“Nunca foi fácil fazer cinema no Brasil”, diz cineasta Sylvio Back

Figura mítica do cinema brasileiro, o cineasta catarinense Sylvio Back encerra as comemorações dos 80 anos com mostra na Cinemateca Brasileira. Foto: Frederico Mendes

A mostra que celebra os 80 anos do catarinense Sylvio Back, um dos mais prolíferos cineastas brasileiros, está em cartaz até este domingo na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Sylvio Back 8.0 – Filmes Noutra Margem, que estreou em Florianópolis em setembro, exibe 12 longas remasterizados de Back, que, apesar de ter vivido a maior parte da vida no Paraná e no Rio de Janeiro, tem uma obra conectada ao Sul do país. A seleção de longas-metragens da mostra, por exemplo, tem obras ligadas à história de Santa Catarina, como A Guerra dos PeladosAleluia, GretchenCruz e Sousa – O Poeta do Desterro e O Contestado – Restos Mortais.

Filho de imigrantes e nascido em Blumenau, Back é também poeta, roteirista, escritor e produtor, com 38 filmes e 25 livros lançados. Recebeu de Glauber Rocha o apelido de “Cacique do Sul”, alcunha recentemente atualizada para “Cacique do Brasil” por Cacá Diegues em correspondência com o também catarinense Zeca Pires, cineasta que assina o texto de abertura do catálogo da mostra. Por email, Sylvio Back bateu um papo comigo sobre as temáticas recorrentes em sua obra, o trabalho em prol dos direitos autorais, literatura e, claro, cinema. Boa leitura!

Em sua carreira, você tocou em feridas sociais e pautou-se por temáticas políticas. Como esses temas vêm sendo tratados pelo cinema brasileiro hoje?

Se fosse fazer filme sobre o fascinante momento político atual, seja doc, ficção ou mix de ambos (penso que caberia bem um docudrama), continuaria fiel ao cinema desideologizado com que venho carimbando minha obra desde os anos 1960. São fotogramas plenos de dúvidas, além de incrédulos sobre toda e qualquer utopia, à direita ou à esquerda, o que acabou contaminando os filmes por vir e do porvir! Em outras palavras, apostaria no dissenso, na discussão equidistante das paixões ora em cartaz, sem procurar fundar verdade alguma, nem levar o espectador pelas mãos. Mas fiel a mim mesmo, insubmisso a ideários servis e ao código narrativo de plantão. Ao contrário, faria nova obra aberta, isenta de palavras de ordem ideológica, política ou estética, entregando ao espectador a liberdade de decidir o que a tela evidenciar, sem induzi-lo a quimeras de poder ou a saídas fora do espectro do livre pensar e dentro das sagradas idiossincrasias de cada um.

Faço um cinema que desconfia, na jugular das minhas atenções, intenções e pretensões éticas e existenciais, tanto recriando como promovendo colagens/bricolagens com obra de terceiros nos já citados “docudramas”. Jamais filmei flertando com o público, a mídia ou a crítica. Nessa atitude instintivamente na outra margem do estatuído (que me define desde a juventude!), talvez resida aí alguma dificuldade, não por acaso, de uma historiografia de corte unívoco do cinema brasileiro, em reconhecer a incontornável estética e ética da minha obra, algo “torta” (talvez, por ser tortuosa!), cuja validade é inoxidável se comparada ao que se tem produzido, majoritariamente, nos últimos cinquenta anos.

Você também levantou questões da região Sul que não costumavam ser tema de filmes brasileiros. Foi algo natural?

Nascido em Santa Catarina, 50 anos de Paraná e hoje há 32 no Rio, e uma coisa é certa: jamais premeditei realizar uma obra que, majoritariamente, resgatasse as mais candentes temáticas do Extremo Sul. Foi acontecendo à medida que fui me dando conta que o cinema brasileiro, rala e raramente, virava suas câmeras para este fascinante Brasil imigrante e portunhol. E quando o fazia, era folclorizando como se este inestimável gomo da brasilidade, a potente presença de imigrantes europeus e a permeabilidade político-social e cultural das nossas fronteiras com o Paraguai, Uruguai e Argentina não tivessem o poder telúrico de amalgamar o que jamais poderia ser separado, um país multiétnico e indivisível por excelência! Meu cinema se imiscui nessa com toda poesia e premência histórica, geográfica e antropológica. Não foi por acaso que Glauber Rocha, referindo-se a meus filmes, me chamou de “cacique do Sul”, expressão recém atualizada por Cacá Diegues no meu aniversário em julho passado para “cacique do Brasil” É de arrepiar, não é não?

