O Farol: histórias de pescador sobre a vida e a morte ditam o paranoico filme de Robert Eggers

Foto: Divulgação

*Andrey Lehnemann, especial

A primeira imagem do novo filme de Robert Eggers, do aclamado A Bruxa, é um grandioso farol, em uma ilha afastada, que direciona os dois pescadores Thomas Wake (Williem Dafoe) e Ephraim Winslow (Robert Pattinson) até seu acesso. A metáfora do norte-americano sobre a vida e a morte é encaminhada neste princípio: o que nos traz e o que nos leva? O que está entre o início e o fim? A luz. Que, veja só, pode ser compreendida de diferentes formas, como esperança, vida, morte, fé, Deus ou, simplesmente, o fim da linha. É ela que, igualmente, rege o mundo daqueles dois pescadores, os quais vivem seus dias na esperança de chegar o momento de ir embora ou ter contato com a tão sonhada luz.

“Cuide das suas obrigações, a luz é minha”, grita o personagem de Willem Dafoe, que é responsável pelo farol, o primeiro em comando e o mais antigo. O jovem ajudante é Winslow, que substitui o falecido anterior, e passa a conviver com a reclusão, o isolamento e a falta de contato humano na ilha. Aos olhos do rapaz e do espectador, até segunda ordem, é um mundo apenas de suor e trabalho, com os sons das engrenagens ditando o ritmo. É uma atmosfera na qual o som ensurdecedor das máquinas (e das gaivotas) se torna o único – e angustiante – contato que temos. O design de produção, neste aspecto, é brilhante em fornecer a sensação de afastamento entre os dois personagens e sobre o ambiente em que estão – perceba a falsa simetria que há tanto da casa ao farol quanto a disposição de cada um nos cômodos. Neste aspecto, da falta de proximidade entre seus personagens e do mundo civilizatório, Eggers aproveita o alcoolismo para provocar o público e os personagens sobre o que é e o que não é real. O diretor usa até mesmo a razão de aspecto do filme como uma forma de transmitir a sensação de enclausuramento de seus personagens e contribuir para a criação da tensão e do ambiente clássico que envolve ambos.

Existe, sim, uma influência do cinema alemão clássico e, principalmente, de Vampyr, de Carl Theodor Dreyer, assim como a figura de Mefistófeles projeta uma lembrança lindíssima do cinema mudo na obra. Mas há igualmente a contemporaneidade da paranoia, da fábula e da nossa ânsia por encontrar uma luz que nos guiará a passar pela vida, em O Farol. Há profundidade, estranheza e assombro nas histórias de pescador presentes no filme de Eggers. E, ao contrário de outras histórias, elas não nos abandonam, após a sessão.

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