízes tão bons quanto eu, talvez até melhores, mas como já trabalhamos juntos, ele me escolheu (Gusmão também foi juiz na primeira vez que a Volvo Ocean Race passou por Itajaí, em 2012).

Você acha que o evento tem atraído maior interesse para a vela?

Não tenho dúvidas. Isso é muito certo. Tenho uma ligação muito grande com Itajaí, e isso veio depois da Volvo. Alguns empresários e colegas da cidade, pessoas que tinham ligação com o mar mas não com a vela, se interessaram em difundir ainda mais o esporte na cidade depois da primeira edição. Eles precisavam de uma pessoa do meu perfil, com essa vontade de fomentar o esporte e uma característica de comandante, e me chamaram para participar do projeto Itajaí Sailing Team. Hoje nós temos um time. O projeto é liderado pelo Alexandre Santos, um cara muito ligado ao mar, que não era um grande velejador e hoje é e faz parte da equipe (Alexandre já foi diretor do Porto de Itajaí e presidiu a comissão organizadora da última parada da Volvo Ocean Race na cidade, em 2015). Nós começamos em 2015 com um barco alugado. Em 2016, já tínhamos um barco próprio. Esse projeto tem como principal objetivo formar velejadores para a vela de Oceano. Temos outras extensões, como para formar velejadores mirins, e projetos sociais de distribuição de material escolar.

Quando nós iniciamos, tínhamos 35% da tripulação de Itajaí. A ideia era competir no cenário nacional, na melhor categoria da vela de Oceano brasileira, então era uma coisa extremamente técnica. Precisava do apoio de velejadores mais experientes no começo. Foi um grande desafio. No primeiro ano fomos vice- -campeões brasileiro e no segundo fomos campeões da Copa do Brasil. Já no segundo ano, contávamos com mais de 50% da tripulação de velejadores de Itajaí, e hoje já são 70%. Temos um barco extremamente técnico, muito difícil de velejar. Hoje o projeto é muito bem visto em todo o Brasil. É um dos únicos barcos do mundo que leva o nome de uma cidade. Poucos barcos que vi em eventos importantes têm nomes de cidade, já que não existe essa tradição em nenhum lugar do mundo. Existe, mas não com esse objetivo que a gente tem, de divulgar o nome de Itajaí.

Barco da equipe Itajaí Sailing Team. Foto: Lucas Correia

Isso não deixa de ser uma herança da Volvo Ocean Race?

Justamente. Fica muito claro que os próprios empresários compraram essa ideia em função da
regata. Se não tivesse ocorrido a Volvo, teríamos mais dificuldade para ter sucesso com esse projeto. Nossos patrocinadores estão desde o primeiro dia com a gente, super felizes, e queremos que o projeto cresça ainda mais. Nossa ideia é que, no futuro, um barco tenha 100% da tripulação de Itajaí. Acho que quando a gente abrir mais braços, criar novas classes, vamos conseguir.

De todas essas travessias e viagens que você fez, tem alguma história que sempre relembra?

Uma parte legal de todas essas minhas aventuras foi quando eu velejei três anos solitário por toda a costa brasileira. A dedicação ao esporte era tão grande que eu acabava viajando para competições e não conhecia os lugares. Quando saí dessa parte de aventura, a primeira coisa que fiz foi isso: peguei o barco e fui conhecer todos esses lugares que eu não tinha conhecido direito. A comunidade, a cultura das cidades. Foi muito bonito, tive a oportunidade de visitar todo o
litoral do Brasil. E além dessa, fiz várias travessias, para a Europa, Caribe. E continuo fazendo. Minhas férias são todas velejando.

Na viagem pela costa brasileira, Marcelo distribuiu livros em comunidades carentes. Foto: Roberto Scola

Como é velejar sozinho?

O projeto de velejar sozinho foi também para entender porque muitos velejadores do mundo viajam sozinhos. Mas foram apenas três anos. Voltei algumas vezes para trabalhar, então não fiquei extremamente sozinho todo esse tempo. E depois daquilo eu passei a velejar com tripulação novamente. Hoje, minha vida todinha é ligada ao mar. Tudo que eu faço é dentro da
água. Minhas férias são dentro da água. Marco elas e vou até meu barco. Hoje ele está no Caribe. Passei 42 dias lá velejando, voltei em janeiro e depois da Volvo Ocean Race volto para velejar mais um pouco.

Existe alguma aptidão ou alguma coisa que alguém que tenha interesse em vela deva desenvolver?

Você não forma um velejador da noite para o dia. Dentro de toda a didática que montamos no Brasil para fomentar o esporte da vela nas cidades que são beiradas por mar, lagoa ou represa, a ideia é popularizar o esporte. Qualquer um pode aprender a velejar. É um esporte muito interessante pela ligação direta com a natureza, você acaba conduzindo um barco em função dela, do vento. Tem também a sensação de liberdade. Há uma série de fatores que contribuem para que você venha a ser e goste de ser velejador. Mas a parte de competição é como qualquer outro esporte. O sofrimento, treinamento, dedicação. É dolorido. Em alguns momentos tem que deixar a família e outras coisas de lado. Mas não há nenhum tipo de restrição. Eu mesmo tive um acidente quando era novo e perdi um bocado de dedos, mas continuei sem problemas. Eu tive o
prazer de ser juiz nas Paralimpíadas e conviver com atletas paralímpicos. Tinha gente com todos os tipos de deficiência participando, feliz da vida, velejando, sem problema algum.

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