Feriado é sagrado – mas não necessariamente no sentido em que você está pensando

No fundo, nossos feriados, religiosos ou cívicos, são uma coisa meio antiga - de quando todo mundo realmente ia à missa nos dias santos e participava ou assistia o desfile de 7 de setembro

Foto: Maurício Vieira, BD, 10/09/2011

Alegria de 90% da população brasileira nesta semana: sexta-feira tem feriado. Na semana passada, pensando sobre o assunto, alguém aqui na empresa perguntou: “É feriado de quê, mesmo?” “Independência”, responderam. Claro, Proclamação da Independência – e todo mundo continuou trabalhando feliz, com a perspectiva de um dia a mais de folga na semana seguinte.

E eu fiquei pensando – quantas dessas pessoas será que vão realmente fazer qualquer coisa minimamente relacionada à Proclamação da Independência? Nos meus tempos de Colégio Militar, essa qualquer coisa era participar do tal desfile cívico, mas hoje, sinceramente, eu não sei o que seria – até acho o desfile muito bonito, mas a preguiça de acordar cedo para ir assistir sempre me vence. Mas, claro, como boa brasileira que sou, eu não estou reclamando do feriado. Que venham mais feriados. Viva os feriados!

Nessa hipocrisia, afinal, estamos todos juntos: quantos de nós celebram feriados religiosos como o Carnaval, a Paixão de Cristo, a Páscoa, o Corpus Christi e o Natal pelos “verdadeiros” motivos? (e não pra sambar, comer chocolate ou só ficar em casa de bobeira?) Quantos de nós, aliás, sabem o que significa Corpus Christi? Quanta gente faz alguma homenagem à Nossa Senhora Aparecida no dia dela (não, o feriado não é por causa do Dia das Crianças)? Quantas pessoas sabem ou ligam para quem foi ou o quê, exatamente, fez Tiradentes? Quanta gente vai visitar os entes queridos já falecidos no cemitério, limpar seus túmulos e deixar flores novas no Dia de Finados? Eu certamente não vou: acho horrível e mórbida essa coisa de ficar cultuando tumba – morreu, morreu; seu amigo, parente ou seja lá o que for está presente nas suas memórias, nos seus sentimentos, não ali, naquele lugar frio, cercado de mármore, de cruzes, de estátuas de anjos chorando. Credo.

Tenho certeza de que as exceções existem, mas, pra muita gente, esses dias são só “dias em que podemos descansar”. São espécies de bônus, distribuídos ao longo do calendário porque aparentemente os finais de semana não dão conta de aplacar o cansaço de todo mundo.

No fundo, nossos feriados, religiosos ou cívicos, são uma coisa meio antiga – de quando todo mundo realmente ia à missa nos dias santos e participava ou assistia o desfile de 7 de setembro. Em um mundo paralelo, onde os feriados fossem atualizados para condizer melhor com nossos hábitos e prioridades, estaríamos, talvez, paralisando escolas e trabalho em datas de estreias de filmes muito aguardados, ou fazendo luto nos aniversários de morte de celebridades. Ou os feriados seriam todos extintos, mesmo. Mas é por isso que ninguém bota o dedo nas nossas datas de folga. Feriado é sagrado – não no sentido literal do termo, mas no figurado. No sentido de intocável. De imperturbável.

O presidente que estivesse no mandato durante a extinção dos feriados, aposto, seria mais impopular que muitos dos candidatos que estão na atual corrida presidencial.

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