Fernanda Montenegro poderá retornar ao tapete vermelho do Oscar em 2020

A vida Invisível disputará uma indicação para a lista dos cinco filmes estrangeiros

Fernanda Montenegro
A atriz Fernanda Montenegro, lançou livro de memórias “Prólogo, Ato, Epílogo”, da editora Cia das Letras, no Rio de Janeiro. Foto: Zô Guimarães/Folhapress

“Sendo ao mesmo tempo o oposto de uma excêntrica e o contrário de uma medíocre, Fernanda nos comunica responsabilidade. Do jovem ator talentosíssimo que me disse sobre ela ‘essa veio para ensinar’, ao presidente da República que a queria ministra da Cultura, todos revelam intuir nessa mulher feroz e serena uma vocação de líder moral. É que ela é civilizada e civilizadora. Ela é a encarnação da civilização brasileira possível. Ela é a grande dama do teatro brasileiro. E que sintoma de saúde do teatro no Brasil que seja assim! Sua primeira dama não é uma virtuose acadêmica nem uma burguesa arrogante, tampouco é uma aventureira mistificadora: é uma mulher para quem ‘os fatos são fatos, os atos são atos e os nomes são nomes’. Se este nunca se tornar um país são e respeitável é porque terá traído Fernanda Montenegro.”

 

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O texto de Caetano Veloso, extraído do prefácio à Fernanda Montenegro no livro O exercício da paixão, da jornalista Lucia Rito, foi escrito em 1990, mas é atual, está em tempo presente, tão presente quanto Fernanda no teatro e no palco. A atriz, que acaba de celebrar 90 anos e quase 70 de um ofício nem sempre fácil, por vezes se declarou descriminada em sua essência, a de ser uma mulher livre em suas escolhas diante de anos difíceis. Como comemoração, mais uma doação de talento ao público. A atriz realizou uma única apresentação de um ato chamado “Nelson por ele mesmo”, onde leu textos do amigo de longa data, Nelson Rodrigues, parceiro de trabalhamos memoráveis como O beijo no asfalto, escrito a pedido pela própria atriz. Fora também para celebrar as nove décadas de vida que a celebre profissional documentou a sua história em “Prólogo, ato, epílogo”, escrita com colaboração da jornalista e biógrafa Marta Góes.

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O convite para ocupar um alto cargo do governo ao qual Caetano Veloso se refere na citação que inicia esse texto foi feito pelo presidente José Sarney, em 1985. A atriz recuou, embora tenha recebido apoio da classe artística. Movimento semelhante de solidariedade “abraçou” Fernanda recentemente quando ela foi chamada de “sórdida” pelo Diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte, o dramaturgo Roberto Alvim. As ofensas de Alvim estavam direcionadas à publicação neste mês da revista literária Quatro cinco um, em que Fernanda aparece amarrada sobre livros como uma bruxa prestes a ser queimada em uma fogueira.

“Querida amiga Fernanda, baixeza e obscurantismo não fazem parte do nosso cardápio. Meu carinho e admiração eterna a você, que sempre será nossa fonte maior de admiração e orgulho”, escreveu Arlete Salles em seu Instagram, em defesa à atriz, que também nasceu Arlete. Carioca, Fernanda Montenegro recebeu o nome de Arlete Pinheiro da Silva, mas logo adotou o codinome artístico. Em comum, as atrizes também têm o início da carreira no rádio. Foram se encontrar profissionalmente somente em 2015, na novela Babilônia, escrita por Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga. A personagem de Arlete, Conceição, combatia o casal lésbico Teresa e Estela, vivido por Fernanda e Nathalia Timberg, que chegaram a protagonizar um polêmico beijo gay.

 

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Fernanda trocou de pele inúmeras vezes durante estes anos de profissão, “nunca tive meu próprio rosto, nem postura”, disse ela em entrevista à Folha este ano. Já foi Nossa Senhora, em o Auto da Compadecida, longa de Guel Arraes. Vestida com um véu azul que lhe caia muito bem, apelava ao filho, Deus, para que o “pecador mor” da história, João Grilo, personagem vivido por Mateus Nachtergaele, fosse absolvido lembrando ao Todo Poderoso todos os dramas vividos pelo pobre homem em sua passagem pela Terra. Pediu e convenceu. Até Deus, no caso. Também deu vida à maldade, e muito. Na minissérie Hoje é Dia de Maria, de Luiz Fernando Carvalho, a personagem interpretada pela atriz seduzia a órfã Maria, que enfeitiçada pelo Diabo acorda adulta. No mesmo trabalho dividiu cena com Rodrigo Santoro, que enalteceu a gentileza, pertinente a atrizes do calibre de Fernanda.

“A primeira vez que vi Fernandona de perto foi num galpão de ensaio pra fazer a minissérie Hoje é Dia de Maria. Estávamos todos com roupas confortáveis pra ensaiar quando ela entrou no galpão também vestindo sua roupa de ensaio e um sorriso doce no rosto. Entrou discreta e se sentou no chão, se juntando a nossa roda de atores. Tivemos aulas de canto, expressão corporal, comédia Dell’arte. Eu ali, o dia todo admirando a sua humildade e entrega pra esse ofício tão lindo que escolhi seguir. No final do dia, me aproximei e deixei transbordar minha admiração por ela. Recebi um abraço tão caloroso e sincero que nunca esqueci’, escreveu Santoro em um texto postado no dia do aniversário da atriz, em 16 de outubro.

