Esse texto é para aqueles que preferem passar o Réveillon dormindo

Nos últimos anos passamos o dia 31 como se fosse qualquer outro: jantamos juntos, conversamos, lemos deitados na cama e dormimos todos antes da meia-noite

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Foto: Pexels

Você não quer passar um Réveillon do meu lado. Posso garantir que meus fins de ano são contagiantes fracassos. É realmente impressionante. Quando criança passávamos em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, na casa da Vó Elza e do Vô Hugo, mais nove primos correndo no pátio e pisando em todos os cocôs dos cachorros. Eram festas tocantemente simples, nenhuma extravagância de nenhuma parte; cansamos de brindar o ano com cidras baratas de maçã.

O calor era sempre infernal e os fogos de artifício fraquíssimos; as pessoas realmente abastadas para adquirir foguetes tinham ido passar a virada em algum outro lugar, não em Novo Hamburgo. Estavam em Punta, Floripa, Rio de Janeiro. Nós não.

Perto da virada, ficávamos no meio da Rua Oswaldo Aranha, no bairro Pátria Nova, olhando para o céu e tentando enxergar alguma luz colorida. Eram sempre dois ou três fogos, todos muito espaçados, um “pu-pum”, esperávamos alguns minutos, “pof”, mais alguns minutos, “plá-plá-plá”, e íamos dormir com sensação de que aquela era nossa Copacabana.

Lembro de um ano em que meu tio propôs vermos este show de luzes em algum lugar mais alto, rodamos por alguns minutos e acabamos passando a virada no cemitério da cidade. Nas palavras do meu tio: “é o único lugar que não tem nenhum prédio pra atrapalhar!”.

Depois de adulto continuei cometendo o mesmo erro de minha mãe. Mesmo morando em Florianópolis, onde pessoas do mundo todo pagam fortunas para virar o ano, eu juntava minhas filhas e esposa e dirigia mais de seis horas no contra-fluxo dos gaúchos, para um dos menos excitantes Réveillons do planeta. Passávamos calor, tomávamos cervejas baratíssimas, montávamos uma piscina infantil na grama e entrávamos todos.

Quando meus avós morreram, ficamos sem saber o que fazer. O Réveillon perdeu um pouco de sentido. Pulamos de cidade em cidade, às vezes com minha mãe, às vezes com minha sogra, às vezes sem nenhuma das duas.

Da única vez que experimentamos fazer a virada em uma festa, o empreendimento foi
desastroso: faltou comida, ventou demais, as meninas dormiram em um banco, não conseguimos carona pra voltar pra casa.

Desde então, assumimos nossa inaptidão para viradas de ano espetaculares. Nos últimos anos passamos o dia 31 como se fosse qualquer outro: jantamos juntos, conversamos, lemos deitados na cama e dormimos todos antes da meia-noite. No ano seguinte tudo recomeça. Talvez esta seja nossa nova tradição.

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