Escrevo. Porque nasci assim

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Eu tinha uns onze anos quando comprei o primeiro caderno que batizei de “diário” — e comecei a escrever nele todos os dias, coisas que iam desde o que eu tinha aprendido na escola até o que eu queria ganhar no próximo aniversário. Os anos passaram, os assuntos mudaram, mas eu mantive esse hábito: todo ano, no comecinho de janeiro, vou toda feliz a uma livraria ou papelaria e compro uma agenda ou um caderno bonito, de preferência sem linhas e com muito espaço para escrever — porque eu vou escrever, amigo. E como vou escrever.

Então, basicamente, eu escrevo desde que me entendo por gente — já que eu lembro de pouquíssima coisa da minha vida de antes dos dez ou onze anos de idade. Meus cadernos foram se acumulando, um após o outro — houve anos particularmente agitados em que eu precisei de mais de um deles para acomodar todas as minhas anotações. Uma das minhas preocupações mais frequentes é, a cada mudança de casa, “será que vai ter espaço para guardar tudo isso na casa nova?”; e outra delas, um pouco menos frequente (porque eu gosto de pensar que ela está bem distante, por favor), é “o que diabos vai ser feito disso tudo depois que eu morrer?”.

Sim, porque eu não me vejo deixando de escrever em um futuro próximo, e nem em um futuro distante. Mas morro de medo de que alguém pegue meus diários, depois que eu estiver morta, e leia tudo o que eu escrevi em vida. Eu tenho vergonha de mim mesma por alguns pensamentos que tive quando era adolescente — acho que, no fundo, todo mundo tem. Eu ia magoar algumas pessoas por coisas que escrevi em momentos de fúria ou de tristeza. Talvez, quando tiver uns cinquenta ou sessenta anos, se meus antigos diários ainda estiverem inteiros — e se eu tiver coragem para isso —, eu faça uma pilha com todos eles no quintal e bote fogo. Adeus, passado, adeus, memórias. Ninguém vai revirar a minha alma depois que eu estiver morta.

Parece um desperdício, é verdade. E todo o tempo que eu investi escrevendo isso tudo? E todos os registros que eu fiz? E todas as emoções que meus netos e bisnetos — supondo que um dia eu tenha filhos — poderiam desvendar, narradas por mim mesma, como se eu estivesse ali, viva, ao lado deles? A questão é que eu não escrevo esses diários para ninguém além de mim mesma. Não escrevo nem para o diário — sabe, como nos filmes, quando as meninas começam o texto dizendo “querido diário”…? No meu caso, não é nada disso — quando escrevo, eu converso comigo. Eu me questiono, e eu mesma respondo. É a minha terapia. Minha penseira — como Dumbledore fazia em Harry Potter, eu sento em algum lugar calmo de vez em quando e esvazio a cabeça, transferindo meus pensamentos para o papel. Vejo as coisas de fora, o que me ajuda a entendê-las melhor. E me sinto mais leve.

É claro que, de tanto gostar de escrever, foi surgindo a vontade de escrever — também — para os outros. Sabe em O Diário da Princesa (quem está na faixa dos 30 anos e não leu essa série quando estava no ensino fundamental perdeu alguma coisa pelo caminho), quando a Mia finalmente entende que escrever pode ser mais do que um hobby — e sim uma espécie de vocação? Eu tive uma epifania parecida, em algum momento da adolescência. Veja, eu não estou dizendo que escrevo bem, até porque acho que não cabe a mim julgar — só estou dizendo que gosto de escrever. Mais que isso: preciso escrever. Tenho facilidade para escrever. Seja o que for, seja qual for o assunto, em qualquer tamanho ou formatação. Eu tenho ideias — e, quando tenho uma ideia, já era: não vou sossegar até colocá-la no papel.

Comecei a me arriscar a escrever para os outros. Fiz um blog. Participei de dois ou três concursos de contos — e até ganhei um. Escrevi uma história enorme, de umas 300 páginas — era sobre vampiros e eu juro que o protagonista se chamava Edward, mas, graças aos céus, não tinha nada a ver com Crepúsculo. Na hora de prestar vestibular, escolhi Jornalismo “porque gosto de escrever”, como ouvi da grande maioria de meus colegas, que se sentiam e pensavam parecido. Acabamos descobrindo que só a menor parte do trabalho de um jornalista consiste em escrever, mas tudo bem: faz parte, e só o fazer parte já está bom — sentar e digitar um texto depois da apuração, ler o resultado e se orgulhar de um trabalho bem feito com as letras é ótimo. Eu acho que eu escreveria o dia inteiro mesmo se não me pagassem — então, se alguém quer me dar um salário por isso, tanto melhor.

Eu escrevo. Oito horas por dia, durante o trabalho. Escrevo no Twitter. Escrevo meus diários, ainda e todos os dias, religiosamente. Escrevo minhas fichas de personagens de RPG, que sempre ficam maiores do que o necessário ou do que qualquer um dos outros jogadores vai ter paciência de ler. Escrevo, à noite, quando tenho tempo, uma nova história — que tem umas 180 páginas até agora, mas quem sabe um dia não vira um livro de verdade? Escrevo onde me deixarem escrever — e foi assim que eu vim parar aqui. Sou como um grafiteiro andando pela cidade: se me derem um muro branco, eu vou pintar.

Aliás, eu nunca tive coragem de deixar uma das minhas histórias ver a luz do dia: sempre que estou terminando uma, já não gosto mais dela — e estou de olho na próxima, que, essa sim, eu sinto, será minha obra-prima. Meu sonho é, um dia, publicar um livro — e talvez, com alguma sorte, viver disso. Mas sinto que ainda preciso praticar, e muito. E, sabe, eu já me arrependi algumas vezes de engavetar minhas histórias desse jeito. Se o Edward da Stephenie Meyer virou filme, por que o meu não poderia? Modéstia à parte agora: o meu era muito mais legal. Mas talvez — me desculpem os possíveis fãs dos Cullen e companhia — superar a escrita da Stephenie Meyer não seja mesmo tão difícil assim.