Feiras e mercados democratizam o acesso ao artesanato contemporâneo

Eventos apostam no design brasileiro dando visibilidade para novas marcas e possibilitando o intercâmbio de ideias

Foto: Diorgenes Pandini

As possibilidades de interação através das redes sociais foram acusadas num passado nem tão distante de que seriam as responsáveis pelo isolamento de uma geração inteira. Não é o que se vê nas ruas e nos eventos em vários cantos do mundo. A internet permitiu o contato, a troca e a divulgação de ideias – ok, vamos olhar o lado positivo do universo digital – e também se tornou uma importante vitrine de trabalhos criativos.

Se, principalmente, o Instagram é hoje uma das maiores plataformas de compra e venda do design artesanal e contemporâneo brasileiro, os eventos onde esta turma se encontra se transformaram para muito além do ato comercial. São espaços onde o boca a boca, também conhecido como networking, se torna uma ferramenta importante no aprendizado e no desenvolvimento das pequenas marcas.

Amigas de longa data, as designers Caroline Toledano e Laura Pereira já vinham observando essa movimentação em viagens para destinos que costumam apontar as tendências. No final de 2017, elas organizaram e realizaram, em Florianópolis, a primeira edição do Nomad Mercado.

 

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O evento está em sua quinta edição e ocorre até domingo, das 11h às 21h, no Centro Integrado de Cultura, CIC, na capital catarinense.

– Eventos como esse ajudam a trazer visibilidade para designers e makers, atuando como uma vitrine para que mais pessoas conheçam e tenham acesso aos produtos que eles fazem, se posicionando como peça-chave para difusão do design artesanal brasileiro. Quando começou, o evento trazia mais designers locais do estado, com o tempo e reconhecimento, expositores de outros estados do Brasil — comenta a dupla.

Esse intercâmbio, onde expositores de diferentes cantos do país muitas vezes se tornam amigos depois de alguns dias dividindo espaço e trajetórias, se concretiza mais fortemente nesta edição do evento catarinense com a parceria com a Feira na Rosenbaum.

Nascida em São Paulo e considerada uma das mais importantes do gênero a feira tem a curadoria de Cris Rosenbaum na escolha dos expositores.

 

Empreendedorismo e produção local

Quando se fala na disseminação do design artesanal contemporâneo, há uma mensagem por trás, como se pede às etiquetas nascidas na segunda década dos anos 2000. É preciso estar atento às mudanças comportamentais, mas também atento à realidade local e os impactos de determinadas decisões.

– Quando falamos de design artesanal, geralmente, falamos em produção local, que engloba produtos que são desenvolvidos e fabricados relativamente perto do local onde são comercializados. Isso é uma realidade para muitos empreendedores e jovens designers, que fazem com o que tem e começam com o que é possível para se desenvolverem – explica Laura.

Localizado em Florianópolis, o Greta Ateliê é um destes exemplos. A ideia das designers Franci Odebrecht e Bruna Arsati se consolidou a partir da necessidade de criar objetos orgânicos, não necessariamente em sua forma final, como também na construção e no desenvolvimento de suas peças.

 

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– Como hoje em dia o primeiro contato do público com as marcas, normalmente, acontece pela internet, levar o produto para a feira, onde se reúne uma quantidade enorme de pessoas é essencial – finalizam as empreendedoras.

 

Um mundo de tecidos

Há um linha condutora nas histórias dos empreendedores do design artesanal contemporâneo que passa pelo desejo incontrolável de produzir algo a partir de suas vivências pessoais. Foi assim que surgiu a Stampa, criada por Camila Menezes depois de mais de 16 anos de uma vida nômade pelo mundo.

Ela não estudou Moda, mas as temporadas vividas entre a Europa, a Ásia e a Índia lhe apresentaram uma gama de produção têxtil que não passou despercebida. A partir daí, já instalada em Florianópolis, montou a marca que produz peças artesanais e exclusivas com tecidos trazidos (e enviados por amigos).

 

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– Trabalho muito sozinha, tenho um ateliê que produz minhas peças, trabalho muito em conjunto com a costureira, sou o faz-tudo. Ter um espaço onde consigo me relacionar com outras pessoas que estão no mesmo barco que eu, desenvolver uma marca, é muito significativo – revela.

