Espetáculo “Dona Maria, a Louca” será apresentado no Teatro da UFSC

Foto: Sérgio Vignes

O espetáculo “Dona Maria, a Louca”, do autor, ator e diretor catarinense Antônio Cunha será apresentado nos dias 29 e 30 de março, às 20h30, no Teatro da UFSC (ao lado da Igrejinha).

O monólogo retorna ao palco, em leitura dramatizada, para comemorar os 20 anos de estreia da peça. Os ingressos são gratuitos e serão distribuídos na bilheteria do teatro, que abre uma hora antes do início da sessão. A apresentação integra a programação do Projeto Cena Aberta, realizado pelo Departamento Artístico Cultural (DAC)/SeCArte da UFSC.

Sinopse

Terras do Brasil, fevereiro de 1808. Salpicando os portos desde a Baía de Todos os Santos até a Baía da Guanabara, surge em frangalhos à frota que, saída de Lisboa às pressas na manhã de 27 de novembro de 1807, pelas águas providenciais do Tejo, rasgara desordenadamente o Oceano Atlântico, trazendo consigo todas as gentes nobres de que se tem notícia, e com essas gentes todo ouro e prata, toda pedra e outras riquezas que mais não vieram por falta de espaço.

Causara a debandada, a invasão de tropas vindas da França por ordens do Imperador Napoleão I, com intuitos de subjugar à força o Reino de Portugal, que, por penhor à Inglaterra, resistira à decretação do Bloqueio Continental. À frente da grotesca esquadra, a Real Família Bragança: o príncipe regente Dom João, a princesa Dona Carlota Joaquina, os seus filhos Pedro e Miguel, ainda outras suas filhas, e, por fim, a velha soberana, a rainha Dona Maria I, que já fora chamada “a piedosa”, agora a rainha louca, de mente desordenada.

Foto: Sérgio Vignes

Aos 74 anos, a senhora soberana aporta em terras tão longínquas quanto estranhas. Relutante em descer da embarcação, permanece por quase três dias à porta de um mundo com o qual travava, durante toda a sua vida e seu reinado, uma relação tão próxima pelo que dele recebia, via e ouvia, e ao mesmo tempo tão distante pelo que dele imaginava em seus momentos de lucidez ou de loucura.

A visão dantesca do Brasil que Dona Maria constrói a partir da janela de seu camarote remonta à visão dos primeiros colonizadores, e que, resguardada a distância dos 300 anos que os separam, pouco mesmo se teria evoluído. Presa na teia das concepções em voga, Dona Maria, por vezes, enquadra o Brasil que está à sua frente nas mesmas categorias as quais se utilizam os seus contemporâneos para a ela mesma enquadrar. Dona Maria vê estranheza, desordem, insanidade diante de si, exatamente o que veem os seus súditos quando diante dela.

Para Dona Maria “a louca”, o mundo que ora se lhe apresenta é intrigantemente “louco”. Neste cenário, onde, solitária e distante das regras que permeiam a sua condição de monarca, espectadora privilegiada e ao mesmo tempo personagem principal, Dona Maria revisita a sua própria tragédia.

Sobre a peça, segundo o ator e diretor

“Dona Maria, a Louca” foi escrita por Cunha, entre 1998 e 1999, com a colaboração da historiadora Ivonete da Silva Souza na pesquisa histórica e, em meados de 1999, estreou em Florianópolis, numa montagem do Grupo de Teatro O Dromedário Loquaz, com atuação premiada da atriz Berna Sant’Anna, direção de José Pio Borges, cenário e iluminação do saudoso Sylvio Mantovani e música composta pelo maestro Carlos Alberto Vieira.

As primeiras apresentações ocorreram no Teatro da UFSC em evento acadêmico, e, em seguida, a peça fez temporada no Teatro da UBRO, logo após a sua reforma, porém, antes da inauguração. Em 2002 o texto recebeu montagem em São Paulo, com a atriz Marisa Hipólito sob a direção de Jairo Maciel, e em 2011 estreou em Portugal, com atuação e direção da grande atriz portuguesa Maria do Céu Guerra.

A montagem portuguesa, que garantiu a Maria do Céu o prêmio nacional Santareno de melhor atriz de teatro de 2011, fez longa carreira de sucesso naquele país e excursionou por Santa Catarina e Rio de Janeiro, em 2012. A peça foi publicada pelo autor em 2004, juntamente com outras duas, no livro Três D(r)amas Possíveis.

Segundo o diretor da peça, raramente a comunidade tem a oportunidade de assistir à leitura de uma obra feita pelo próprio autor. Isto é comum em outros países, mas raro no Brasil. O espetáculo é uma forma de apreciar e ter contato com o texto artístico elaborado sobre bases históricas sólidas. É teatro, é literatura, é história, é reflexão, é passado e é presente. É a atemporalidade que só a arte consegue estruturar e expor.

Sobre o diretor

Antônio Cunha é dramaturgo, diretor e ator e tem o seu nome vinculado a diversas produções de companhias teatrais como os Grupos Armação e O Dromedário Loquaz, de Florianópolis. Formado em Sociologia pela UFSC, dedica-se às Artes Cênicas há 40 anos. Sua formação na área é autodidata.

Durante esse tempo, com esforço particular, tem buscado e pesquisado o material necessário para a sua formação, participando de encontros, debates, publicações e produções na área. São de sua autoria, além de “Dona Maria, a Louca”, as peças “As Quatro Estações” e “Flores de Inverno”, as três publicadas no livro “Três Dramas Possíveis”, bem como “Contestado – A Guerra do Dragão de Fogo Contra o Exército Encantado”, “Eu Confesso!” e “Crime”.

Como ator, tem passagens pelo teatro e pelo cinema catarinense. Como diretor de teatro, assinou a montagem de várias peças suas e de outros autores, como “Uma Visita” (do alemão Martin Walser), “Sonho de Uma Noite de Velório” e “Sopros de Paz e Guerra” (ambas de Odir Ramos da Costa).

Nos anos 1980 recebeu prêmios locais como autor, diretor e ator. Em 1999 recebeu o Prêmio Plínio Marcos de Dramaturgia no Festival Nacional de Teatro de Lages (SC) pelo texto Dona Maria, a Louca. Desde 2016 é presidente da Academia Catarinense de Letras e Artes – ACLA.