 

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Todos se rendem, isso é fato. Por telefone, prestes a embarcar para mais uma estreia, neste sábado, de um musical em homenagem à Carmem Miranda, Antônio Fagundes não economiza ao falar sobre a admiração que sente por Fernanda, que conheceu em 1969, aos 20 anos, com apenas três anos de profissão.

— Contracenamos pela primeira vez em uma peça do Fernando Torres. Eu fazia o namorado dela, que vivia uma personagem que ia dos 14 aos 40 anos. Eu era o namorado da personagem na adolescência. Naquela época, ela já era grande e maravilhosa. E ela conseguiu crescer ainda mais. Depois ainda contracenamos mais algumas vezes. Criamos um vínculo, e eu só lamento não poder ficar tão próximo dela por conta das agendas — lamentou o ator, ao lembrar que não pode estar presente nas comemorações dos 90 anos da amiga.

 

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Premiações

Fernanda é a única brasileira e primeira latino-americana a receber indicação ao Oscar de Melhor Atriz. O filme Central do Brasil, de Walter Salles, levou o nome da atriz para o mundo em 1999. A amargurada personagem Dora escrevia cartas para pessoas analfabetas, com promessa de enviá-las, mas, ao contrário, embolsava o dinheiro sem nunca postá-las. Isso até encontrar Josué, um garoto que acabara de perder a mãe e que deseja encontrar o pai que nunca conheceu. Ela reluta em cuidar do menino, mas embarca em uma viagem ao interior do Nordeste na busca do pai do menino Josué, interpretado por Vinícius de Oliveira, que na vida real era um engraxate de 12 anos que sonhava ser jogador de futebol e que ganhou do diretor Walter Salles o papel que transformou sua vida.
Vinícius, hoje aos 34 anos, celebra a participação na série Segunda Chamada, da Rede Globo. Por coincidência, a obra fala sobre professores, da importância da educação como um vislumbre de esperança. À sua mestre Fernanda, Vinícius rasga agradecimentos:

“Fernanda, com tudo que contribuiu para o país através da sua arte, da sua generosidade e lucidez, se encontra na cadeira mais nobre do panteão das deusas e dos deuses do teatro, cinema e tv. Está no mais alto nível da admiração, do sublime, da essência mais límpida que alguém pode manter. Que magnífico foi dividir cena, viagens e eventos com Fernanda. Certamente, o maior privilégio da carreira”, escreveu o ator em seu perfil do Instagram.

Além da indicação ao Oscar, Fernanda foi a primeira atriz brasileira a ganhar um Emmy Internacional na categoria Melhor Atriz pela atuação em Doce de Mãe, em 2013. Na obra produzida pela Casa de Cinema de Porto Alegre e exibido em um especial de fim de ano da Rede Globo, ela vive a divertida protagonista, Dona Picucha.

Foram muitos os prêmios e reconhecimentos recebidos por Fernanda Montenegro ao longo dos anos, mas ao que parece, quem mais ganhou com tantos personagens foram os parceiros de cena, atores e atrizes talentosos que seguem os passos de Fernanda como Carol Castro, reconhecida na última semana com o prêmio de Melhor atriz coadjuvante de longa metragem no Festival de Cinema Brasileiro de Los Angeles.

“Realizei um sonho antigo, que não sabia se um dia iria realizar. Que era dividir cena com essa grande Dama da arte. Enquanto esse dia não chegava, eu ia almejando e jogando pro universo… até que ela foi me assistir no musical “Nine” e me disse maravilhas depois do espetáculo. Olhando no olho, com aquela calma e sutileza na fala e na sempre feliz escolha das palavras. Passou um ano, e a vida me surpreendeu em nos colocar no mesmo filme. Um filme “família” onde iria contracenar com ela, com um roteiro da filha (Fernanda Torres), sendo mãe do filho da filha com o diretor Andrucha. Sim. Família. Foi como me senti. Acolhida. Muito por conta da generosidade de todos. E principalmente dela… Foram muitas madrugadas, de chuva, lama, cenas densas… e ela sempre lá. Com sorriso no rosto. Pronta pra cena. Feliz em exercer o ofício. Tão lindo de se ver! Um exemplo a ser seguido em TODOS os sentidos. A cada espera, uma conversa boa. Cada frase, uma aula” – escreveu Carol, em uma das tantas homenagens que Fernanda recebeu na celebração de seus 90 anos.

 

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E a história dessa grande atriz continua, não sendo nunca repetitivo falar e relembrar trabalhos feitos por ela, nem tão pouco destacar os que virão. O próximo é esse mesmo descrito por Carol, o suspense O Juízo, escrito por Fernanda Torres _ filha da atriz com o talentoso ator já falecido, Fernando Torres, com quem também teve Claudio Torres _ e dirigido por Andrucha Waddington _ pai do neto da atriz, Joaquim Torres Waddington, que irá contracenar com a avó no filme. O filme tem estreia prevista para 12 de dezembro. Com o longa-metragem A vida invisível, que estará nas telonas no próximo dia 31 de outubro, Fernanda pode voltar à festa do Oscar, já que o filme do diretor Karim Aïnouz representará o Brasil na disputa por uma vaga de melhor filme estrangeiro. As indicações ao Oscar serão apresentadas em 13 de janeiro, e a cerimônia de premiação acontecerá em Los Angeles, em 9 de fevereiro. E se existe algo que combina como tapete vermelho é o talento de Fernanda Montenegro. A torcida e o respeito do povo brasileiro ela já conquistou.

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