Você também tem um forte diálogo com as letras, além de se aventurar na literatura e poesia. Como é filmar romances? E o que mais, na arte, te sensibiliza?  

Reside aí, nessa pergunta, um fato que esmaece com o tempo e se refunde quanticamente na consciência a cada busca que se faz para recapturar o átimo da epifania. Desde adolescente, leitor veraz e voraz do cânone da poesia e da literatura brasileiras e mundiais (desde então, não passa dia sem que eu leia um poema!), o azimute inventivo mirava para a escrita: eu queria ser romancista. Curiosamente, jamais poeta. Como o cinema me conquistou, só posso creditar aos tantos e quantos filmes americanos e europeus (autodidata, aprendi a filmar vendo filmes, nunca fui assistente de nenhum diretor!) que me conflagraram ainda de calças curtas, vendendo gibi na porta do cinema para financiar a entrada! Quanto à poesia, a mais imponderável criação do espírito humano, só fui tomado por ela já homem maduro, aos 48 anos. É truísmo: o poema é que escolhe seu autor, assim, fui eleito após décadas de assíduo frequentador de poesia, sem jamais, no entanto, ousar um verso sequer.

Em fins de 1984, acometido por uma avalanche de inesperadas e sofridas estrofes, fruto de uma tragédia existencial, o infausto teve, ao menos, o dom de detonar uma usina de poesia que eu nem suspeitava existir. E, desde então, além de descobrir impensado veio erótico salpicado de humor do meu fabro (Amor & humor, como epigrafa Oswald de Andrade), e uma dezena de livros publicados. Sim, ao resenhar meus oitenta anos, daí essa ânsia que me acolhe e recolhe, como criador, pela refundação memorial da coisa feita, da coisa por fazer, do legado fechado e a ser concluído, antes que sejamos atropelados pelo esquecimento, o perverso mantra que nos persegue desde quando damos a lume a primeira criatura!

Você é presidente da DCBA – Diretores Brasileiros de Cinema e do Audiovisual, em defesa dos direitos autorais dos diretores do audiovisual. Quais os objetivos e os desafios da entidade?

Nestes quase três anos de existência da  DBCA, inédita entidade integrada por um colegiado de cineastas, focada na arrecadação e distribuição de direitos autorais no Brasil e do exterior, acabamos descobrindo um fato alarmante entre os quase trezentos profissionais já filiados com mais de mil obras registradas: muitos diretores desconhecem o fato de que, além de serem pagos para realizar o filme, telenovela, minissérie, documentário ou animação, a relação autoral com a obra permanece. É umbilical, sua assinatura é como se fora um DNA, intransferível e irrenunciável, como se diz no jargão jurídico. Pois ficam ali embutidos bens imateriais que, pela tecnologia, se harmonizam graças ao talento, expertise, conhecimento, cultura de seus criadores. Assim, toda vez que o audiovisual tiver comunicação pública, esse manancial de invenção deve e precisa ser corretamente remunerado. Sejamos cineastas, músicos, roteiristas, intérpretes, essa autoria, única por vez, é o nosso patrimônio. São fotogramas, diálogos e pentagramas únicos, e deles depende nossa sobrevivência, digna e virtuosa. E, também, da própria vitalidade, abrangência e renovação da cultura, da arte e do entretenimento de uma nação. Afinal, sem diretor não tem filme, telenovela, minissérie, documentário ou animação. Simples assim!

De imediato, na condição de presidente da DBCA, o que posso revelar é que existem represados milhares de euros, dólares e pesos devidos a diretores brasileiros de cinema e TV cujas obras circulam há anos pelo mundo. Essa fortuna em direitos autorais poderá ser destinada aos seus legítimos detentores por força de acordos de reciprocidade assinados pela DBCA com entidades congêneres da Argentina, Colômbia, Chile e México, além da negociação com sociedades da Europa. Em breve, quando formos habilitados para trazer ao país esses direitos pelo Ministério da Cultura, que no momento analisa nosso pleito contemplado pela Lei do Direito Autoral, será a primeira vez no Brasil que os nossos criadores terão compensação financeira por seus filmes lançados também no exterior.

