Ângelo ganhou novos olhos com a labradora Angra, treinada na Escola de Cães-Guias Helen Keller

A labradora Angra Foto: Marco Favero

Texto: Marcone Tavella

Ângelo Matias caminha com passos seguros em um mundo de escuridão total. A visão ele perdeu ainda criança e lá se vão mais de 15 anos que nem um vulto ele percebe. Seu turno como atendente de telemarketing da Fiesc encerrou às 14h, como de praxe, e ele anda tranquilo pela calçada da Rodovia Admar Gonzaga, na Capital, na direção do ponto de ônibus. Ali pega a primeira de duas conduções até em casa, localizada numa rua estreita da Tapera, no sul da Ilha.

Na parte do trajeto feita a pé, o rapaz de 23 anos atravessa ruas movimentadas, enfrenta obstáculos e mudanças bruscas de textura e nível do chão e depara-se com distraídos de celular na mão que lhe atravessam a passagem. Sem falar nos diversos ruídos da cidade viva, que desorientam qualquer um, mas toma outra proporção para ele, mais um entre meio milhão de cegos do país segundo o IBGE.

Mesmo parte unitária de um grupo tão grande, que supera os seis milhões quando incluídos os brasileiros com baixa visão, Ângelo é um privilegiado. Há um ano que ele tem ao lado a cadela Angra, um dos 150 cães-guias em ação em território nacional.

Os olhos castanhos da simpática labradora de pelagem preta são também os olhos de Ângelo. Por causa dela ele tem passos seguros e anda tranquilo rumo ao seu lar – um quarto e sala erguido nos fundos do terreno do pai, onde vive com a família: a esposa Bárbara, o filho Théo, de quase dois anos, e a Angra, que no dia 5 de fevereiro completou quatro anos.

Com comandos básicos, a cadela o conduz não só no trajeto casa-trabalho-trabalho-casa, mas para onde quer que ele queira ir, da maneira mais segura que um cego pode pretender ao se deslocar.

– Antes de conhecer a Angra, quando eu utilizava somente a bengala, tropeçava, batia em placas, estava sempre esperando o contato com alguém ou alguma coisa. No começo com ela até estranhei, pois ficava esperando esbarrar nos obstáculos do caminho. Mas ela é perfeita – diz Ângelo.

Ângelo e a parceria Angra Foto: Marco Favero

Um ano de parceria

A relação entre os dois começou em janeiro do ano passado, e logo se tornaram inseparáveis. Não haveria de ser diferente, já que ele depende dela para pegar ônibus, ir ao cinema, ao banco, ao supermercado ou até em viagens para outros estados.

– Vou todo fim de semana a Curitiba para jogar futebol. Faço parte de um time de cegos de lá – conta orgulhoso o atacante, que também é faixa marrom de jiu-jitsu.

A realidade era outra antes de Angra:

– Agora eu vou até onde nunca fui – diz confiante.
Com o portão do terreno de casa fechado atrás de si, Ângelo retira o colete e a guia que o liga fisicamente ao animal e a cadela se sacode contente por mais um dia de serviço cumprido. Busca carícias do amigo, sacode o rabo e fareja agitada vários pontos do quintal. Comportamento bem distinto da Angra concentrada e séria que no caminho ignorou dois cães a procura de brincadeiras, achou a entrada da plataforma do terminal de ônibus sem hesitar e se conteve com a simpatia dos passageiros que tentavam chamar sua atenção no ônibus.

– Ela foi altamente treinada para associar o equipamento com a missão de me guiar. Angra não pode receber mimos, carinhos ou qualquer estímulo que a desvie do trabalho enquanto está com a guia. Mas sem o equipamento, ela está liberada para ser e fazer o que qualquer cachorro faz. Ela merece um descanso – explica.

Perguntado se ela poderia ser comparada a um soldado de exército que é treinado com a mais rígida disciplina para poder executar as mais difíceis missões, Ângelo se abre em um sorriso.

– É diferente, porque toda essa dedicação dela não é por um soldo ou propósito, é por um amor
incondicional – define ele.

Depois de fazer sua ronda pelo ambiente, Angra se aproxima e se estira para adormecer no piso fresco da garagem, aos pés do companheiro sentado. Novamente estão ligados, mas o que os une não é a guia ou o colete, e sim a gratidão, a cumplicidade e o amor.

Foto: Felipe Carneiro

Filhotes de um futuro promissor

A labradora Angra representa um divisor de águas na vida de Ângelo e, ao mesmo tempo, um marco para a Escola de Cães-Guias Helen Keller, localizada em Balneário Camboriú. Nascidos em 2014, ela e os irmãos Atobá, Atchim, Aria, Acerola e Alegria compõem a primeira ninhada de um ambicioso programa genético da instituição que está na quarta geração e pretende entregar até 30 cães por ano a partir de 2021. Hoje, significaria 20% da quantidade da população nacional de cães-guias.

Para atingir a meta, o instrutor Fabiano Pereira coordena um trabalho meticuloso de seleção, treinamento e acompanhamento que abrange todos os animais criados pelo centro.
Os filhotes nascidos na escola são acolhidos com dois meses de idade por uma família socializadora voluntária, que tem a responsabilidade de apresentar o mundo ao pequeno, levando-o já com o colete e a guia para o trabalho, supermercado, banco e para se adaptar ao trânsito. Esta fase dura entre 15 e 18 meses e a instituição fornece gratuitamente a alimentação, serviços de pet e veterinários (se necessário), além de fazer visitas periódicas.

Passado este período, o cachorro é submetido a seis meses de treinamento intensivo nas dependências da Helen Keller. Só então é graduado como cão-guia e será cedido de graça para um cego que esteja cadastrado na lista de espera, que atualmente conta com dois
mil nomes de todo o país.

