Ferreomodelismo: a diversão sobre trilhos que ultrapassa gerações

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Foto: Betina Humeres

Por Marcone Tavella / Especial

Na sala da casa da avó de Rocco Wolff, em Florianópolis, a televisão e os sofás são os artigos estranhos da decoração nas tardes de lazer do garoto de 10 anos. O chão fica tomado por circuitos de trilhos, miniaturas de locomotivas e vagões, além de réplicas de estações, pontes e construções. Há peças de Lego amontoadas em um canto e sobre uma mesa estão pilhas de livros e revistas que versam sobre ferreomodelismo, termo usado para definir o hobby de construir, colecionar, brincar e compartilhar conhecimento sobre o transporte ferroviário em escala reduzida.

O estudante do 5º ano conta que a paixão por trens iniciou aos 3 anos, no colo da tia, quando assistiu pela primeira vez a um episódio do desenho animado Thomas e seus amigos.

– Não queria parar de ver. Era muito interessante – lembra.

Não demorou para que Larissa, a mãe dele, atendesse aos pedidos do filho por um kit com trilhos, locomotivas e acessórios inspirados na animação da Discovery Kids.

– Desde então os presentes dele são relacionados ao mundo dos trens. No Natal ou aniversário, eu tenho que enviar aos parentes links com listas de objetos que ele deseja para a coleção e assim evitar que ele receba alguma outra coisa que certamente será ignorada – diz ela.

Para Rocco, a diversão está em montar as estradas, definir a localização da estação, do pátio de manobra, a vegetação ao longo do trajeto e demais objetos para compor a paisagem. Com tudo em ordem, entra em jogo a imaginação do menino e rolhas de vinho tornam-se fardos pesados de feno que devem ser transportados com urgência para a estação mais próxima.

– Sempre tem um acidente para resolver – antecipa ele, que pretende ser engenheiro ferroviário quando crescer.

Foto: Betina Humeres

A curiosidade de Rocco extrapolou há muito tempo a brincadeira. O assunto está em suas redações, desenhos e determina o que ele vai ou não assistir.

– Ele adora ver documentários com trens, estradas de ferro, rotas de carga – observa a mãe.

Tanto conhecimento se evidencia quando o menino cita com segurança fatos e personagens históricos. Ele reconhece, por exemplo, a importância do empresário Barão de Mauá, pioneiro no setor e inspiração para o nome da primeira locomotiva a vapor a circular no país, em 1854, apelidada de Baronesa pelo Imperador Dom Pedro II.

– Seria a melhor opção de transporte para o Brasil, porque leva muito mais carga que um caminhão, com muito menos –, argumenta, demonstrando a visão que tanto faltou aos
governantes no último século – segundo dados da ANTT, a malha ferroviária atual
tem a mesma extensão de 1922, com pouco mais de 29 mil quilômetros.

Tendência de crescimento mesmo, a princípio, somente no minimundo administrado pelo garoto, que promete se comportar bem aos olhos dos parentes para viabilizar mais trechos, modernização e diversificação de seus equipamentos.

No último Natal, Rocco ganhou as primeiras peças para a montagem da maquete, um projeto que ele vem comentando há bastante tempo com os amigos da escola. Tudo está no princípio. Miniaturas de árvores resistem na embalagem e a placa de madeira que será a base do cenário tem aspecto de nova. Mas já é possível fazer rodar o trem elétrico sobre o compensado com pouco mais de um metro quadrado de área. Ao acionar o dispositivo, o menino fica hipnotizado pela réplica perfeita de locomotiva que desliza pelos trilhos do circuito oval.

– Eu sou o maquinista! – constata satisfeito.

 

Uma viagem por gerações

Desde que foi comprado por Nelson Damian, em 1984, o trenzinho elétrico vem se carregando de significados na família do farmacêutico bioquímico.

Oficialmente, a réplica do modelo G-12 da Fepasa (Ferrovia Paulista S.A.) foi um presente para Andrei, filho que estava pra completar dois anos na ocasião. Mas o brinquedo era acima de tudo uma vontade antiga de Nelson, um desejo de infância.

– Na casa de amigos mais abastados havia vários trenzinhos que os pais traziam de viagens ao exterior. Eu gostava muito de brincar com aquilo, mas nunca pude ter um – recorda-se.