Você tem uma longa carreira no cinema, mas sua obra está à margem do entretenimento e dos grandes movimentos. Como era viver de cinema no Brasil quando você começou a carreira e como é hoje? E por que o cinema brasileiro ainda não atrai boa parte do mercado interno?

Nunca foi fácil fazer cinema no Brasil, ainda que nos últimos anos, aleluia! tenha aumentado substancialmente o volume de dinheiro para filmar. Assim mesmo, cada cineasta vê-se, desde o primeiro filme, a formatar, além da criação, sua própria indústria. Ou seja, é obrigado a levantar os recursos para o filme  (movie is money, se diz em Hollywood), realizá-lo (muitas vezes sem conseguir chegar à primeira cópia ou até jamais conseguir colocá-lo na telona…), preparar o lançamento, o que significa procurar distribuidor e exibidor, e é quando se acaba descobrindo que navegamos no showbizz, território da imponderabilidade propriamente dita. Alguém está disposto a assistir às nossas criaturas, e como dar conta das dívidas feitas em nome do voluntarismo que anima qualquer criador? Olhando no retrovisor, muitas vezes nem acredito ter feito 38 filmes, entre curtas, médias-metragens e doze longas, escrito e publicado 25 livros (dez roteiros, nove de poesia e os demais, ensaios sobre cinema). Não sei se, começando agora, chegaria até lá!

Cruz e Sousa – O Poeta do Desterro

O que ainda falta filmar? Você tem novos projetos?

Sou um criador  full time, portanto, tenho uma cesta cheia de projetos, sejam cinematográficos, seja literários. Pela ordem, na agulha minissérie intitulada Making of Curityba; roteiro de minissérie sobre a Guerra do Contestado, a ser dirigida por Zeca Pires, e o longa em preparo, A história é teimosa; no conto, a sair, O himeneu; e na poesia, Silenciário, obra reunida de poemas escritos dos últimos vinte anos.

Aqui em SC, há queixas dos produtores em relação ao Prêmio Catarinense de Cinema. Você visualiza outro modo de garantir a sustentabilidade de uma produção audiovisual, além dos editais? Como é sua relação com o Estado, acompanha a produção catarinense?

Como não moro no Estado, fica difícil avaliar os entraves e soluções com que os diretores catarinenses se deparam e enfrentam para viabilizar seus sonhos. De qualquer forma, sempre acompanho a produção que, ultimamente, é intensa e extensa, de jovens a nomes consagrados, espelho virtuoso de uma inusitada vitalidade criativa! Nesse quesito devo sublinhar que Santa Catarina jamais me faltou. Basta ver como a UFSC tanto viabilizou a produção do doc de longa-metragem, O Contestado – Restos Mortais (2010), quanto deu regra e compasso a que o evento em comemoração aos meus oitenta anos tivesse repique nacional. Por sinal, que nesta semana se encerra em grande estilo na Cinemateca Brasileira. Mas tudo começou aí sob a égide da SeCArte (Secretaria de Cultura e Arte) e do Departamento Artístico Cultural (DAC), ambos da UFSC; da Cinemateca Catarinense e da Fundação Catarinense de Cultura. Melhor, impossível, hein?

Aliás, sinto-me sempre muito agradecido e orgulhoso, filho de Blumenau, de ter tantos projetos criados e exibidos em cinemas, TV e disponíveis em DVD, tematizando a original história, cultura, arte e ecologia do Estado, de Cruz e Sousa ao Contestado (com dois filmes, o citado e A Guerra dos Pelados, hoje um clássico na luta pela posse e contra a usurpação da terra no Brasil), da Revolução de 30 aos influxos nazistas e integralistas durante a II Guerra Mundial, da heroica saga dos imigrantes europeus à extinção do pinheiro em escala industrial.

Vai estar por São Paulo? Agende-se
Mostra Sylvio Back 8.0 – Filmes Noutra Margem
Até 25 de fevereiro
Cinemateca Brasileira (Largo Sen. Raul Cardoso, 207, Vila Clementino, São Paulo)
Veja a programação completa no site 

 

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