Ângelo inscreveu-se em 2013 e esperou quase quatro anos até ser chamado para uma entrevista. Aprovado, foi designado a cuidar de Angra, que estava sendo preparada há três anos. A dupla ainda conviveu por um mês em um apartamento anexo ao hall da escola, adaptado para simular o dia a dia em casa.

– É um processo cuidadoso que garante a integridade física e comportamental do animal. Da ninhada da Angra, quatro foram destinados para guiar cegos e dois à reprodução, 100% de êxito – explicou.

A socializadora Polyana Marques se empenha para que
a Coral cumpra com a missão de se tornar cão-guia Foto: Felipe Carneiro

 

A barreira do preconceito

Em quase 18 anos de história a Escola de Cães-Guias Helen Keller tornou-se referência internacional, formou 23 duplas de cegos e cães-guias, criou um programa genético promissor e liderou a implantação do programa federal de formação de cães-guias e instrutores oferecido atualmente pelo Instituto Federal Catarinense, em Balneário Camboriú.

Mas, para Fabiano, nada disto se compara ao desafio de conscientizar a população sobre a importância e a necessidade do cachorro na assistência ao deficiente visual.

– Frequentemente ouvimos socializadores e até cegos reclamarem de situações em que foram
barrados ou tiveram que se explicar para poderem entrar em algum lugar –, lamenta o instrutor.

Pela Lei 11.126, de 2005, “a pessoa com deficiência visual usuária de cão-guia tem o direito de ingressar e permanecer com o animal em todos os locais públicos ou privados de uso coletivo”. A mesma permissão é dada ao cão em fase de socialização. A multa por descumprir a legislação é de R$ 1 mil a R$ 30 mil, com possibilidade de interdição, em caso de reincidência. O próprio Ângelo relata ter passado constrangimento em uma grande rede de supermercado de Florianópolis, no ano passado, que tentou impedir que ele e Angra fizessem as compras normalmente.

Quem reconhece ser a conscientização um caminho longo a ser percorrido é o doutor Luiz Augusto Gonzaga, filho do fundador da Helen Keller, o falecido hematologista catarinense Augusto Luiz Gonzaga.

– Meu pai criou a escola para romper com um atraso de anos, para que os cegos daqui tivessem o mesmo tratamento que nos EUA, onde a população de cães-guias é de 400 mil – comparou, sem deixar de citar o pai. “A melhor maneira de verificar o nível de desenvolvimento humano de uma sociedade é observando a atenção que se dá às minorias.”

Escola catarinense com reconhecimento

Com altos e baixos, funcionários e ex-diretores da Helen Keller reconhecem que a instituição vive seu melhor momento desde a fundação, em julho de 2000. Financiada apenas por doações, a organização sem fins lucrativos foi reconhecida em novembro do ano passado pela International Guid Dog Federation. Ela é a única da América Latina a se tornar membro do órgão máximo na formação de cães-guias, sediado na Inglaterra.

Desde então a escola catarinense tem coordenado uma rede de apoio mútuo entre instituições da Argentina, Chile e chegou a fornecer duas matrizes para qualificar o plantel uruguaio.
Ao mesmo tempo, a Guiding Eyes fot the Blind, conceituada escola de Nova York, nos EUA, doou seis cachorros para impulsionar ainda mais o trabalho da equipe do Fabiano Pereira.

– Com nosso programa e a chegada destes animais da escola americana, que são resultado de mais de 10 gerações de aprimoramento genético, vamos certamente melhorar nosso índice de aproveitamento das crias, reduzindo a incidência de desvios de comportamento ou problemas físicos comuns da raça – destaca o instrutor.

Outro fator que contribuiu para chamar a atenção de fora, de acordo com o presidente Ênio Gomes, foi a construção da sede de mil metros quadrados, inaugurada em julho de 2016.

– Foi um passo importante, pois o espaço amplo, moderno e com equipamentos eficientes dá todas condições para treinarmos os labradores, formarmos instrutores e hospedarmos as duplas de cegos e cães-guias em adaptação – diz ele.

 

Para saber mais sobre o universo de cães-guias e a Escola Helen Keller

– Helen Keller foi uma escritora, conferencista e ativista do século XIX e a primeira surda e cega a conquistar um bacharelado.

– Extremamente inteligentes, cães-guias decoram o trajeto para um lugar específico em apenas uma visita. O treinamento permite que nem rojões ou ruídos que afetam outros cães sejam capazes de desorientá-los.

– Quando “fardado”, um cão-guia está em trabalho. Não pode brincar, nem receber carícias. Eles também sabem pedir para ir ao banheiro, um local apropriado. Não há riscos de que ele faça as necessidades em qualquer lugar.

– Os cães-guias da Escola Helen Keller são cedidos gratuitamentes para os cegos, mas são mantidos pelos usuários a um custo médio de R$ 450,00. No entanto, eles permanecem como propriedade da instituição, como forma de proteger o animal de possíveis inadequações que possam ocorrer.

– Um cão-guia se aposenta aos 10 anos e neste momento o cego pode solicitar um novo animal sem entrar na lista de espera. Já o cachorro pode voltar para a escola e ser destinado à adoção ou permanecer com a família do cego, desde que este apresente condições de manter os dois.

– Nos últimos anos têm surgido iniciativas para treinar cães-guias em São Paulo, Recife, Distrito Federal e há um grupo na Secretaria de Direitos Humanos pensando políticas públicas, com membros da Helen Keller entre os membros.

– Para conhecer mais sobre a Escola Helen Keller, fazer uma doação, inscrever-se como socializador voluntário ou até para ter um cão-guia, visite o site www.caoguia.org.br.

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