“O violão me faz dialogar com Deus”, diz Toquinho, que se apresenta em SC

Artista apresenta duas facetas em shows na Capital neste fim de semana

Toquinho (Foto: Rafael Ferreira/Divulgação)

De um lado, um senhor que completa 50 anos de uma trajetória singular na música brasileira. De outro, um homem que se desprende das regras para criar canções infantis. São essas duas versões de Toquinho que os fãs poderão ver no palco neste sábado, em Florianópolis. À tarde, ele está por traz do musical Casa de Brinquedos. À noite, faz o show que comemora meio século de carreira. Nesta entrevista, ele fala sobre o momento atual da música brasileira e seu grande amor: o violão, “um prolongamento do meu próprio corpo”, como define.

Teremos dois trabalhos seus no palco em Florianópolis neste sábado. Um deles é um musical infantil, Casa de Brinquedos, e o outro é o show de comemoração aos 50 anos de carreira. Estes trabalhos conversam entre eles?

São formas diferentes. Um é peça musical contendo uma história que alinha as canções do disco Casa de Brinquedos, com atores, cenários. O show dos 50 anos é uma retrospectiva de minha carreira, incluindo sucessos com vários parceiros, solos de violão e alguns casos que costumo contar sobre minha trajetória nos palcos e na vida, e que o público gosta de ouvir.

Como foi construída sua relação com o universo infantil? De que forma você acredita que a música dialoga com as crianças?

Quem me levou a esse universo foi Vinícius de Moraes com seu livro Arca de Noé. Eu musiquei alguns poemas desse livro, gravamos dois discos que resultaram num sucesso retumbante, Arca de Noé e Arca de Noé 2. Isso em 1980. Depois, em 1983, Mutinho, meu baterista na época, e eu fizemos as canções de Casa de Brinquedos. E em 1986 saiu outro disco com mais 10 canções, desta vez em parceria com Elifas Andreato: Canção e Todas as Crianças. Eu me divirto fazendo músicas infantis, e mesmo porque é preciso ter muito humor pra se fazer isso. Quem não tem humor, é melhor nem tentar. Outra coisa: há que ter humildade, despojar-se de coisas que se aprendeu, escalas, harmonias, teorias musicais, e fazer o que o som pede, o que a canção pede pra ficar audível, agradável. E essa linguagem é muito difícil, porque não se pode subestimar a criança e não se pode fazer qualquer “blá-blá-blá”.

Espetáculo “Casa de Brinquedos” (Foto: Marcelo Campos/Divulgação)

É impossível dissociar sua imagem do violão. Como é sua relação com este instrumento musical? Como aprendeu a tocar?

O violão passou a ser o prolongamento do meu próprio corpo. A cada dia, dedico-me mais, como se o instrumento fosse um bebê recém-nascido, exigindo sempre cuidados aprimorados, e o instrumentista um pai extremoso, ambos se completando, permitindo que a vida os confunda em madeira e pele, cordas e coração. O violão me faz dialogar com Deus, e a música é a escritura desse diálogo. Tocar violão, para mim, é respirar com as mãos, e a música é o ar em forma de acordes. Minha transpiração tem o odor da madeira que encosta ao meu peito, e a frequência de meu coração se regula pela vibração das cordas do instrumento. O violão é meu psicólogo, meu amuleto, minha trincheira, o tabernáculo de minhas prudências e de meus pecados. Eu toco violão, estudo, todos os dias. Me atraso para os compromissos porque fico tocando violão, para mim é
um prazer, não tem nenhum peso de profissionalismo, que vem depois. O Marcello Mastroianni falou que “ser ator era um sacrifício, mas era melhor do que trabalhar”. Tocar
violão é muito melhor do que trabalhar.

Já é meio século fazendo música. O que você percebe que mudou no meio musical desde que começou a carreira?

Mudou o respeito à composição, a responsabilidade com o belo que a música proporciona, mas que tem de ser atingido com a cadência da alma, sem pressa e sem subterfúgios.

Você consegue destacar pontos altos e baixos destes 50 anos de carreira?

Perdura a sensação de uma constante renovação e de um contínuo aprimoramento.
Cada ano robustece o seguinte e as décadas se diluem na descoberta de técnicas novas e na extensão do vigor ampliado pelas conquistas e pelos sucessos. O tempo não apaga o que nos arde na alma. Essa longa trajetória só pode ser alcançada com muita dedicação. Eu me considero um artesão, sempre apoiado no violão que representa o início e o desenvolvimento de tudo. E a música será sempre uma chama a aquecer minha dedicação ao instrumento. Amo fazer o que faço, o palco é a extensão de minha casa. Nele, sou simples e íntimo da plateia.

Como avalia sua trajetória na música?

Em meio a essa trajetória de aprendizados, surgiram as parcerias que valorizam sobremaneira minhas composições. O resto, a vida se incumbiu de mostrar-me valores e caminhos que eu soube aproveitar usando meu talento maior: o de instrumentista. Portanto, há uma comemoração a cada acorde novo, a cada subida nos palcos, a cada disco gravado, a cada aplauso do público que se renova por muitas gerações.

Tem algo que você ainda não fez na música, e que gostaria de fazer? Alguma parceria?

Sempre o vir a fazer é que desperta essa sensação. Estou gravando canções inéditas feitas com Paulo Cesar Pinheiro, que já foi meu parceiro em outras músicas. Isso é o meu prazer criativo no momento.

Em entrevistas recentes, você faz ponderações bastante fortes sobre a música nacional. Em uma delas, disse que “falta brasileirismo” à nova geração de artistas. O que você quis dizer com isso?

Há uma carência da personalidade musical brasileira, caracterizada por suas raízes.

Você também tem dito que “essa geração é completamente passiva e perdida historicamente”. É uma comparação com a sua geração? Quais são as diferenças?

Talento sempre haverá. Vira e mexe, você encontra uma coisa aqui, outra ali. Mas, na essência, essa geração é completamente passiva e perdida historicamente porque deixou de lado a estrutura musical que caracteriza a melhor música brasileira: a sintonia entre ritmo, harmonia e melodia, especialmente identificada na minha geração, que vai permanecer para sempre na história. Essa geração, certamente, não.

Que tipo de música você consome? Destaca novos nomes da música brasileira?

Fico à mercê das FMs, mas procuro estar atento à música brasileira de qualidade, consolidada, e aos novos talentos que sempre surgirão.

Voltando a falar sobre as apresentações em Florianópolis neste fim de semana. Você costuma vir pra cá? Tem amigos aqui, uma relação com Santa Catarina?

Floripa tem algo especial que aconchega e enternece na harmonia entre suas praias e a metrópole, gerando uma atmosfera de cultura e cidadania. É uma cidade surpreendente. Sempre que vou aí, me encanto com essa sensação.

SERVIÇO
Casa de Brinquedos
Quando: 6/4, 16h
Onde: Teatro Ademir Rosa – CIC (Avenida Governador Irineu Bornhausen, 5.600, Agronômica, Florianópolis)
Quanto: R$ 50. Desconto de 40% para sócio do Clube NSC na compra
antecipada no site Disk Ingressos.

Toquinho – 50 anos
Quando: 6/4, 21h
Onde: Teatro Ademir Rosa – CIC
Quanto: R$ 50. Desconto de 40% para sócio do Clube NSC na compra
antecipada no site Disk Ingressos.

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