Foto: Tiago Ghizoni

Ao redor dos trilhos, no chão da sala, pai e filho interagiam por horas com histórias e missões executadas pela locomotiva e os vagões. O trato com as engrenagens, o estímulo à exploração do funcionamento deste e de outros objetos pela casa acabaram por influenciar a formação de Andrei, que mais tarde se formaria Engenheiro Mecânico na UFSC.

– Com certeza estas brincadeiras contribuíram para que eu desenvolvesse esse gosto por consertar coisas. Foi um tempo bom, de muita curiosidade, em que eu e meu pai éramos parceiros nestas aventuras – diz ele.

Recentemente, depois de muitos anos guardado com status de especial, o modelo voltou a sair da caixa para preencher as horas de convívio de Nelson, Andrei e de seus dois filhos, Alan, 7 anos, e Artur, 4.

– Montamos em dias chuvosos, que é um bom momento para ficar dentro de casa. É uma atividade que mantém eles entretidos, longe das telas e mais perto da gente – conta Andrei.

Para o avô é especial vê-los brincando. Alan é minucioso no carregamento dos vagões, enquanto
Artur chega a simular voos com a locomotiva.

– É como no filme De Volta Para o Futuro 3, né Artur?”, diz Nelson, estimulando a imaginação do caçula, enquanto desfruta um pouco mais do seu sonho de criança.

 

Hobby secular

O ferreomodelismo é um hobby que surgiu na esteira da primeira revolução industrial, como uma representação artística e artesanal dos trens a vapor que cortavam a paisagem em transformação da Europa no século XIX.

A prática no Brasil teve pouca representatividade até meados dos anos 1950 e 1960, quando passou a ter um aumento na importação de trens em miniatura, tendo como pano de fundo a política de industrialização do governo Juscelino Kubitschek (1956-1961) e a chegada da Volkswagen (1953) e outras empresas estrangeiras que vinham de países onde a cultura do trem como meio de transporte era mais consolidada.

Foto: Tiago Ghizoni

Foi neste contexto que nasceu a Frateschi, fabricante brasileira de trens em miniatura e que está no mercado desde 1967. Hoje, é a única especializada em ferreomodelismo na América Latina, com 120 pontos de vendas no Brasil e em 12 países. Lucas Frateschi é herdeiro deste negócio que passou do seu avô, Galileu, para seu pai, Celso.

– Meu avô tinha uma pequena fábrica de brinquedos e passou a fazer acessórios para os modelos da Atma, que era a empresa fabricante da época. Começou assim – conta o empreendedor.

O foco da empresa é na fidelidade ao protótipo, com miniaturas de modelos que existem ou existiram em estradas de ferro do Brasil. A empresa também promove a cada dois anos um encontro de ferreomodelismo. SC tem poucos adeptos, segundo o revendedor da Frateschi, Gilberto Dassi, proprietário da Starcar Modelismo, loja de Balneário Camboriú.

–A falta de uma cultura do transporte contribui para que não se popularize como o radiomodelismo (transportes em miniatura controlados por controle remoto) – aponta ele.

 

Brincadeira de longo prazo

Em tempos de verdadeira dependência do meio digital, o ferreomodelismo pode ser uma boa maneira de estimular diversas habilidades ao mesmo tempo.

Um projeto de maquete envolve práticas de marcenaria na montagem do cenário, mecânica na modificação e manutenção das locomotivas, elétrica nas ligações para fazer o trem funcionar, além de pintura das peças e do ambiente.

Lucas Frateschi destaca ainda o desenvolvimento do raciocínio lógico e um pretexto interessante de convívio familiar.

Para fazer parte deste mundo é preciso antes de tudo planejamento, pois se não for encarado como uma atividade de lazer a longo prazo, muito provavelmente esta será só mais uma forma de esvaziar os bolsos.

A Frateschi oferece nove modelos de caixas básicas, com preços que variam de R$ 360 a R$ 410 e já contam com locomotiva, três vagões, trilhos retos e curvos e controlador de velocidade e direção.

A outra dica aos interessados é se informar ao máximo. Há muito material na internet, além de grupos em redes sociais com colecionadores antigos e dispostos a dar qualquer orientação. O site www.vfco.brazilia.jor.br, da Revista Centro-Oeste, é um dos mais completos. A publicação circulou entre 1984 e 1995, mas é atualizada até hoje e conta com cinco mil páginas de informação sobre o hobby.

São infinitas as possibilidades de maquete para seu ferreomodelo e os cenários podem ocupar um cômodo da casa ou até interagir com a decoração, percorrendo sala, cozinha, quarto.

– O combustível é a imaginação – enfatiza Frateschi.

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