 

Pelo Brasil

Adriana lie e Marcus Dan não moram em Santa Catarina, mas fazem parte deste círculo de criativos que vêm circulando pelo país para apresentar suas criações. Participante da Feira na Rosenbaum há três anos, o casal de São Paulo comanda o M.O.A, um estúdio de gravuras onde, por meio da técnica de serigrafia, eles imprimem os trabalhos autorais utilizando materiais de baixo impacto na natureza.

 

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– Nossa inspiração vem da arquitetura brasileira das décadas de 50 a 70, e de todos o elementos que a compõe, da parte construtiva ao paisagismo – conta Adriana.

Lidar diretamente com o cliente é a condição principal para as experiências além dos sites de venda e das lojas selecionadas. Mas ela vai além:

– O legal de viajar é conhecer de perto a diferença de sotaque, a gastronomia e os gostos de cada região. Isso a gente vê na escolha das cores, por exemplo. Mas no final temos a certeza de somos do mesmo lugar – finaliza.

 

Do mar à casa

Os amigos André Bianco e Bob Moraes são um caso clássico daqueles onde o roteiro começa com a amizade na faculdade e se estende em uma sociedade. Formados em Oceanografia, eles atuaram na área por alguns anos até criarem a Wet & Wood, em Tubarão, uma marca de design que aproxima o mar – o que mais seria? – do universo decorativo. São tábuas de corte, remos, bancos, luminárias e relógios, entre outras criações, produzidas artesanalmente.

 

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As participações em feiras de design ocorre há mais de cinco anos. Bob considera que, além do contato com o consumidor, as parcerias iniciadas a partir destes encontros são fundamentais.

– Pra gente, o pós-evento é até mais importante do que o evento em si. Claro que temos o contato com o cliente, mas assim como recebemos o feedback de quem é cliente, também costuramos novas oportunidades de negócios, de criação de projetos e até contatos para desenvolver parcerias. É um lado que é bem positivo pra gente.

 

Entrevista

Foto: Diorgenes Pandini

“A rede de colaboração entre os criativos é importante para todos”
Cris Rosenbaum

O que você acha que precisa ser feito para que a tendência de interesse das pessoas por trabalhos locais permaneça e se torne comportamento?
As pessoas precisam entender o valor de uma produção autoral, muitas vezes artesanal e com muitas camadas de história. E nada melhor para isso acontecer do que conectar quem faz com quem compra, aproximar esses dois universos. Então acreditamos muito que comunicar as histórias das pessoas à frente dessas marcas é muito importante. Enquanto iniciativa que possibilita esses encontros, acreditamos que devemos mesmo nos unir, sermos parceiros e ampliar o alcance desses trabalhos para que cheguem em mais e mais públicos.

Qual a importância de iniciativas do gênero para a transformação da cena do design nacional?
A produção brasileira de design é extremamente rica e existem muitos talentos para se descobrir em todas as regiões do Brasil. Criar espaços de comercialização e troca que dão a possibilidade desses criativos chegarem em mais pessoas e apoiar as criações autorais e com identidade brasileira é fundamental para fortalecer esse mercado. Para além da comercialização, a rede que se forma de apoio e colaboração entre os criativos é muito importante para todos.

Como se vê e atua nesse universo do design contemporâneo?
A feira já existe há sete anos e surgiu para ser um espaço coletivo que reunisse e desse visibilidade para os trabalhos de designers talentosos que estavam se desligando de grandes marcas para realizarem trabalhos autorais, com mais identidade e propósito. Hoje nos entendemos como algo que vai além disso. Nossa curadoria, muitas vezes, colabora no processo criativo das marcas. Temos carregado também a responsabilidade de convidar nossa rede a pensar questões relacionadas a compromissos ambientais e sociais em suas produções. Além disso, nos dedicamos a criar uma rede de criativos que se conectem, criem juntos, colaborem entre si. Hoje nos entendemos mais como uma grande rede de pessoas trabalhando para fortalecer o design nacional.

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